O período Lula/Dilma na história do país ainda não terminou, mas começa a deixar legados. Legados, considerando-se ai, impactos que perdurarão por décadas até que cheguemos ao ponto em que a influência do período não se faça mais notar.

Podemos dizer que no primeiro ano do segundo mandato de Dilma Russef a agenda social do país retroagiu 30 anos, graças à sua notória incapacidade política, e aos acordos espúrios do PT, em busca da manutenção dos seus próprios interesses, que levaram o país a uma crise econômica violenta e a uma crise de governabilidade sem precedentes em nossa história recente.

Chegamos ao nível em que setores da sociedade se mobilizam para ir às ruas pedir a volta dos militares ao poder, graças à sensação de vácuo político em que nos encontramos nesse momento.

Buscando acomodar os interesses de seus "aliados", a presidente Dilma fez uma reforma ministerial que, via de regra, afetou diretamente a área social, extinguindo de uma vez três pastas e fundindo-as numa só.

Notadamente, as três pastas extintas implicavam no maior compromisso assumido com a sociedade civil organizada, que era dar visibilidade e comprometer o Estado brasileiro, ainda que simbolicamente, com a luta contra o racismo (Seppir), com as questões de gênero (SPM) e a defesa dos direitos humanos (Sedh), notadamente os temas que estão sendo mais duramente atacados neste momento por parlamentares da direita, proto-nazistas e pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira.

Neste exato momento, estamos vislumbrando movimentos pré-golpe; a presidente está acuada e enfraquecida, o PT se tornou um arremedo de partido e assistimos o ex- presidente Lula antecipando o calendário eleitoral onde se acredita liderando a corrida presidencial. Grave erro, entre tantos já cometidos neste triste ano de 2015.

Diante deste cenário, para onde deve seguir o movimento negro? Na defesa radical da governabilidade? Ou na reformulação de sua agenda política se preparando para um novo cenário político com viés reacionário de direita tal qual vivíamos 30 anos atrás.

Eu, particularmente, entendo que a presidente será sangrada até chegar ao nível humanamente insuportável que a levará à renúncia, isso se não acontecer antes um golpe, seja ao modelo antigo, com tanques nas ruas e violenta repressão, até mesmo uma nova modalidade de golpe que faça da presidente uma peça decorativa sem força e sem comando.

Seja qual for o cenário temos uma presidente enfraquecida, refém de um congresso conservador, que aos poucos vai impondo sua agenda política diametralmente oposta à agenda da sociedade civil organizada que por muito tempo deu sustentação política a Lula e Dilma.

O cenário pós Dilma se avizinha pior. Ou teremos um presidente conservador ou teremos um presidente tão fraco quanto Dilma, que passará seu mandato se justificando e se defendendo dos erros cometidos nas gestões anteriores. Seja qual for o cenário a sociedade civil organizada sai perdendo e o Movimento Negro, como sempre, é o que perde mais. É momento de reavaliar a agenda política do Movimento.

Nunca se matou tantos jovens negros como agora, a intolerância religiosa está na ordem do dia e os casos de racismo e discriminação, com maior ou menor visibilidade, se tornaram praticamente diários.

É hora de voltarmos a dialogar com a sociedade, esclarecer pontos vitais de nossa agenda e restabelecer nossas pautas a partir de nós mesmos e não de um órgão público como foi a Seppir, um órgão para-governamental que às vezes agia como nao-governamental.

Mais uma vez as palavras de Steve Biko ecoam, nos lembrando que estamos por nós mesmos, pois a experiência demonstra que o aparelhamento de nossas agendas por setores político-partidários nos levam à servir de massa de manobra e moeda de troca no alvorecer das crises.

É o momento de voltarmos às ruas, mobilizarmos nossa militância, buscar forças para reconstruir uma nova agenda que nos reconfigure e nos coloque num novo patamar.

Este é o momento em que devemos construir um novo paradigma nas relações políticas entre nós, superando novas diferenças metodológicas e pessoais que nos levam à fragmentação política.

É do hora de o Movimento Negro dar um passo adiante e, coletivamente começar a agir como Plataforma, unificando, em torno desta Plataforma as agendas políticas das entidades nacionais e atraindo em torno de si, organizações e entidades afins, para configurar esta Plataforma como organização pára-partidaria, desatrelando assim o movimento negro das estruturas partidárias e o levando a um novo patamar no novo cenário político que está se descortinando.

Será necessário, para isso, gestos de grandeza política das lideranças políticas nacionais e extrema maturidade pessoal de nossos líderes para construirmos, de fato, uma nova estrutura política e a um novo desenho da agenda política.

Este é, ao meu ver, o caminho possível, a nova relação política e o novo modelo a ser seguido por nós que sustentamos e fomos levados à quase dissolução institucional, por conta de nossa excessiva vinculação política ao governo e ao PT.

Que nos venham dias bons e que sejamos habilidosos para construir estes novos dias, pois é isso que devemos deixar para as novas gerações.

 

Marcio Alexandre M. Gualbertoional do CEN