A edição de 03 de fevereiro da Folha de S. Paulo é emblemática. Traz na capa de seu caderno Ilustrada um tema conjuntural se não fosse o estranhamento de argumentos na construção da matéria. Em momento algum Oswaldo Faustino foi mencionado como sendo jornalista que é. Nem citação sobre a competência profissional e acadêmica dos outros envolvidos, arguindo o alicerce do texto a um externo e dando destaque à comentários estereotipados.

Estranheza sim, não na recepção e olhares, mas em ver que as palavras ainda se forjam no politicamente correto do não ser. A negação. Absorver que a ação dos presentes ao evento mostrado como sendo típica dos "rolezinhos" que ocorreram e foram sufocados a bem do interesse de uns poucos, é relativizar a importância do debate de inclusão. É ignorar os muitos negras e negros que fazem arte, escrevem, atuam em TV e Teatro e enfim… alguns são jornalistas.

Qualquer evento se movimenta com a presença de pessoas. Sem os seres viventes não há clique que se sustente. Sim, foi uma ação de ativistas. Mas antes de serem atores sociais, são indivíduos que fazem a diferença com o seu trabalho. São cidadãos que participam da vida de sua cidade. E com esse ato, não somente marcaram território, mas se mostraram para a mídia, para as assessorias de imprensa e equipes de cerimonial, para que percebam a existência de outros a serem convidados.

E nesta questão vale lembrar um antigo adágio popular: "Quem não é visto, não é lembrado." A foto escolhida para ilustrar a matéria poderia ter sido o âmago do texto em sua complexidade se ali estivesse o dono do evento à confirmar que naquele instante, um outro universo se associou ao seu. Ainda é recorrente utilizar-se de que negros em sua maioria são assalariados, e estes, não são consumidores de arte, literatura ou espetáculos. Isso é um engano retrátil que prejudica o presente e mantém o futuro no passado.

Ainda não são muitos os negras e negros que possuem condições para mover o mercado A e B. Mas eles existem e quase sempre são ignorados. É por isso que atividades iguais as comandadas pelos personagens da matéria da Folha podem contribuir para minimizar essa situação que precisa ser mudada. Se a "Presença Negra" ainda nutre atenção desconcertante, é porque o preconceito é latente.

A maneira como se enfrenta as desigualdades relacionadas a cor da pele no Brasil é velada, silenciosa, e injusta. Porque não escrever fazendo paralelos sobre o que se produz e quem pode compor um outro olhar agregador e inclusivo. Não abandonar matérias iguais a essa, mas prosseguir fazendo outras mais e permanentemente. É preciso reagir a matérias iguais a essa. Já se vão mais de 50 anos que muitos ainda entendem que é melhor ganhar uma visibilidade assim do que não tê-la. No entanto, contra esse pensamento do pouco é muito, sabe-se que de nada vale um tostão quando se negociam milhões.

O que estão fazendo o jornalista Oswaldo Faustino, e outros, é excelente e precisa ser reverberado com mais força. É preciso manter o ideal dessa ação ampliando sua intensidade catalisadora, fazendo-a se transformar numa eficiente "Caixa de Skinner".

José Amaral Neto