É interessante a influência do esporte na vida dos seus consumidores – os indivíduos que se identificam com seus ídolos atletas e agremiações – em hábitos e costumes, na estética, e no comportamento.
Por fim, é um fenômeno cultural que deveria ser teorizado e problematizado na escola, não apenas como conteúdo pedagógico exclusivo da educação física, mas antes como um conteúdo transversal entre os componentes curriculares do ensino.
Vivemos em uma sociedade desigual, onde os preconceitos e valores racistas, homofóbicos, machistas, e outros, características que muito nos desprestigiam, norteiam as relações humanas em todos os contextos.
Estes últimos meses fiquei observando a expressão destas mazelas nas postagens que se referem aos times de futebol e torcidas organizadas em sites de relacionamento.
Com o Campeonato Brasileiro de Futebol esta quase acabando, e aumentando o acirramento das disputas pelo título do campeonato e pela conquista de uma vaga para disputar a Taça Libertadores da América, a reprodução do racismo, machismo e homofobia por meio de montagens de fotos sobre times e jogadores, fazendo menção a orientação sexual, religiosa, ou ainda sugestionando e associando tal agremiação a termos como bandidos, ladrões, e outros, aumentou consideravelmente.
O que é intrigante sobre isso é que parece haver uma espécie de “imunidade esportiva” quando da promoção destes valores que geram violência e desigualdades.
O entendimento do jogo simbólico, suas “regras”, normas de conduta e/ou operacionalização social, sofre mudanças na sua conformação, a ponto de uma fala impensável em outro contexto tornar-se “natural” ou aceitável no contexto do futebol e das provocações entre as torcidas organizadas, em senso comum.
Mais adiante, é interessante a maneira como um indivíduo se sente parte da torcida organizada (para citar um exemplo) operando na síntese de um senso de identidade coletiva que é tão significativo quanto o próprio senso de nação, nacionalidade.
Daí a resultante nação corinthiana, nação são-paulina, nação palmeirense, e etc [idéia que precisa de maiores investigações]. É neste palco de exacerbações que eu acho interessante a análise da reprodução em larga escala de valores sociais racistas, machistas e homofóbicos, que em outros contextos seriam repudiados.
Parece ser fundamental uma discussão sobre esta problemática à luz da Lei 10.639/03, levando em consideração a construção de uma práxis docente onde a/o professora/professor tenha condições de construir sua identidade profissional, marcada por uma orientação política que dê conta destas demandas sociais.
A práxis, entendida com uma atividade teórica e prática, têm um lado ideal (teórico) e um lado material (prático), orientados pelas questões ‘o que ensinar’, ‘como ensinar’, ‘para quem ensinar’ e ‘para que ensinar’, sendo que somente por abstração podemos separá-las. Desta maneira, para uma prática crítica que ofereça terreno fértil à implantação de uma educação anti-racista, é importante que estejamos atentos à evolução simbólica (para bem ou para mal) nos muitos contextos sociais.
Repensar o conteúdo dos componentes curriculares da escola para além da formação tecnicista e descompromissada, se configura em um dos grandes desafios para uma pedagogia crítica que venha a problematizar o racismo, na perspectiva da Lei 10.639/03. Vislumbrar a educação como prática social, em última análise, leva-nos a entender a atividade docente enquanto uma prática social – práxis docente – compromissada, transformadora e superadora das estruturas sociais produtivas e reprodutivas da alienação.
*O título original do artigo é “Provocações de Torcidas nos Sites de Relacionamento: Racismo, Machismo e Homofobia e Educação”.

José Evaristo Netto Silvério