A garantia de defesa – ainda que póstuma – a um homem negro, filho de escravos, nascido livre, que entrou para a história como o primeiro serial killer brasileiro, acusado pela morte de três adolescentes homens com características de sadismo e necrofilia, mas, que jamais foi julgado pela Justiça, é o que pretende a Cia de Teatro Pessoal do Faroeste, ao promover a leitura dramática do texto “Os Crimes do Preto Amaral”, do dramaturgo e diretor Paulo Faria.
A peça foi montada em 2006 e a leitura dramática está marcada para acontecer no próximo dia 15, às 9h, no auditório da Defensoria Pública do Estado.
Após a leitura dramática, acontecerá finalmente o julgamento no dia 21 de março de 2012 – Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial, declarado pela ONU – no auditório da Defensoria Pública de S. Paulo.
A leitura dramática contará com a participação do elenco do espetáculo Cine Camaleão – a Boca do Lixo, do mesmo grupo – Mel Lisboa, Beto Magnani, Juliana Fagundes, Lorenna Mesuqita, Roberto Leite, Thais Aguiar, Higor Vasconcelos e participação especial de Neusa Borges, Bri Fiocca e Rogério Brito, atores do elenco da montagem original.
Preto Amaral
José Augusto do Amaral, o Preto Amaral, foi acusado em 1927, por médicos e advogados, como autor dos crimes hediondos que levaram à morte três adolescentes do sexo masculino, com características de sadismo e necrofilia.
A história do “criminoso” foi resgatada pelo Doutor em História, Paulo Fernando de Souza Campos. O núcleo central de seu estudo propõe uma reflexão em torno das representações da degeneração da raça no início do sec. XX, em específico as produzidas pela pesquisa forense.
Abordando uma série de crimes ocorridos na passagem de 1926 para 1927, o estudo investiga como as imagens decorrentes das representações dos eventos trágicos que marcaram a vida de um homem comum, negro, filho de escravos e nascido livre, incidem negativamente sobre os pobres e despossuídos no processo de integração na sociedade de classes, estereotipando-os como indivíduos violentos, criminosos e inferiores na escala da “evolução humana”.
A documentação utilizada na pesquisa recuperou laudos médicos, perícias policiais, depoimentos, fotografias, artigos publicados na imprensa e revistas especializadas da época sobre os crimes impetrados a Amaral. Possibilitando analisar as relações de poder, as estratégias e a dominação nas quais os discursos se estabelecem.
Os resultados demonstraram que os efeitos de real atribuídos às representações de degenerância pretenderam legitimar a exclusão dos negros, impondo-lhes uma tara hereditária que o desclassificam. A tese defende, ainda, a idéia de que a persistência da identificação do negro como criminoso, sedioso e vagabundo vincula-se às características especificas das relações de poder no Brasil.
Panorama da Época
Os crimes aconteceram na periferia da cidade de São Paulo do início do sec. XX. Devido ao precário saneamento, bairros pobres e populosos, eram locais de moradia de trabalhadores operários e de despossuídos. Os perigos constantes das doenças contagiosas, preocupavam os administradores da cidade, ao mesmo tempo, produziam um certo desprezo por parte das elites paulistanas, que viam no mundo hostil em que viviam os pobres as formas de contágio e proliferação dos miasmas, formando uma barreira nas relações sociais entre ricos e pobres, brancos e negros.
Não é por mero acaso que instituições com caráter e finalidades diversas tenham sido criadas, em São Paulo, com o objetivo de cada qual na sua área, estudar, conhecer, identificar e propor soluções às questões urbanas justamente no momento em que a sociedade paulista deparava-se com o acelerado crescimento urbano-industrial, com a agudização de conflitos sociais e com setores desta sociedade expressando desejos de construir uma nova ordem nacional e um perfil do trabalhador.
O combate a essa fatia da sociedade se dá através da esterilização dos degenerados e criminosos, constitui uma das medidas complementares da política eugênica, impedindo paternidade indigna, a procriação de cacopáticos e desgraçados. Essa é a idéia vigente do grupo presente ao casamento de Orfeu e Eurídice, personagem de Os Crimes de Preto Amaral.
Os Crimes do Preto Amaral
A partir desse pano de fundo histórico, é construída a trama de Os Crimes de Preto Amaral, que tem seu enredo inspirado no mito de Orfeu e Eurídice. O que interessa buscar neste mito é o essencial que nos faz ir até o fundo das coisas e de nós mesmos, como Orfeu que desceu à morte para buscar sua amada Eurídice. E de como Eurídice ao pisar na serpente – na psicanálise, encarna a psique inferior, o psiquismo obscuro, o que é raro, incompreensível, misterioso -, mergulha na morte, na transformação, na mudança, no renascimento.
O Mito: Orfeu e Eurídice na década de 20
O texto de Os Crimes do Preto Amaral é baseado na história do mito grego de Orfeu (apaixonado pela ninfa Eurídice, Orfeu vai até o inferno para buscá-la, após sua amada morrer picada por uma serpente).
“Pode-se dizer Amaral é a serpente que pica Eurídice e a tira de Orfeu. A relação do casal, o conflito entre suas opiniões e ideais acabam se transformando no foco da trama”, explica Paulo Faria. Na peça, Preto Amaral também vira personagem da novela de suspense que o jornalista Hemineu de Carvalho escreve na redação do jornal de sua poderosa família Carvalho. Os únicos personagens históricos reais do espetáculo são Preto Amaral e as mães das vítimas de seus crimes.
O restante é inspirado em figuras que fazem parte do mito de Orfeu e personagens da história da São Paulo desse período. Transposta para a década de 20, época retratada no espetáculo, a personagem Eurídice é uma jovem advogada contrária à doutrina da eugenia (crença em que a violência é transmitida geneticamente, por isso, criminosos precisam ser esterilizados), defendida pelo clã de Dr. Apollo de Freitas, propagador da idéia da eugenia no Brasil. Dr. Apollo é pai do médico Dr. Orfeu de Freitas, e noivo de Eurídice. No dia do casamento do casal, a jovem advogada fica sabendo do caso de Preto Amaral e, indignada com o fato do homem não ter tido uma defesa e ser pré-julgado como culpado, assim que retorna da sua lua de mel, resolve assumir o caso, indo contra seu marido.
Serviço:
Leitura dramática: Os Crimes do Preto Amaral
Data: 15 de dezembro de 2011
Horário: 9h
Local: Auditório da Sede da Defensoria Pública do Estado SP
Endereço: Rua Boa Vista, 200
Julgamento de José Augusto do Amaral
Data: 21 de março de 2012