Brasília – A promotora Laís Cerqueira da Silva, do Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do Ministério Público de Brasília e Territórios disse que a questão da segurança dos estudantes africanos vítimas do atentado racista do final do mês passado, que voltaram a residir vizinhos aos suspeitos do crime, “é um assunto para a administração da Universidade”.
Ela voltou a expressar preocupação com a tentativa que diz identificar em alguns setores de ignorar a conotação racial do atentado contra os africanos. “Muitas pessoas querem esconder esse problema. Pelo que tenho acompanhado pela imprensa tenho esse receio”, afirmou. Ela disse ter deixado clara essa preocupação quando esteve com o delegado Antonio Romero, do 2º DP, que investiga o caso no âmbito da Polícia Civil, e por essa razão tomou a providência de pedir cópias do inquérito às Polícias Federal e Civil, bem como pedirá ao reitor Timothy Mulholland que encaminhe cópias do processo administrativo disciplinar instaurado no âmbito da Universidade.
A promotora, entretanto, não quis emitir qualquer juízo a respeito dos procedimentos adotados pelo delegado Francisco Serra Azul, que preside o inquérito no âmbito da Polícia Federal, acrescentando que o Ministério Público só se posicionará após analisar a cópia dos inquéritos e as suas conclusões.
Decano cai
Por outro lado, o professor Reynaldo Felipe Tarelho, responsável pela administração da Casa do Estudante Universitário, que teve três apartamentos incendiados num ataque racista contra estudantes africanos, não responde mais, desde a última quinta-feira, pelo Decanato de Assuntos Comunitários da Universidade de Brasília (UnB).
Tarelho renunciou ao cargo, segundo fontes da Universidade, por não resistir às pressões desencadeadas depois do atentado. O péssimo estado de conservação dos alojamentos e a ação dos grupos racistas que planejaram assassinar colegas africanos enquanto dormiam, teriam desgastado sua gestão à frente do Decanato.
A Afropress fez contato com a Universidade de Brasília para ouvir a versão do Reitor para a exoneração,Timothy Mulholland, porém, não teve retorno. Reinaldo Tarelho também não foi encontrado.
O caso do atentado contra os estudantes africanos teve repercussão nacional e internacional, e deverá ter outros desdobramentos, inclusive no âmbito da Universidade, o que estaria sendo analisado com a saída do decano de Assuntos Comunitários.
O reitor Timothy teria detectado a movimentação de setores contrários ao sistema de cotas, da qual a Universidade de Brasília é pioneira, entre as Federais, para desestabilizar sua gestão.
Logo após a exoneração do decano de Assuntos Comunitários da Universidade, o próprio Timothy esteve na Casa do Estudante na noite de quinta-feira, onde se reuniu com moradores. “Vou acompanhar pessoalmente as necessidades apresentadas pelos alunos para a melhoria da moradia na instituição”, afirmou.
O reitor garantiu que os estudantes acompanharão todo o processo. “Faremos um trabalho conjunto para que a CEU ofereça conforto e ambiente saudável para todos”, afirmou, informando que voltará no dia 26 de abril para nova visita às instalões para conversar com os estudantes e avaliar os resultados.

Da Redacao