Já me perguntei vezes sem conta se, e como, me poderia reintegrar numa sociedade como, por exemplo, a angolana após longos e ininterruptos anos vivendo fora. Seria capaz de viver sem a luz elétrica constante?
Seria capaz de viver sem a garantia de água potável sem interrupções providenciada pelo Estado sem arriscar a consumir o precioso líquido de uma forma inquinada por abastecimentos alternativos precários? Seria capaz de viver sem a garantia de instituições educacionais de qualidade para os meus filhos?
Seria capaz de viver sem a presença de transportes públicos eficientes que me dispensam de um automóvel particular? Posso viver sem a confiança de um elevado grau de segurança e conforto para me deslocar de um lugar para outro, a qualquer hora do dia ou da noite, em ruas limpas, arborizadas e sem buracos? Essas são apenas algumas das muitas interrogações que a mim coloco.
No meu caso particular acho que sim mas, de certeza, que seria muito difícil convencer os meus filhos a optarem por uma condição de existência impensável para eles. Como eles, milhares de africanos e descendentes nascidos, criados e completamente integrados nas sociedades industrializadas a que pertencem pelos direitos de sangue e do solo, mesmo que reconheçam e respeitem as suas origens africanas.
Ressalvo aqui que estou apontando o caso particular de um país e não de todo o continente. Mesmo poucas, haverá boas e atraentes opções de países para se viver na África. Pessoas mellhor conhecedoras poderão delas dar os seus testemunhos.
Porém, eu suspeito que, independentemente de quaisquer realizações de topo que os africanos e afrodescendentes possam alcançar de forma isolada, eles serão sempre confrontados com problemas de respeito à nível mundial enquanto os países africanos estiverem com tão precárias limitações no seu desenvolvimento, principalmente a maioria dos que ocupam o espaço geográfico subsaariano. E é aqui onde o racismo encontra uma fertilidade de argumentos que usa para se esgrimir.
O piloto britânico Lewis Hamilton, que já foi vítima de racismo de parte do público e de internautas em Espanha por sua suposta rivalidade com Fernando Alonso, insinuou haver racismo na mesmo na direção da Fórmula 1. Isso devido às várias punições a que tem sido sujeito na presente temporada da prova, segundo uma entrevista sua à BBC logo após o Grande Prêmio de Mônaco.
Harry Goulbourne, professor de sociologia na universidade londrina de South Bank, disse em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian que as universidades britânicas ainda estão crivadas de “racismo passivo”. Ele afirma que, se um homem negro aspira a ser professor universitário, o mesmo tem de publicar duas vezes mais obras acadêmicas do que o seu colega branco.
Talvez por isso se explica que de 14.385 professores universitários no Reino Unido, apenas 50 sejam negros e, de entre estes, apenas 10 são mulheres. Isso apesar de 2,8% da população da Inglaterra e do País de Gales ser composta por negros de origem africana e caribenha.
O jovem Neymar, nova estrela do futebol brasileiro, foi vítima de um ato de racismo num amistoso entre o Brasil e a Escócia realizado em março passado Londres. Uma casca de banana foi atirada em campo em sua direção. O mesmo aconteceu na Rússia ao seu compatriota Roberto Carlos que, no mesmo mês, foi alvo de gestos racistas por parte de um apoiantes do clube adversário, o Zenit São Petersburgo, tendo um chegado ao ponto de oferecê-lo uma banana.
Esses são apenas alguns dos casos mais recentes envolvendo afrodescendentes bem sucedidos nas suas respectivas áreas e que ganharam a atenção da imprensa.
Esses casos nos levam a pensar que, para além de qualquer legislação mais ou menos dura no combate ao racismo, contra os negros em particular, e de programas educacionais bem concebidos para a sua erradicação, talvez a solução maior para o fim do mesmo esteja aonde tudo se consubstanciou para justificar o comércio transatlântico de escravos: África.
