Passei esta fase refletindo sobre que diabos de religiosidade é essa que se orgulha em dominar a cena política. Acredito que é preciso entender os motivos que levaram ao fortalecimento dos mais tacanhos discursos religiosos nesta eleição presidencial. Nesses termos, o país revelou, mais uma vez, sua latente vocação à teocracia.
Em muitos momentos fomos obrigados a conviver com a mais retrógrada das formas da política: a que é pautada por verdades religiosas. E foram esses personagens e ingredientes da Idade das Trevas que ganharam os holofotes dos debates sobre as necessidades do Estado. De fato, não podemos esquecer que muitos daqueles que praticam a crença sincera em Deus ficaram envergonhados com o nível das disputas políticas fomentadas por líderes espirituais.
A lamentável apoteose dessa mistura perigosa de religião e eleição não foi somente a atitude de Silas Malafaia – que pendurou outdoors pelo Rio de Janeiro repelindo os homoafetivos e informando a quantidade de votos que seus candidatos conseguiram nas urnas – acompanhada pelo deputado Arolde Oliveira.
Nem a troca de insultos entre Malafaia e Edir Macedo, chefe da Igreja Universal, ao defenderem seus candidatos no You-tube. Também não foi o ar de vitória do deputado Manoel Ferreira quando, a então candidata, Dilma Roussef, assinou o compromisso de não enviar ao Congresso nenhuma mensagem sobre a descriminalização do aborto e a união civil entre casais do mesmo sexo.
O mais triste foi a atitude do papa Bento XVI – também um estadista – que, influenciado por bispos brasileiros (quais?), preferiu “servir de cabo-eleitoral de forças conservadoras”, como bem definiu o frade dominicano, Frei Betto.
A inédita iniciativa do papa, ao interferir diretamente na disputa eleitoral de um país soberano, também pode ser entendida como uma resposta – e demonstração de força – da Igreja Católica às preferências dos políticos brasileiros em se aliar a setores fundamentalistas, chamados neopentecostais. Por certo, Bento XVI, mesmo longe de uma postura progressista, errou a mão, mas deixou uma mensagem.
É preciso conhecer o início do problema que deixou a candidatura da presidente Dilma refém dos dogmas que a levaram para o segundo turno. Essa nefasta relação entre política e religião tem suas raízes fincadas na sede de poder dos doublés de pastores neopentecostais. Eles, estrategicamente, nas últimas décadas, transformaram seus rebanhos em gado eleitoral, apesar do nosso “status” de Estado Laico.
Na contramão da modernidade, este uso eleitoral da fé tem refletido uma profunda transformação das relações políticas no Brasil. (É preciso ter em mente que este é um fenômeno que assola vários países da América Latina, não é mais exclusividade nossa).
O centro da questão brasileira é que alguns setores dos partidos que compõem o governo, incluindo o Partido dos Trabalhadores, em sua primeira formação, preferiram eleger como aliado estratégico de suas políticas comunicacionais e sociais, exatamente os neopentecostais – essa tendência fundamentalista, que distorceu a ética e os princípios cristãos – justamente para tirar proveito de sua enorme capacidade de multiplicar votos.
O plano deu certo até a oposição (PSDB/DEM e os conservadores do PMDB) perceber que era preciso reagir ou perderia de vez o controle da situação. Grosso modo, foi esta reação da oposição – ao tentar disputar os votos daqueles que promovem visões estreitas de religiosidade – em aliar-se aos muitos dissidentes da Igreja Universal e aos setores ultraconservadores da Igreja Católica, que promoveu as bases de uma campanha eleitoral verdadeiramente “nunca antes vista no Brasil”.
Mas, como já dizia minha avó, Deus não dá o frio sem esquecer o cobertor. Tanto a presidente Dilma quanto os partidos da base aliada sentiram na pele os riscos de uma relação promiscua e oportunista entre política-eleitoral e fundamentalismo religioso em detrimento dos setores progressistas, que reivindicam políticas públicas em favor da diversidade.
Se a primeira mulher Presidente do Brasil tiver a coragem, a garra e a sensibilidade, que seus eleitores acreditam que ela tem, o Brasil ainda terá a oportunidade de garantir políticas governamentais pautadas pela liberdade de expressão e consciência religiosa, conforme estabelece o Estado Democrático de Direitos. Até porque, os 190 milhões de brasileiros e brasileiras não merecem mais assistir a uma disputa eleitoral como essa.

Rosiane Rodrigues