Uma vez, perguntei ao Janú, como é conhecido na intimidade, em que momento o seu universo das representações substituíram os apelos do mundo real. Onde o seu envolvimento com a descoberta de que poderia voar através das imagens, o alfabetizou?
Respondeu-me de maneira original e peculiar: “Meu cumpadre, ih!… É uma longa história. Só para resumir, quando eu era muito pequeno ganhei aquelas revistinhas em quadrinhos Tico Tico – a primeira a publicar quadrinhos regularmente no Brasil e que no último 11 de outubro completou 100 anos de nascimento -, sabe qual é? Tinha lá uma parte da revista que ensinava a construir umas engenhocas com caixa de mate -leão, fazer umas químicas…. Comecei aprender ali a imaginar e a fazer”.
Em algum momento li, porque gosto de biografias, as particularidades da personalidade de um fotógrafo francês chamado Henry Cartier Bresson, que eternizou o seguinte pensamento, sobre como o que é ser um trabalhador da imagem e o seu papel social: “Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”: Bresson, mais adiante, afirma que suas imagens não conhecem limites e que, na vida, não importam as respostas e sim as perguntas.
Januário Garcia é por natureza um questionador irrequieto de sorriso franco e olhos de águia, que vai a busca da informação, aonde quer que ela esteja. Características da “melhor qualidade” das aves de rapina, que não perdem a viajem e deixam, por onde passam suas pegadas e penas, como marcas da personalidade.
A fotografia necessita, além de câmara, uma cabeça pensante. O Orí de Janu, com certeza, está plantado regido por Obaluaê e, como reza na mitologia a sua missão atua na evolução – terra e água ao mesmo tempo – e, por vezes, remédio.
Portanto, esse conjunto de características pode transformar o homem em referência para outros homens… e assim também caminha a humanidade. Precisamos muito mais de questionadores do que missionários para combater, com eficácia, as esquizofrenias, que o mundo moderno é capaz de produzir.
Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, homenageou o pai. Seu Januário, com várias letras musicais. O fazendeiro Januário Garcia Leal, dono de escravos no sul de Minas, em 1802, ficou conhecido como “O sete orelhas”. Formou a primeira milícia justiceira da história. Tinha por hábito decepar a orelha dos inimigos, como vingança, fazendo a sua própria justiça prevalecer. Uma loucura antiga. São Gennaro é o santo padroeiro de Nápoles, na Itália, e aqui, no Rio, o São Januário é o maior estádio particular da cidade. E, que me desculpem os vascaínos, não significa ser o melhor.
Quantos Januários há, por aí, com histórias pitorescas e fantásticas? Porém, o nosso personagem é mineiro, com o coração carioca da gema, flamenguista, com uma família genial. De uma maneira muito simples, ele nos tem proporcionado, através do seu cuidadoso trabalho como fotógrafo militante, muitas inspirações, promovendo elementos positivos na construção de identidades e noções de cidadania.
O que nos resta, agora, é pedirmos aos Orixás proteção e que os caminhos destas experiências sejam protegidos para uso fruto das novas gerações.
O título do artigo originalmente é “Preto no Branco – Imagens que não conhecem fronteiras”.

Luiz Paulo Lima