GASPAR/SC – O professor Jobson Bispo Mascarenhas, de Gaspar, em Santa Catarina, está sendo alvo de uma campanha de intolerância e perseguição religiosa desencadeada por pais de alunos da escola em que leciona – a Escola Estadual de ensino fundamental Ivo D’Aquino.

A campanha iniciada por pais evangélicos começou no início do ano atual ano letivo, quando o professor, que é candomblecista e está em processo de iniciação, começou a frequentar as aulas vestindo roupas brancas.

Ele destaca que tem usado roupas sociais normais camisas, sapatos, tênis, só que brancos, o que começou a chamar a atenção de alunos e pais da Escola, de maioria evangélica ligada à Assembléia de Deus.

Foi o bastante para dar início a campanha que já inclui ameaças ao professor. Gaspar é uma cidade de cerca de 80 mil habitantes que fica ao lado de Blumenau, no Vale do Itajaí.

A Constituição Federal, no artigo: 5° VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.
CASO DE POLÍCIA

Os pais evangélicos passaram a acusar Mascarenhas de ateísmo, “de não acreditar na volta de Jesus” e a assediá-lo, com acusações relacionadas à sua conduta como professor e fé religiosa.

Numa reunião de pais e professores no dia 23 de março passado, um homem, cuja identidade é desconhecida, suposto padastro de aluno e que diz ter fortes influências políticas na cidade, o agrediu com palavras e fez ameaças.

“Ele me disse que não falava com gentinha como eu, gente do meu tipo, gente de seita, que ele não tinha paciência para tratar com gentinha da minha raça”, conta o professor ainda chocado com o grau de violência e agressividade. O caso foi registrado num Boletim de Ocorrência na Delegacia de Polícia da cidade.

Jobson é professor de Ensino Religioso, formado em Ciências da Religião pela Universidade Regional de Blumenau (Furb) e atua como em caráter temporário na rede estadual, lecionando em Gaspar e também em Blumenau.

Segundo ele, as denúncias de que estaria “doutrinando” os alunos para o Candomblé são apenas o pretexto para a campanha de perseguição.

“Não faço proselitismo. Me atenho ao conteúdo da matéria que leciono. Jamais fiz qualquer menção ao fato de ser do Candomblé ou convidei alguém para frequentar o meu terreiro”, acrescenta.

A campanha de intolerância e perseguição religiosa contra o professor catarinense já chegou a outras cidades do Vale do Itajaí e do Estado, o que provocou uma Nota de denúncia Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Estadual de Santa Catarina (Sinte/SC).

Segundo os dirigentes do Sindicato, o que está ocorrendo com o professor de Gaspar “é um crime previsto em lei e precisa ser severamente punido para garantir a liberdade de cátedra do professor, bem como respeito a sua religiosidade”. Os dirigentes disseram que levarão o caso ao Ministério Público.

OMISSÃO E CONIVÊNCIA

A campanha estaria contando com o apoio velado da diretora da Escola, Thaís Helena Marques Coradini.

Embora não endosse abertamente as atitudes de alunos, na prática, sua postura junto à Coordenadoria REgional de Educação e Secretaria de Educação do Estado, acaba por reforçar as suspeitas de proselitismo contra o professor.

“A única coisa que a agente pode dizer é que tanto a Escola quanto a coordenadoria e a SED não tolera nenhum tipo de violência, seja para alunos, pais ou professores”, disse ao jornal Metas, de Gaspar, colocando a vítima e os seus agressores, no mesmo nível.

Ela também omite os nomes dos responsáveis pela perseguição a Mascarenhas.

A Secretaria da Educação e a Coordenadoria Regional de Blumenau tem reforçado o discurso ambíguo de que estão apurando “os fatos relacionados à denúncia de intolerância religiosa, bem como os relatos de uma suposta conduta inadequada por parte do professor na sala de aula. A CRE e a gestão da escola sendo orientados pelo  Núcleo de Educação e Prevenção à Violência na Escola (NEPRE) da Secretaria para que todas as medidas pedagógicas e administrativas diante do caso sejam tomadas”.

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Professor que alega sofrer preconceito por conta de sua religião depõe na Delegacia de Polícia Civil