Brasília – Faltando poucos dias para completar quatro meses, a Polícia Federal ainda não chegou aos racistas responsáveis pelo incêndio dos apartamentos dos estudantes africanos na Casa do Estudante da Universidade de Brasília. Também a Polícia Civil, que abriu inquérito, e a própria Universidade, que instaurou sindicância administrativa, se mantém calados. O crime ocorreu no dia 28 de março deste ano, uma quarta-feira, durante a madrugada, na Asa Norte, bairro de classe média de Brasília. Os estudantes africanos foram surpreendidos enquanto dormiam.
Na Polícia Federal, o responsável pelo inquérito, delegado Francisco Serra Azul, não fala sobre o caso. Segundo a Assessoria de Comunicação da PF, Serra Azul só falará depois da conclusão da investigação – que já foi prorrogada duas vezes – sem data definida. Na Polícia Civil, onde o delegado Antonio Romero, do 2º DP de Brasília, preside o inquérito, e na Assessoria de Comunicação da UnB reina o mutismo sobre o assunto.
A promotora Laís Cerqueira da Silva, do Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do Ministério Público de Brasília e Territórios já expressou a preocupação com a tentativa que disse ter identificado em alguns setores de ignorar a conotação racial do atentado. “Muitas pessoas querem esconder esse problema. Pelo que tenho acompanhado pela imprensa tenho esse receio”, disse a promotora à Afropress, logo após o episódio.
O senador Paulo Paim também manifestou preocupação em relação ao andamento das investigações e o temor de que a “Operação Abafa” acabe por retirar do crime a conotação racial, transformando o episódio – que chegou a ter repercussão de um incidente diplomático – acabe por ser tratado pelas autoridades brasileiras como um episódio de simples desinteligência de estudantes do mesmo campus.
Operação Abafa
A tendência ao “Abafa” já havia ficado evidenciada quando a PF levou 35 dias exatos para, munido de um mandado judicial, montar uma operação em busca de indícios do crime na Casa do Estudante e realizar a perícia, que deveria ter ocorrido logo após o atentado. O silêncio não se resume às autoridades responsáveis. Também a mídia jogou panos quentes sobre o caso.
Os suspeitos de envolvimento, como o estudante de Engenharia Florestal Wagner Guimarães, e Roosevelt Reis, do Curso de Química, apontados pela própria PF, sequer foram indiciados. Outros dois, de nome Francisco e Fredy, também foram apontados pelos próprios estudantes por já terem se envolvido em hostilidades contra os africanos. Todos negam as acusações.
Os africanos, por sua vez, depois de retirados pela direção da Universidade para um hotel – o Bittar Plaza -, voltaram ao campus, onde tentam retomar a vida normal.
O ataque racista atingiu os apartamentos onde moravam 16 estudantes de países como a Nigéria, Senegal e Guiné Bissau e teve grande repercussão nacional e internacional. O reitor Timothy Mulholland promoteu expulsar os envolvidos.

Da Redacao