S. Paulo – A divulgação do Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas, edição 2007, pelo Instituto Ethos de Responsabilidade Social, nesta quarta-feira (12/12), serviu para confirmar o que já se sabia pelos levantamentos anteriores, realizados em 2003 e 2005: as mudanças no mundo corporativo, em relação a inclusão de negros e mulheres são tão lentas que quase não são notadas.
Embora entre 2004 e 2006, a população negra do país tenha crescido 1,5 ponto percentual – de 48% para 49,5% – simultaneamente a diminuição da população branca – de 51,4% para 49,9% – os negros continuam tendo uma participação praticamente simbólica nos quadros executivos das empresas: 3,5% contra 94% de brancos, 0,4% de indígenas e 2,1% de amarelos.
Segundo o IBGE os negros representam 46,6% da população economicamente ativa e 44,7% da ocupada. Nos quadros de gerência, no entanto, a participação negra praticamente dobrou em relação ao levantamento anterior: pulou de 9% em 2005 para 17% este ano. A parcela branca continua, porém, com 81%, os indígenas são 0,2% e os amarelos, 1,8%.
Nas áreas de supervisão e no quadro funcional, respectivamente, a desvantagem fica também evidente: 80,1% dos cargos são ocupados por brancos, 0,2% por indígenas, 2,3% por amarelos e 17,4% por negros; no quadro funcional, 73% são brancos, 0,5% indígeneas, 1,4% amarelos e 25,1% negros.
Cor da pele
Os dados revelam que os efeitos do racismo variam de acordo com o tom da pele, atingindo mais pesadamente pretos do que pardos, em todos os níveis. No quadro executivo os pretos são apenas 0,5% dos ocupantes de cargos, contra 3% dos pardos. Perdem inclusive dos orientais que ficam com 2,3%, mas representam cerca de 0,7% da população brasileira, e empatam com os indígenas, que tem 0,4%. Segundo dados do IBGE existem cerca de 740 mil indígenas entre os 184 milhões de brasileiros.
A discriminação também fica explícita nos demais quadros das epresas: na gerência são 2% de pretos contra 15% de pardos; na supervisão 2,4% de pretos contra 15% pardos, e no quadro funcional 5,6% de pretos contra 19,5% de pardos.
Mulher Negra
A situação é muito pior em relação as mulheres negras que têm presença de 7,4% no quadro funcional, 5,7% no quadro de supervisão, 3,9% na gerência e apenas 0,26% no quadro executivo. Num total de 1.518 diretores, que informaram a raça, apenas 4 negras ocuparam cargos nesse nível – 3 pardas e uma preta.
Os indicadores revelam que há mais mulheres orientais do que pretas em cargos de diretoria (3,8% e 0,5% do total de diretoras) e na gerência (2,4% e 1,5% do tal de gerentes). Na população brasileira as mulheres pretas são 6,1% contra apenas 0,7% de mulheres orientais, de acordo com o IBGE.
Programas
Apesar da desigualdade, a questão racial é a que menos tem recebido atenção das empresas: apenas 6% declararam manter programas específicos para promover igualdade de oportunidades para pessoas negras, enquanto 20% têm programas voltados às mulheres e 67% têm estratégias para contratação de deficientes.
“As questões raciais ainda são mais delicadas para as empresas. Há uma resistência cultural, não explícita, à implementação de programas com esse perfil”, diz Itacarambi. Segundo ele, muitas empresas temem parecer preconceituosas ao fixar metas para contratar negros.
Mulheres
Em relação à presença de mulheres, a pesquisa identificou alguns avanços, embora tímidos. A participação em cargos executivos, por exemplo, praticamente dobrou desde o primeiro estudo, em 2001: era de 6% na primeira pesquisa e hoje é de 11,5%.
“Os dados mostram progressos. Porém, quando comparados à participação das mulheres no mercado de trabalho e grau de escolaridade, mostram que elas ainda estão sub-representadas”, afirmou Junia Puglia, vice-diretora do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) para Brasil e Cone Sul.
As mulheres hoje representam 43,5% da população economicamente ativa e são maioria (55%) entre os brasileiros que conseguiram atingir pelo menos 11 anos de estudo, segundo dados do IBGE. “As empresas ainda não refletem essa realidade”, acrescentou Puglia.
Hora da verdade
No lançamento dos indicadores, no Banco Real da Avenida Paulista, em evento aberto pela superindentente de Recursos Humanos da instituição, Maria Cristina Carvalho, o presidente do Ethos Oded Grajew destacou a importância dos indicadores. “Os indicadores são um instrumento para agir. Não é uma atividade acadêmica. São importantes para a luta pela justiça social no país. Esta é a hora da verdade”, disse.
O diretor executivo do Ethos, Paulo Itacarambi, que fez a apresentação ressaltou a lentidão das mudanças, porém destacou o grande aumento no percentual de empresas que desenvolvem alguma iniciativa em favor da promoção da equidade. Eram 52% no levantamento anterior e agora são 79%. Também destacou o aumento do número de empresas que responderam ao questionário: foram 119 em 2005, e agora passaram a 132 empresas. “Mais empresas assumem que têm políticas de diversidade, mas os resultados dessas políticas só devem ser visíveis no longo prazo.”

Da Redacao