Brasília – A apenas 11 dias das eleições, os quatro principais candidatos a Presidência da República – Luis Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque -, chegaram a um raro consenso, em relação a um tema que divide a sociedade brasileira: todos dizem ser favoráveis às ações afirmativas e às cotas para negros e indígenas.
Na resposta que deram por escrito a pergunta encaminhada pelo leitor André Ricardo (o senhor, ou a senhora, é a favor ou contra as cotas para negros nas universidades?), os presidenciáveis não tiveram muito espaço para as ginásticas verbais que, normalmente, sucedem às “perguntas difíceis”. O Presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, ainda tentou, falando de “ações afirmativas, inclusive cotas, para a escola pública” e que “as cotas devem beneficiar os estudantes mais pobres “tenham eles a cor da pele branca, negra, amarela ou vermelha”.
A senadora Heloísa Helena, do PSOL, igualmente tentou tangenciar dizendo-se favorável a uma política de cotas que tenha por base uma reserva de vagas para alunos oriundos das escolas públicas. “depois dessa primeira reserva, pode ser feita uma segunda cotização baseada numa política afirmativa que garanta acesso a negros e índios”.
Já o ex-governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, se disse simplesmente favorável às ações afirmativas, lembrando que cotas é um tipo de ação afirmativa e de ter criado a pontuação acrescida na escola pública para alunos afro-brasileiros.
Dos quatro, o mais incisivo na resposta foi o ex-ministro da Educação e candidato do PDT, Cristovam Buarque: “Faz 120 anos que acabamos com a escravidão e continuamos com uma elite branca num país onde maior a parte da população é negra”, afirmou em defesa das cotas.
Veja a resposta completa dos candidatos:
Lula – Não se trata simplesmente de defender cotas para negros ou índios. Trata-se de defender e aplicar ações afirmativas, inclusive cotas, sim, para a escola pública, objetivando acelerar a reparação de injustiças sociais que perduram há séculos. Essas cotas devem beneficiar os estudantes mais pobres, tenham eles a cor da pele branca, negra, amarela ou vermelha, de acordo com o peso de cada grupo social na composição da população. É o que estamos fazendo com o ProUni, que já concedeu 204 mil bolsas de estudo para que alunos de baixa renda pudessem entrar na universidade, e tem cotas para afro-descendentes e índios. Uma crítica que surgiu em relação às cotas – quem sabe, preconceituosa – supõe que sua aplicação poderia trazer algum prejuízo acadêmico. Em 14 instituições federais de ensino superior, onde aplicamos esse conceito de cotas para a escola pública, são justamente esses alunos mais pobres que mais têm se destacado em sala de aula.
Alckmin – Sou favorável a ações afirmativas. Cota é um tipo de ação afirmativa. No governo de São Paulo, eu criei a pontuação acrescida para alunos da escola pública e afro-brasileiros. Assim, sem eliminar o mérito, esse sistema tem ajudado muito a ampliação do acesso à universidade.
Heloísa Helena – Nosso programa contempla a expansão da oferta de vagas no ensino superior, preferencialmente público, como manda o Plano Nacional de Educação. Sou favorável ao estabelecimento de uma política de cotas que tenha por base uma reserva de vagas para alunos oriundos das escolas públicas, na sua grande maioria pobres e negros. Depois dessa primeira reserva, pode ser feita uma segunda cotização baseada numa política afirmativa que garanta acesso a negros e índios. Enquanto não conseguirmos acabar com o preconceito e com a grande desigualdade social existente no país, políticas afirmativas serão necessárias. Agora, essas políticas serão parte de um conjunto de medidas de distribuição de renda, e não programas paliativos.
Cristovam – O Brasil tem uma dívida com os negros. Faz 120 anos que acabamos com a escravidão e continuamos com uma elite branca num país onde maior a parte da população é negra. Vamos corrigir essa distorção por meio de uma revolução na educação de base, garantindo que todos os brasileiros terminem o ensino médio com qualidade e disputem em condições de igualdade uma vaga na universidade. Se fizermos isso a partir de agora, levará 15 a 20 anos para surtir efeito. Até lá, temos de ser favoráveis às cotas para aumentar o número de jovens negros na universidade. Quero lembrar que para se beneficiar da cota o negro tem de passar no vestibular. Por isso, não vai beneficiar os pobres. Mas vai mudar a cor da cara da elite brasileira. Além disso, quem entra pelas cotas é porque passou no vestibular, mas não ficou dentro do número de classificados. Por isso, minha proposta é que o aluno negro que se beneficie das cotas não tire o lugar de nenhum branco. Se 50 passaram no vestibular, havendo só 30 vagas, e entre os 20 excedentes ficaram dois ou três negros, a universidade aumenta o número de vagas para absorver esses jovens negros. Isso é o jeito, não é a solução. É o jeitinho que o Brasil está devendo aos negros. Um país justo não precisa de cotas. Mas um país que nega cotas é mais do que injusto. É um país que quer esconder a própria injustiça.

Da Redacao