S. Paulo – A professora Ellen de Lima Souza, que foi afastada da coordenação do Curso de Pedagogia e demitida da Faculdade Zumbi dos Palmares, por ter liderado um movimento de alunas contrárias à minissérie “O Sexo e as Negas”, do diretor Miguel Falabella, que vai ao ar todas as terças-feiras pela TV Globo, disse que o movimento surgiu do inconformismo das alunas e pela contradição com o que ela entende deveria ser o projeto pedagógico da instituição.

“Do ponto de vista educacional, os estereótipos sustentados pela produção da Rede Globo são incompatíveis com uma formação democrática, justa, equânime e igualitária que tentamos desenvolver enquanto educadoras. Assim, esta série traz aportes sexistas e racistas que violentam a todos os telespectadores, pois posiciona a mulher negra em um lugar de subalternidade”, afirmou.

Ao comentar afirmação do reitor José Vicente, que se disse preocupado com "uma certa tendência à defesa do pensamento único", que estaria observando "em alguns setores do movimento negro", ela disse ter estranhado a afirmação: “O que somos contrárias é à ideologia racista e sexista presente na obra “Sexo e as Negas” e o que precisamos questionar é por que nós mulheres negras estamos sempre representadas como objetos sexuais?”, acrescentou.

Em entrevista à Afropress o reitor considerou “perigosas” e “preocupantes” certas manifestações que, segundo ele, parecem querer interditar o debate e disse que à resistência à minissérie “é fundamentalismo”. “Daqui a pouco vai se determinar como você pode se comportar, o que pode pensar, de que maneira você pode achar. E se você agir de forma diferente, no limite pode correr o risco de sofrer um apedrejamento”, disse Vicente. Confira a entrevista do reitor: https://www.afropress.com/post.asp?id=17554

A professora explicou que, inicialmente, pretendia apenas se afastar da coordenação da Pedagogia, após tornada pública a polêmica, uma vez que o cargo é de confiança da direção da instituição, mas acabou demitida após dois anos de vínculo com a Zumbi. “A direção optou por me afastar e inclusive impedir o contato com as alunas, no dia seguinte ao lançamento da nota de repúdio, alegando desconforto e indicando que a posição do grupo da Pedagogia não estava condizente com o projeto político da instituição”, acrescentou.

Leia a entrevista concedida pela professora Ellen ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Como se deu o seu afastamento da coordenação da Pedagogia e as razões alegadas pela direção para demiti-la depois de dois anos de trabalho?

Ellen de Lima Souza – Em primeiro lugar agradeço o espaço e a oportunidade de me expressar visto que fui nominalmente citada em tal entrevista.

Embora exercendo a função de coordenadora do curso de Pedagogia da FAZP, eu só soube do convite ao Falabella, por meio de sites e blogs do Movimento Negro e pela mídia em geral. Não diferente se passou com as alunas do curso de Pedagogia que assim como eu, ao tomarem ciência do fato, ficaram indignadas e questionaram a instituição, sem obter resposta. Após o lançamento da nota oficial da direção, afirmando que o convite ocorreu para um debate e não para o prêmio, os questionamentos se mantiveram.

Um curso frequentado e orientado por maioria de mulheres negras conscientes de seu papel na sociedade, enquanto educadoras negras, sentiram-se no justo direito de se manifestar, sua indignação, de forma coletiva, diante do posicionamento da direção da instituição. Afinal éramos parte da instituição. As alunas do curso de Pedagogia da FAZP não optaram por aquela instituição pelo preço ou facilidade de acesso, mas o fator determinante foi o projeto da instituição que, pelo que acreditavam, buscava a valorização e qualificação da população negra.

Assim, também eu, enquanto profissional havia feito opção por trabalhar na instituição, entendendo que a única faculdade negra da América Latina pudesse contemplar as nossas expectativas de pessoas negras. É importante reconhecer que ao longo dos dez anos da FAZP, a instituição teve projetos e participações relevantes no cenário nacional, o que fez as referidas estudantes e eu própria optar por ali buscar formação, trabalhar.

E foi justamente por acreditar no projeto da instituição e entender que fazíamos parte dela que optamos coletivamente por lançar a nota de repúdio, aliás uma nota respeitosa, lida em assembléia, com os dirigentes presentes. Após esta assembléia do curso de Pedagogia, eu conversei com o diretor José Vicente e manifestei o pensamento coletivo do grupo que estava em consonância com a manifestação de mulheres negras no país.

Apontei que a entrada do Miguel Falabella em um espaço como a FAZP era incoerente com os valores da instituição, especialmente neste momento em que o seriado apresenta mulheres negras únicamente como objetos sexuais. Afinal, com as conquistas como as ações afirmativas na educação superior e o PROUNI, o papel da Zumbi dos Palmares deveria ser o de qualificar o debate e propor implementações de políticas de uma educação igualitária. Foi isso que busquei trabalhar com as alunas e professores ao longo dos últimos dois anos.

Após a minha exposição, o diretor José Vicente (foto) entendeu que a postura do grupo não estava de acordo com o que ele esperava, por isso deixei o meu cargo à disposição.

Solicitei, então, não mais representar a instituição, visto que discordo absolutamente da posição da instituição, enquanto mulher negra que sou, afinal isso vem antes de qualquer titulação ou cargo.

