Em outras palavras, tanto no passado quanto no presente, quando o assunto dizia/diz respeito às reivindicações do povo negro deste país, eis que algum “gênio” se incumbia/incumbe de lançar mão das odiosas publicações opressivas, pouco se importando com os estragos que elas poderiam/podem causar.
A rigor, publicação opressiva, é aquele conjunto de informações mentirosas e grosseiras, arenguentas e impulsivas, que não visam outra coisa senão desestruturar, desrespeitar e, principalmente, destruir a imagem e o conceito de uma ou de muitas pessoas.
Contudo, por minha conta e risco, incluo no rol das opressivas aquele conjunto de informações igualmente mentirosas e grosseiras, arenguentas e impulsivas, e que principalmente nos últimos dias tentaram desestruturar e desacreditar a nossa luta pelas cotas nas universidades e pelas ações afirmativas.
Se assim penso, é porque acredito que as citadas publicações não guardam nenhum parentesco com aquele jornalismo que há milênios vem prestando relevantes serviços à humanidade. Sim, não é possível chamar de jornalismo a postura ostensiva e explícita de se tentar diminuir, esvaziar, enfim, desqualificar um projeto coletivo – como, por exemplo, as cotas e as ações afirmativas – projeto esse que não foi gerado ao acaso e sim a partir de profundas reflexões.
Mas, caso esse parentesco existisse ainda que longínquo, creio que o tom do discurso da grande mídia seria outro. De certo, ocorreriam explicações quanto aos porquês das citadas reivindicações, e não esse absurdo de querer convencer a todo custo que este nosso projeto coletivo – as cotas e as ações afirmativas – não passa de tentativa de se criar separação no seio da nossa sociedade.
Porém, como o parentesco mencionado não existe – nem de longe – fica assim, então: de um lado a ética jornalística e a responsabilidade social que o jornalismo sadio e sólido sempre trouxe consigo; de outro, as publicações opressivas.
Contudo, alguém poderá perguntar quais as razões que motivam a publicação das denominadas opressivas? Má vontade, mesquinharia? Desinformação? Enfim, o que estaria por trás disso tudo?
TENTANDO RESPONDER
Quando interessa, os veículos de comunicação transformam informações em notícias, revelando assim o caráter mercadológico da informação. Trocando em miúdos, quando a palavra de ordem é o aumento nas vendagens, imediatamente ocorrem esforços concentrados no sentido de se elevar ao grau de superinteressante algo não tão interessante assim.
Mas quando entendem que determinado assunto não apresenta potencial mercadológico, o esforço concentrado passa a ser no sentido de se reduzir o referido assunto à insignificância, ainda que pese o fato de tratar-se de algo reconhecidamente significativo.
Talvez sejam essas as justificativas para tentarem reduzir à insignificância a luta de centenas e centenas de negros pela nossa dignidade. Sim, é provável que aqueles que controlam alguns dos veículos de comunicação estejam convencidos de que essa nossas aspirações não renderiam/rendem aumento nas vendagens tampouco atrairiam/atraem verbas publicitárias.
É, lembremo-nos de que a empresa jornalística é mais um ramo de negócios, cuja sobrevivência depende dos lucros advindos da publicidade e não da excelência de suas matérias. Resumindo, os veículos de comunicação não são absolutamente autônomos, e sim adjuntos de outras ordens.
Sendo assim, o negócio tem sido oferecer ao público leitor o mínimo de informação, quando muito, dados confusos de modo a prejudicar ou mesmo inviabilizar a compreensão do porquê das cotas, das ações afirmativas ou qualquer desdobramento de algum outro projeto coletivo da nossa gente.
E uma vez concluído este estratagema absolutamente bem pensado – e nem por isso mal intencionado – claro, a porta estará aberta para a instalação de raciocínios equivocados, recheados de preconceito e carregados de lógica infantil, o que significa verdadeiro hospedeiro para se criar e se multiplicar as práticas de antipromoção da igualdade racial.
A RETIDÃO E A HONESTIDADE
Em muitos momentos da história da humanidade, os veículos de comunicação contribuíram decisivamente para a mudança de posturas, o que significa que dependendo do interesse, eles – os veículos de comunicação – tanto podem ser um aliado de causas nobres quanto agentes no reforço da alienação em relação às mesmas causas.
Só por isso, há de se ter absoluto cuidado antes de se veicular qualquer coisa, principalmente, aqueles informes ou mesmo noticias que poderão induzir segundos e terceiros a erro de raciocínio. Resumindo, dependendo da manobra adotada por alguns dos veículos de comunicação, surgirão aliados ou alienados.
Considerando, então, que tudo indica não existir por parte da maioria dos veículos de comunicação nem cuidado e nem interesse pelas questões que dizem respeito aos negros brasileiros – cotas, ações afirmativas, relação de gênero ou qualquer outro desdobramento do nosso projeto coletivo voltado para a promoção da igualdade racial – acredito que os mesmos têm se empenhado em manter o público o mais alienado possível em relação à matéria. De que maneira? Simples. Por meio das publicações opressivas.
Claro. Sempre foi bem mais fácil retaliar a procurar entender; bem mais cômodo seguir
apregoando a tal democracia racial a promover uma leitura – tão imparcial quanto possível – das relações raciais em nosso país; bem menos trabalhoso partir para as opressivas a se pautar pela retidão e pela honestidade. Concluindo, bem, bem mais interessante continuar trafegando na contra-mão da promoção da igualdade racial a correr o risco de ter que repartir o pão.
O título original do artigo é “Publicações opressivas: na contra-mão da promoção da Igualdade Racial

Sônia Ribeiro