"Rio de Janeiro – O delegado Pedro Paulo Pontes Pinho foi exonerado da delegacia do Catete (9ª DP), na zona sul do Rio de Janeiro, após usar o microblog Twitter para criticar o serviço público e a produtividade de colegas de trabalho, sobretudo mulheres. Ele completaria dois anos no cargo em fevereiro.

"São Paulo – Desde o dia 21 de dezembro do ano passado, policiais militares do bairro Taquaral, um dos mais nobres de Campinas, cumprem a ordem de abordar “indivíduos em atitude suspeita, em especial os de cor parda e negra”. A orientação foi dada pelo oficial que chefia a companhia responsável pela região, mas o Comando da PM nega teor racista na determinação.

 

"O documento assinado pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci orienta a tropa a agir com rigor, caso se depare com jovens de 18 a 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura. Essas seriam as características de um suposto grupo que comete assaltos a residências no bairro."

O caso do delegado Pedro Pinho, do Rio de Janeiro tem um indicador interessante: o alvo preferencial de suas críticas foram as mulheres. Sumariamente, a Chefe de Polícia, Delegada Martha Rocha, exonerou o delegado, um dia após tê-lo transferido para a "geladeira" da polícia civil.

Ou seja, o caso em questão tomou o rigor que tomou antes de tudo por uma questão de gênero, por sinal, nada mais justa, pois sabemos nós, as mulheres hoje em dia não têm que provar absolutamente nada em nenhum campo profissional em que atuem. Sendo assim, o delegado correu o risco de pagar pelas palavras proferidas e pagou com a demissão.
 
Já o caso de São Paulo só ganha repercussão porque hoje, milhares de internautas estão divulgando, via redes sociais, um ofício assinado pelo Capitão da PM orientando que "negros e pardos" deveriam ser abordados como suspeitos.
 
No Rio de Janeiro, há a figura do "suspeito padrão", que é sempre definida como "jovem e negro". Este suspeito padrão, por padrão já está estabelecido e, desde a academia de polícia, os agentes da lei já saem com a nítida noção de quem devem e como devem abordar. Não é à toa que os mais altos índices de prisão e mortes são de jovens e negros.
 
O caso do capitão Beneducci pode até parecer a ponta do iceberg, mas na verdade é um dado sabido e havido da realidade policial brasileira em todo o país. A realidade sócio-econômica e étnico-racial brasileira coloca os jovens negros na paradoxal posição de vítimas e algozes da violência.
 
Sem condições de estudos e muito menos de inserção no mercado de trabalho, estes jovens encaminham-se para o uso de drogas, o tráfico e toda a cadeia criminosa daí advinda, tornando-se, portanto, vetores da baixa criminalidade, aquela que o policiamento ostensivo enfrenta no cotidiano das cidades.
 
No entanto, estes jovens também são vítimas pois nunca na vida fizeram a opção pela criminalidade, ela lhes foi imposta como um determinismo natural a partir de uma lógica de nação que busca cada vez mais excluir a população negra dos acessos a bens e serviços, dando às camadas mais pobres de sua população a única alternativa de buscar a criminalidade e o sub-emprego.
 
Quando um documento oficial, assinado por um oficial superior da PM, publiciza aquilo que as organizações negras do país já denunciam há décadas, temos a certeza que estamos dando passos curtos, mas significativos, para dar fim a este estado de coisas. No entanto, tal como aconteceu no Rio, não basta pensar apenas na demissão do oficial envolvido, pois, se no Rio o delegado expressou opinião através de uma rede social, no caso de São Paulo, o oficial repercute o que é o pensamento oficial da corporação com relação à figura do "suspeito padrão".
 
Logo, esta questão abre um flanco importante na discussão real e concreta sobre que tipo de segurança pública queremos para o nosso país. De preferência uma onde todos os cidadãos e cidadãs sejam respeitados em sua individualidade, em sua natureza e em sua raíz, seja ela étnico-racial, etária ou regional.

 

Marcio Alexandre Martins Gualberto