E de perguntar, logo abaixo, qual era a diferença. A diferença entre porcos abatidos e judeus trucidados; a diferença entre Anastácia, alvo da devoção de muitos brasileiros, e o Lulu mordedor, de focinheira. Qualquer semelhança não é mera coincidência, acrescentava o cartaz, em relação a esta última comparação.
Em poucos dias, o Ministério Público aceitava a denúncia da ONG ABC Sem Racismo. A Afropress (Agência Afroétnica de Notícias), a organização judaica B’nai Brith e o escritor Ben Abraham, presidente da Associação Brasileira dos Sobreviventes do Nazismo, punham a boca no trombone do repúdio ao racismo e ao anti-semitismo politicamente corretos.
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Qual é mesmo a diferença entre os que xingam o judeu de porco e esses que elogiam o cachorro, equiparando-o a Anastácia? Ambos atingem o mesmo resultado, Às custas do judeu e do negro. Ou se usa o negro como animal de carga e o judeu como bode expiatório no rito persistente do ódio, ou então são ambos usados como plataforma para promover os bichos. Nos dois casos, perdem negro e judeu, poupam-se os animais. Enfim, a longa história da humanidade nos demonstra que judeus e negros continuam encarados como material utilizável, um bombril histórico com mil e uma utilidades.
A lambança é tamanha que invade o delicado terreno da ofensa religiosa. Anastácia é santa veneradíssima, embora ainda não canonizada. Porco é considerado animal impuro no judaísmo (e no islamismo também); comparar judeus a porcos é particularmente ofensivo, embora não envolva perigo para a saúde de quem ouse. Judeus e devotos de Anastácia podem ser ofendidos sem risco de vida.
Marquetismo desastrado? Também. Vasta incompetência comunicacional, cheia de amor aos animais e profundo desrespeito aos homens, esses animais culturais que habitam imagens e palavras. Antigamente se usava uma metáfora, despir um santo para vestir outro, a definir a atitude desastrada de quem esculhamba uma boa causa em nome de outra. Esse terá sido o menos grave dos pecados vegetarianos.
Holocausto e abolicionismo, palavras encharcadas de sangue negro e judeu, ferro em brasa na memória, horror do passado e advertência sombria de um futuro não garantido, passam a ser aplicadas aos bichos. Querem-se abolicionistas os que “lutam contra a escravidão animal”, querem-se supressores do “holocausto animal” os que se opõem à indústria do churrasco. O racismo e o anti-semitismo passam a ser igualados ao “especismo”, a teimosia humana em se achar diferente das outras espécies.
São apropriações em sequência. A apropriação da história de grupos tradicionalmente marginalizados, a apropriação do sofrimento, a apropriação da história do sofrimento ligado à condição do negro e à do judeu; a apropriação da inarticulável dor dos animais, arbitrariamente tutelada por autoproclamados porta-vozes e salvadores, num panfleto a traduzir não a dor dos homens ou a dos bichos mas unicamente a pretensão verbosa e arrogante de quem não carrega memória nem de martírio, nem de cativeiro, nem de abatedouro, e portanto se apressa a discorrer com fluência infeliz sobre “holocausto” e “abolicionismo”.
Finalmente, e talvez a mais grave, a apropriação da voz ativa e inteligível de judeus e negros, capazes de interpretarem seus próprios anseios e de lutar por suas vidas, pela preservação das suas histórias, por seus direitos, por sua dignidade, voz que, no cartaz, se vê reduzida ao nível da inarticulada passividade tutelável do bicho. Por conseguinte, a elisão das memórias e narrativas das lutas de negros e judeus, ao longo de séculos ou de milênios, no caso destes últimos. Não conquistaram seu espaço mediante humanitarismo alheio, por tutela “anti-especista” dos brancos ou dos não-judeus, mas à força da própria consciência, do próprio sangue vertido em causa própria, em Massada ou em Palmares, no sul dos Estados Unidos ou em Jerusalém, à custa, enfim, de se fazerem protagonistas da própria história. Negro e judeu não são como o bicho: eles pensam e falam, redigem em bom português as próprias denúncias e as apresentam sozinhos ao Ministério Público, prescindindo de “grupos salvadores” que se surpreenderão com tamanha autonomia desses cujo trato fosse talvez mais confortável e amistoso caso também se deixassem tutelar.
Negro e judeu não são como os bichos: eles rechaçam a sua campanha e talvez vários pontos da sua doutrina. Terá sido espantoso constatar a capacidade desses dois grupos de, ao contrário dos animais, que não falam, erguerem a voz contra o juízo arbitrário de certas pessoas tão habituadas à passividade daqueles que defendem, dos seus tutelados. Igualmente espantoso constatar que negros e judeus gostariam de ter sido previamente consultados sobre uma campanha que envolveu a iconografia das sevícias que sofreram. São mesmo um grupo de pessoas habituado ao autoritarismo de quem jamais se vê questionado pelos próprios tutelados poderia sequer imaginar que tal campanha pudesse ser empreendida sem a delicada prévia consulta a entidades representativas dos dois grupos contemplados. Sim, porque quanto aos grupos de porcos e cães, esses aceitam qualquer coisa que seus defensores queiram fazer em seu pobre nome. De fato, essa gente deve ter se tornado incapaz de distinguir a diferença.
