Há três anos discuto, onde quer que me chamem, em defesa das cotas. Para dizer, sempre, que as cotas são um direito, consolidado numa política de ação afirmativa, discriminando positivamente quem é discriminado negativamente secularmente.
A sociedade brasileira sempre aceitou como fatalidade ou dom divino as cotas negativas imputadas à população negra: são os pretos e os pardos os menos escolarizados, os mais pobres e o maior percentual entre os indigentes. São milhões de brasileiros que silenciosamente, há séculos, pagam com suor e trabalho os privilégios das camadas que têm acesso aos “benefícios” da república, recebendo em troca a perpetuação da senzala como possibilidade de futuro.
A senzala “moderna” configurada nas moradias das favelas e dos bairros mais desassistidos das periferias, nos postos de trabalho mais frágeis, desestruturados e mal remunerados e, evidentemente, por decorrência da exclusão por nascimento, nos presídios.
Observe-se que somente em 2001 – e aqui, louve-se Fernando Henrique Cardoso – que Governo brasileiro assumiu pela primeira vez o racismo como vetor da sociedade “cordial”. Ainda assim, isto foi resultado das pressões do movimento negro e da imposição de acordos internacionais, pois no andar da nossa carruagem a Casa Grande e a Senzala ainda seriam mostradas ao mundo como conviventes e harmoniosas!
Pois bem, agora, a turminha da Casa Grande resolveu tocar fogo, literalmente, na discussão! E, quem sabe agora, felizmente sem vítimas fatais – ainda – o Governo assuma a ampliação do debate e a defesa das cotas, impondo-as por Decreto ou seja lá que instrumento legal compatível, às Universidades Federais, para dar o bom exemplo (*).
Feito isto, ficará mais claro para os descontentes que a discriminação positiva é um direito e não um “beneplácito” que pode ser retirado quando meninos de famílias quase boas se aborrecem!
(*) Que ninguém me venha questionar isto como ato de força. Afinal os Governos têm sido tão pródigos em usar as antidemocráticas Medidas Provisórias para tudo o que a economia internacional necessita. Pois que o faça também por uma causa mais nobre.

Maria Adelina Braglia