Rio – A psicóloga Ana Paula Patrício foi impedida de subir para a cobertura do hotel Pestana Rio Atlântica, na Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio, por seguranças, em atitude que ela classificou como “racista e discriminatória”. A psicóloga, que mora em S. Paulo,  costuma ir ao Rio a trabalho, a passeio ou para visitar amigos e estava acompanhada de um amigo, o francês Paul Gayet. Ambos pretendiam apreciar a visão da orla marítima, e utilizar o restaurante e o bar, o que é comum entre os frequentadores do espaço.

Para impedir o acesso, o segurança, inicialmente, disse que o horário permitido era a partir das 19h – regra que, posteriormente, seria desmentida pela própria gerência. A entrada da psicóloga só foi autorizada após intervenção do amigo francês.

O caso aconteceu no primeiro fim de semana de junho (02/06) e Patrício decidiu torná-lo público porque avaliou que o seu silêncio acabaria por fazer com que esse tipo de prática continue a acontecer a pessoas negras, que pretendam frequentar o espaço público da cobertura do hotel.

“Trabalho na área social com crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade, sou militante dos direitos da criança e do adolescente e não suporto que esse tipo de situação aconteça com qualquer pessoa, seja por condição social, tom de pele, credo, religião, ou qualquer outro tipo de característica que desperte algum tipo de preconceito. Até porque, existe legislação para isso”, afirmou.

Hotel nega racismo

O gerente do hotel, Álvaro Aragão, negou que o cerceamento da presença da psicóloga, sido motivada por racismo, porém, reconheceu que o procedimento do segurança não seguiu a norma padrão. Segundo ela, Aragão argumentou que se o hotel fosse racista não contrataria funcionários negros e não estaria presente em países da África, como a África do Sul, Marrocos e Moçambique”. O gerente, porém, reconheceu que o segurança não poderia ter impedido o acesso. A rede Pestana mantém 12 hotéis na América do Sul, 25 na Europa, 9 na África e 01 na América do Norte.

A psicóloga registrou a denúncia na Delegacia de Crimes Raciais, em S. Paulo, e anunciou que tomará as medidas necessárias para resguardar seus direitos no âmbito civil e penal.

Vergonha e constrangimento

Segundo ela, a atitude do segurança – de quem só recorda do primeiro nome, João – "foi abertamente discriminatória”. Passamos pela recepção e fomos cumprimentados pelos funcionários que estavam atrás e quando íamos entrar no elevador, o segurança veio atrás da gente, gritando do meio da recepção, em tom grosseiro, perguntando onde iríamos e dizendo que não podíamos”, contou.

Patrício disse que passou muita vergonha e humilhação porque a cena da abordagem do segurança ocorreu na presença de hóspedes do hotel e de funcionários, inclusive, os que estavam na recepção.

“Após meu amigo insistir muito eu apontei que tudo isso estava ocorrendo porque sou negra. Além de ser discriminada pela cor da minha pele, estava também sendo confundida com uma garota de programa. Foi aí que um funcionário da recepção olhou para o funcionário João e disse "libera, libera", que me soou como "libera logo pra eles pararem de encher o saco", relata.

Segundo a psicóloga, o que seria uma tarde agradável acabou se tornando uma situação vexatória e constrangedora. “Estamos em pleno século XXI e não podemos permitir ou compactuar com situações como essa”, conclui.

Reunião

Em reunião ocorrida nesta segunda-feira (10/02) com Paul Gayet, o amigo da psicóloga, o gerente do Hotel Pestana, Álvaro Aragão, tentou se explicar e negou que a atitude do segurança tenha sido motivada por racismo. Em defesa do Hotel, argumentou com o número de funcionários negros e com o fato da cadeia Pestana está presente em países africanos.

Aragão prometeu reunir os funcionários para tratar do caso, atitude que a psicóloga considera insuficiente. “Quero que o Hotel Pestana, me repare pela vergonha e constrangimentos que passei e que tome providências treinando e capacitando seus funcionários, especialmente, os seguranças – para que isso nunca mais se repita com ninguém”, afirmou, acrescentando que constituirá advogado para cuidar do caso.

Da Redacao