Não é que o animal não mereça direitos; não que o homem deixe de ser, ele próprio, um animal também. É bem o contrário: justamente por ser homem, sendo também bicho, é que o ser humano tornou-se a única coisa viva neste mundo a se preocupar com direitos. Seus e dos outros viventes. “Direitos” são a garantia do bicho fraco contra o forte, decorrência não da condição animal, à que os bichinhos não se concedem senão o direito da força, a férrea lei da vontade do mais forte. Lutar pelos direitos dos animais é nada menos do que demarcar mais fundamente a diferença entre estes e os humanos. É fazer valer, no relacionamento com as outras espécies, o conjunto de parâmetros éticos que a espécie humana inventou para proteger-se de si própria. Pois não é o homem apenas o único animal a aniquilar outros em vasta escala; nós também nos destruímos na mesma proporção. Irrevogável diferença.
Dado o ridículo dessa nossa precária de um “especismo”, supostamente idêntico ao racismo ou ao anti-semitismo. Todo o sistema de pensamento ligado à consciência dos direitos dos animais não passa de uma humanização do bicho. Puro especismo, puro bedelho humano metido no mundo animal. O homem não é o único animal que se apropria das outras espécies e se serve delas, na diversão do picadeiro ou na promoção da vaidade ativista.
Mais nesta última. Animais também maltratam por entretenimento. Meu finado gato costumava brincar desse jeito com lagartixas e baratas, perseguindo e estraçalhando até entediar-se e abandonar as carcaças agonizantes. Criaturinha perfeitamente amoral, a coisa mais terna do mundo e um esquartejador assassino, a um tempo. Indiferente tanto a romantismos quanto a patrulhamentos, duas características únicas dessa inquieta espécie humana.
Sim, somos todos, menos o meu gato, contra a crueldade infligida aos bichos, muito embora eu insista raivosamente no meu direito constitucional ao bife mal-passado, recusando, contudo, uma perfeita isonomia com especistas feito o tigre, que se permite devorar antílopes vivos. Alguns humanos, contudo, somos também a favor da opção de negros e judeus não serem, mais uma vez na longa história das suas lutas pelo direito de existir, comparados a porcos e cães e por gente que amava os porcos e os cães, é preciso que se diga.
E diga-se mais: num passado recente, alguns, apenas alguns, vegetarianos, medindo o homem com o metro de uma biologia equívoco e procurando ali um padrão de conduta, uma ética, aliavam à veneração da natureza certas concepções racistas que procuravam transplantar para o domínio humano um desrespeito básico pela vida, inerente ao animal. Darwinismo social, racismo com pretensões espiritualistas. Segundo essa ética de inspiração naturista, os homens deviam abandonar venenosos escrúpulos “judaico-cristãos” sobre direitos humanos e deixar de se conceberem como uma espécie à parte, assumindo plenamente a sua condição animal e procedendo como o bicho, que não hesita em trucidar o próximo na luta pela sobrevivência. Na medida em que se concebiam como animais, essas pessoas aplicavam aos humanos noções raciais que funcionam para os cães, porcos e cavalos, atribuindo a si próprias a posição de raça superior, biologicamente destinada à supremacia porque mais forte; e se não se mostrava tão evidente essa força, era certamente em razão da degenerescência biológica resultante do contato com as raças degeneradas. Resolveram, assim, sentir-se ameaçados por “degenerados” como judeus, ciganos, homossexuais, negros, testemunhas de Jeová¡, comunistas, socialdemocratas e outros; mataram quantos puderam apanhar. Conseguiram apanhar milhões, antes que o restante do mundo se visse obrigado a detê-las, um tanto a contragosto, é preciso também que se diga.
Fato é que na mixórdia de doutrinas de onde emergiu o nazismo havia também um forte componente naturista e vegetariano. Hitler o seguia. Sinto, contudo, decepcionar os obscurantistas de plantão, pois rechaça veementemente a tentação barata de banalizar o nazismo identificando-o com o ativismo ultra-vegetariano da atualidade. Permanece, contudo, a advertência da História a indicar que as sementes do autoritarismo desumano podem encontrar solo fértil nesse terreno. É possível que humanização do bicho traga consigo o mesmo potencial autoritário e destrutivo que, no passado, derivou da redução do ser humano ao status do animal. Isso só se pode conjecturar, ainda que não seja muito difícil imaginar qual o outro grupo de “ativistas” a se sentir satisfeito com um cartaz onde judeus são comparados a porcos e negros a cachorros.
Fato é que os nazistas construíram infernos como Treblinka e assassinaram judeus, negros e muitos outros porque se haviam tornado sordidamente capazes de formular a mesma pergunta do cartaz ultra-vegetariano, chegando a exata mesma resposta: não há diferença entre judeu e porco, negro e c cão. Eu me apavoraria caso a divisória entre a doutrina que abraçasse e o nazismo fosse o tabique frágil de uma simples questão semântica. Como também morreria de vergonha ao conceber um cartaz onde compartilhasse com os nazistas da alegria de formular as mesmas perguntas e chegar a idênticas respostas. E me surpreendo ao constatar que muitos se orgulham disso.
E fácil a questão de trazer bem sabida a diferença.

Miguel Fernandes