Belo Horizonte/MG – Apesar de ocupar a base da pirâmide social e da desvantagem acumulada por conta dos quase 400 anos de escravidão, o Brasil tem uma maioria de empresários negros – cerca de 50% – concentrados nas pequenas e micro-empresas que podem exercer um papel fundamental nos momentos de crise econômica como o atual.

A opinião é da professora Heliane Gomes de Azevedo, da Pós-Graduação da PUC/Minas e presidente do Instituto de Pesquisas e Projetos Empreendedores (IPPE), que está lançando o projeto “Empreendedorismo na melhor idade”, que visa promover o empreendedorismo no período pré e pós aposentadoria.

Segundo Heliane, a proposta é promover uma mudança de paradigma da realidade atual em que pessoas às vésperas da aposentadoria já começam a ser excluidas do mercado de trabalho, realidade que se agrava quando se aposentam. “Por incrível que pareça, a maioria dos empresários no Brasil são negros – 50%, 49% são brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais. Queremos abrir as possibilidades de que os profissionais ao se desligarem das organizações passem à atividade empreendedora, gerando emprego e renda, promovendo cidadania e agindo como promotores do desenvolvimento econômico e social”, afirma.

O projeto que já ganhou apoio do Sebrae realizará na primeira semana de setembro um workshop em Goiânia, Goiás, para discutir estragégias de inclusão para pessoas que estão para se aposentar ou que já se aposentaram.

Confira a entrevista da professora mineira à Afropress.

Afropress – O que é e quais são os objetivos do projeto dedicado a melhor idade?

Heliane Gomes de Azevedo – O objetivo é contemplar este público alvo tão esquecido de políticas e planos que possam valorizar quem tanto contribuiu efetivamente para o nosso país. A longevidade chegou, estamos vivendo mais e com isto a realidade de outrora mudou, estamos vivendo uma época em que pessoas acima de 50, 60, 70…ainda estão aptas a contribuir com seu talento. Temos um verdadeiro tesouro e arsenal de conhecimentos desprezados pela sociedade e excluídos de possibilidades. Como diz a socióloga Simone Beauvoir existe uma verdadeira conspiração do silêncio, ou seja, todos sabemos que o problema existe, mas nada foi até então feito e realizado em prol de elevar a auto-estima daqueles que ao se aposentarem acabam se aposentando da vida.

O projeto empreendedorismo na Melhor Idade visa que o pré aposentado e o pós aposentado sejam empreendedores de seu talento desenvolvendo habilidades e competências, fazendo uma verdadeira arrumação de sua vocação. Busca multiplicar o empreendedorismo no trabalho garantindo a execução para obter resultados com qualidade ampliando a abertura de micro e pequenas empresas, reinserção em atividades produtivas, atuação em tomada de decisões, administração de conflitos, coach, abertura de cooperativas de trabalho, enfim estamos tratando com carinho e esmero quem tanto tem a contribuir e está discriminado e rotulado como não útil.

Afropress – Quais as ações previstas no projeto?

HGA – As previsões são de disseminar esta cultura empreendedora em todo território nacional e posteriormente internacional. Exportar nossa experiência para fora do Brasil com um modelo inédito de empreendedorismo para a Melhor Idade. Alavancar e dotar de capacitação empreendedora quem ainda tem e pode contribuir para nosso equilíbrio sócio- econômico e possibilitando uma retomada de atividades na qual o mesmo se sentirá peça fundamental para o desenvolvimento de nosso país.

Afropress – Quais são as entidades e ou empresas que estão apoiando ou já manifestaram disposição de apoiar o projeto?

HGA – Prepare a lista, porque muitas empresas públicas e privadas estão encantadas com o projeto e abrindo portas para que possamos com força e disposição fazer acontecer esta nova realidade.

São parcerias para que possamos germinar a sementinha e espalhar por todo território e em breve poderemos divulgar nossos parceiros. A Afropress mesmo esta abrindo o caminho.