Entretanto, me dispus a finalizar o trabalho que estava desenvolvendo, permanecendo como professora, até o final do semestre, pois lecionava uma disciplina e gostaria de concluir todos os projetos iniciados. A direção, entretanto, optou  por me afastar e, inclusive, impedir o contato com as alunas, no dia seguinte ao lançamento da nota de repúdio, alegando desconforto e indicando que a posição do grupo da Pedagogia não estava condizente com o projeto político da instituição.

Afropress – Como surgiu o movimento de alunos contrários a minissérie, e qual foi a reação ao saberem do convite feito para que Falabella participasse de mesa de debates na Flink Sampa? O  movimento era contrário ao convite à participação do diretor numa mesa de debates, ou a versão de que seria homenageado no Troféu Raça Negra?

ELS – Conforme anteriormente exposto as alunas me indagaram e questionaram a instituição quase que de maneira imediata ao lançamento das notícias, que no primeiro momento indicavam premiação ao Miguel Falabella. Mesmo por telefonema ou e-mails dirigidos a direção não obtivemos respostas. Dessa forma, só soubemos que seria um debate, após o lançamento de nota oficial. Por isso, as alunas me solicitaram o direito de se posicionar e coletivamente nos organizamos em assembléia, o resultado da assembléia foi unânimemente contrário à forma como a direção estava conduzindo tal situação entendendo conforme segue. [Reproduz o manifesto]: 

“Como a maioria de nosso grupo é formado por mulheres negras, entendemos que o seriado “Sexo e as Negas” reforça estereótipos racistas que relegam as mulheres negras a um papel de objeto sexual, por isso não nos sentimos representadas, mas ao contrário desrespeitadas. Ressaltamos ainda que a compreensão de mulher negra transmitida pela produção vai contra todos os princípios orientadores das políticas de ações afirmativas conquistadas pela luta do Movimento Negro no Brasil, princípios esses que tratam de reparação, reconhecimento e valorização da população negra.

Somos mulheres e homens negros e não-negros na busca por uma educação justa, equânime e igualitária e, por isso, defendemos o direito de fazermos usos dessas conquistas e condenar e punir todo e qualquer ato de racismo. Este ideário atua como um mecanismo construtor de imagens distorcidas da população negra, ligando diferentes elementos simbólicos eurocêntricos para justificar e validar a hierarquização entre os seres humanos. O racismo se infiltra em todos os espaços, ecoando ideias que mutilam as possibilidades de existência, construindo vidas encarceradas dentro de uma sobrevivência subalterna. Para a efetivação desse processo, inúmeras ações cotidianas adensam estereótipos, fixando destinos pré-estabelecidos para as crianças negras, as mulheres negras e os homens negros.

As produções televisivas racistas não precisam ser debatidas, mas punidas de forma exemplar conforme assegura a Constituição Federal brasileira e o nosso papel como educadores é denunciar o racismo explícito, nesta e em outras obras negativas à construção de uma educação igualitária. A nossa compreensão de educação entende que temos o dever institucional de fazer ecoar as vozes daqueles e daquelas que pouco são ouvidos e representados em nossa sociedade e não trazer visibilidade e notoriedade a figuras públicas que desqualificam nossas bandeiras de luta. Fortalecemos o direito ao respeito e representação legítima de atores e atrizes negras de homens e mulheres negras em movimento de luta e resistência como; trabalhadoras, estudantes, mães, filhas, professoras, advogadas, administradoras, publicitárias entre outras. Finalizamos exigindo respeito!”

Afropress – A senhora é pessoalmente contra a participação de Falabella em qualquer debate organizado pela Zumbi e que ele faça a defesa da minissérie? Por que?

ELS – Penso que minha posição pessoal é pouco relevante diante do real problema que está posto. O que somos contrárias é à ideologia racista e sexista presente na obra “Sexo e as Negas” e o que precisamos questionar é por que nós mulheres negras estamos sempre representadas como objetos sexuais? Afinal, do ponto de vista educacional, os estereótipos sustentados pela produção da rede Globo são incompatíveis com uma formação democrática, justa, equânime e igualitária que tentamos desenvolver enquanto educadoras. Assim, esta série traz aportes sexistas e racistas que violentam a todos os telespectadores, pois posiciona a mulher negra em um lugar de subalternidade.

Afropress – Como recebeu a afirmação do reitor José Vicente de que a resistência à minissérie é fundamentalismo e as críticas que fez na entrevista à Afropress a um certo movimento que, segundo ele, parece negar o direito a expressão do outro? O reitor se diz preocupado com o que ele chama de interdição do debate. Como vê essa posição?

ELS – Observo a afirmação com estranheza, pois o objetivo do grupo é o de se fazer ouvir enquanto mulheres negras. São as mulheres negras da vida real que buscam o direito de expressão. A interdição do debate jamais ocorreu, uma afirmação como esta é perigosa, pois se posicionar contrária às ideologias vigentes no seriado e exigir respeito, não é interdição é simplesmente não aceitação do lugar de subalternidade historicamente relegado as mulheres negras. Afinal, foi para romper com este lugar e ultrapassar barreiras que as alunas do curso de Pedagogia, decidiram buscar formação e aprenderam e ensinaram que isso só é possível quando nos posicionamos contra as injustiças e distorções sociais.  

Da Redacao