S. Paulo – Cerca de 60 ativistas, entre os quais ex-presos políticos, familiares de desaparecidos, estudantes e militantes do Movimento Levante Popular, além de parlamentares, participaram do Ato pela Memória e Justiça na manhã desta quinta-feira (03/05), em frente ao prédio onde funcionou o DOI-CODI, na Rua Tutóia, bairro do Paraíso, em S. Paulo.
No local, que não foi alterado desde que funcionou como o mais temido centro de torturas do regime militar, em S. Paulo, funciona atualmente o 36º DP do Paraíso. Segundo os manifestantes, lá foram assassinados nas câmaras de tortura pelo menos 50 militantes políticos, entre os quais o operário Manoel Fiel Filho, Joaquim Seixas e o jornalista Wladmir Herzog. Também de lá saíram os assassinos do Comandante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo.
Entre os parlamentares o deputado Adriano Diogo (PT/SP), ele próprio ex-preso político torturado no DOI-CODI, e os vereadores paulistanos Jamil Murad e Ítalo Cardoso, respectivamente do PC do B e do PT.
O único negro
Comandante Crioulo foi o único negro até agora encontrado entre os corpos dos desaparecidos políticos da ditadura. No seu atestado de óbito constava a cor branca, a forma que a ditadura encontrou para impedir a identificação do corpo, enterrado junto com vários outros desaparecidos no Cemitério de Perus, em S. Paulo. O atestado foi assinado pelos médicos legistas Harry Shibata e Orlando Brandão, que trabalhavam para o regime.
A militante Amélia Teles, que também foi torturada no mesmo local, disse que a experiência de retornar ao DOI-CODI é muito dolorosa. “Ainda sinto o cheiro de sangue e fezes”, afirmou, provocando emoção dos presentes.
O ex-preso político e atual presidente do CONDEPE, jornalista Ivan Seixas, mostrou o pátio em que ele e o pai – Joaquim Seixas – ao serem presos foram brutalmente espancados, sendo submetidos a terríveis sessões de tortura. Seixas, o pai, foi morto.
Centro Cultural
Os ativistas querem que o Governo do Estado remova a Delegacia do local e instale um Memorial ou um Centro Cultural para guardar a memória dos mortos e desaparecidos. Pediram ainda instalação imediata da Comissão da Verdade, cujos membros ainda não foram nomeados pela Presidente Dilma Rousseff, e a punição aos torturadores.
“Eu cheguei aqui no dia 4 de abril de 1974 com uma pergunta: onde está meu irmão? Ele está aqui? Ele foi preso no Rio? E essa é a mesma pergunta que eu faço hoje. Onde está Fernando? Ele foi incinerado nessa fazenda? Nessa usina em Campos? Até quando faremos essas perguntas?”, afirmou Rosalina Santa Cruz, irmã de Fernando Santa Cruz, que desapareceu em fevereiro de 1974, aos 26 anos.
Incineração
Durante o ato, os ex-presos revelaram perplexidade diante das novas revelações do livro “Memórias de uma guerra suja”, em que que o ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, conta que os corpos de presos foram incinerados nos fornos de uma usina em Campos, Estado do Rio.
De acordo com o livro, Fernando Santa Cruz teria sido incicnerado, juntamente com Davi Capistrano e Ana Rosa Kucinski, entre outros.
Angela Mendes de Almeida, companheira do jornalista Luiz Eduardo Merlino, morto em 1.974 no mesmo DOI-CODI, refutou que a luta para a punição aos torturadores seja uma questão do passado. “A impunidade desses torturadores é a causa da brutal violência da polícia hoje. Mata e continua torturando para obter informações”, disse.
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Da Redacao