Um jornalista e apresentador negro (Sir Trevor McDonald) pode ter ganho mais prêmios do que qualquer dos seus colegas no Reino Unido e ser nomeado Cavaleiro da Rainha. Um arcebispo negro (John Sentamu) pode vir a atingir o cargo máximo na hierarquia da Igreja Anglicana. Uma mulher negra (Oprah Winfrey) pode ser tida como a mais rica de e influente de sempre na mídia. Um cientista negro (Neil De Grasse Tyson) pode ter sido considerado o mais inteligente astrofísico na face da terra e distinguido com a mais alta honraria civil conferida pela NASA, a agência espacial norte-americana.
Um médico negro (Bem Carson) pode ser visto como o mais próspero neurocirurgião do mundo. Um futebolista negro (Pelé) pode ter sido coroado como o rei da modalidade. Um golfista negro (Tiger Woods) pode ser o melhor de sempre no seu ramo. Um senador negro pode chegar a presidente (Barack Obama) ou a líder de oposição (Michael Steele) no país mais poderoso na face terra. Um presidente negro (Mandela) pode ser apontado como a maior consciência moral da humanidade.
Todas essas e muitas outras notáveis personalidades negras não citadas podem ser individualmente respeitadas pelas suas brilhantes conquistas.
Mas, enquanto a África Subsaariana como um todo não se desenvolver ou demonstrar sinais visíveis de progressos consistentes para o desenvolvimento, não espero que africanos e afrodescendentes, no geral, sejam respeitados como “grupo racial”.
Por isso é que aparecem embaixadores europeus a extrapolar as suas funções de diplomatas, colocando-se na posição dos antigos governadores coloniais e fazendo declarações públicas dando puxões de orelhas aos africanos ou insultando-os sutilmente.
Por isso quase sempre as imagens de líderes africanos associadas aos casos de corrupção e banditismo económico mesmo quando orquestrados e praticados apenas por empresários estrangeiros sem escrúpulos.
Por isso é que a União Africana (UA) foi completamente ignorada e humilhada na crise da Líbia. Por isso é que a secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, teve a enorme desfaçatez de, no passado dia 13 de junho, em plena sede da UA na Etiópia, pedir aos líderes africanos que abandonassem Kadafi, expulsassem os seus diplomatas, mesmo reconhecendo que ele “desempenhou um papel muito importante em fornecer apoio financeiro para várias nações africanas e instituições, incluindo a UA”.
Quanta desfaçatez e quanta humilhação! Que preleção mais ofensiva do tristemente histórico conceito de “dividir para reinar” que os africanos tão bem conhecem mas que alguns se esquecem.
Não estou aqui defendendo Kadafi mas apenas insurgindo-me contra as arbitrariedades e humilhações que de formas descaradas e impunes se praticam contra os mais débeis do mundo quando eles não servem os interesses dos mais poderosos.
A questão que qualquer verdadeiro democrata levanta é: porque não deixar aos líbios a decisão soberana quanto ao seu futuro? Mais ainda: porque apelar para a divisão dos africanos quando a UA como bloco já se havia manifestado em favor de uma solução pacífica para o conflito?
Como sempre, já se perfilam países anunciando ou preparando-se para anunciar o reconhecimento do dito Conselho Nacional de Transição da Líbia que não passou por escrutínio popular nenhum.
A Gâmbia e o Senegal, mesmo antes da visita da senhora Clinton, tinham dado o pontapé de saída nesse jogo em que participam os sem-vergonha e em que os sem-opções são forçados a participar. Seguiu-se a Libéria logo após o convite humilhante da chefe da diplomacia americana. A Tunisia já se posicionou em favor e espera-se que outros governos africanos sem dignidade, ou sem saída, os sigam numa clara humilhação, mais uma, para a África.
Os asiáticos costumavam estar nesta situação de humilhação e indignidade antes de investirem em si mesmos. Em poucas décadas puxaram-se para fora dela com um impressionante desenvolvimento. Espera-se o mesmo dos africanos.
Malcolm X dizia que “para sermos verdadeiramente livres devemos criar primeiro a nossa própria economia e concordar em trabalhar para o seu desenvolvimento para o bem de todos nós”. Essa é uma lição que a África, para o bem de todos os seus filhos e descendentes, tarda em aprender.

Alberto Castro