São anos e anos de pesquisa até chegar ao projeto propriamente dito, totalmente alinhado e idealizado para turbinar as atividades empreendedoras em nosso país. O projeto é totalmente patenteado com minha propriedade intelectual na qual muito pesquisei e nada encontrei similar no mundo. Algumas pessoas dizem: Nossa como não pensei nisto antes, e respondo usando uma frase de Peter Drucker que diz: “Todas as inovações eficazes são surpreendentemente simples. Na verdade, maior elogio que uma inovação pode receber é haver quem diga: Isto é óbvio. Porque não pensei nisso antes?

Afropress – Como o projeto pretende abordar a questão da velhice negra, uma vez que sabidamente, pela desvantagem acumulada ao longo de quase 400 anos de escravidão, as pessoas negras carregam uma desvantagem histórica que aparece em todos os indicadores socioeconômicos.

HGA – Por incrível que pareça, a maioria dos empresários no Brasil são negros, 50%, 49% são brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais.

Daí podemos perceber que o espírito empreendedor se faz mostrando talento e competência para enfrentar o mercado discriminatório. Os negros já são maioria entre os empresários brasileiros. Mesmo com os desafios como o racismo e outras heranças históricas. Empreendedores são aqueles que têm coragem para fazer acontecer e os negros são nossos exemplos.

Sabemos que diante das dificuldades e crises as pessoas tendem a ser criativos. Os negros comprovam a criatividade para superar crises e este nosso projeto pretende utilizar de cases de sucesso para servir de exemplo. Mudança de paradigma, os negros como exemplo para impulsionar os demais a desenvolverem suas habilidades e competências.

Esta estatística demonstra que a capacitação empreendedora para pré e pós aposentado servira para disseminar entre os demais negros o desejo de também fazerem parte desta estatística e servir de exemplo para o mundo.

Afropress – Sendo um projeto nascido por sua iniciativa em Belo Horizonte, como pretende atingir as pessoas idosas em todo o país?

HGA – Pretendemos fazer parcerias com todos os Estados brasileiros e multiplicar os conhecimentos em todo território nacional. Sou mineira, mas acima de tudo brasileira e pretendo deixar este legado para uma nova perspectiva em relação a este público alvo. Não poderia ser omissa diante de tantas evidências que pude observar e pesquisar até chegar no projeto propriamente dito.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

HGA – A escolha profissional se faz em uma fase de vida em que as pessoas não são preparadas para tal. Desta forma milhares de pessoas são inseridas no mercado de trabalho atuando em atividades que não são sua praia. Nesta fase de vida, na Melhor Idade não existe mais o conformismo de continuar em uma zona de conforto desconfortável. O momento é de buscar fazer aquilo que traz felicidade e amor. No projeto está previsto um mapeamento e avaliação do perfil profissional que irá nortear na escolha das atividades que estarão se inserindo. Além do mais estaremos desenvolvendo Workshops com participação efetiva de palestrantes renomados para entusiasmar a todos. Na capacitação a metodologia é extremamente motivadora e simples dotando os participantes de uma elevada satisfação e interesse. Todos os instrutores/educadores foram escolhidos a dedo para serem verdadeiros artistas no palco da aprendizagem.

O projeto também consta de uma tutoria, ou seja, empreendedores já renomados que vão apadrinhar os demais ajudando na inclusão empreendedora. Teremos um banco de talentos disponível para o mercado. O call Center estará atuando ativamente pós treinamento a fim de dar égide e amparo nas eventuais dúvidas. Teremos também um laboratório de empreendedorismo para a prática vivencial na qual o participante poderá experimentar e simular várias possibilidades.

Além do mais sabemos que ao se aposentar muitos ficam adoentados, pois se sentem desvalorizados e renegados ao papel de inúteis. A atividade não pressupõe trabalho integral, será um trabalho planejado e desenvolvido conforme a possibilidade de cada um, podendo inclusive ser um trabalho voluntário na qual a pessoa se sentirá livre para poder atuar.

Enfim, o projeto é um convite e é um presente para que juntos possamos fazer uma verdadeira arrumação no desequilíbrio socioeconômico no nosso Brasil e no mundo.

 

Da Redacao