Para começar, o Mapa que reuniu a nata do setor que mais lucra no país, não é, por ora, senão uma solene declaração de boas intenções, uma ação de relações públicas com todas as nuances e conseqüências de qualquer ação desse tipo. No ano passado, os lucros dos bancos chegaram a astronômicas quantias de 22,228 bilhões – 22% a mais do que no ano anterior. No caso dos bancos estrangeiros os lucros chegaram a R$13,56 bilhões – uma alta de 160% sobre 2007.
Não foi, contudo, uma ação adotada espontaneamente, como apresentado pelo responsável pela área de recursos humanos da Febraban, Mário Sérgio Vasconcelos, mas sim, fruto, primeiro, da denúncia do movimento negro que identificou os efeitos da discriminação praticada pelos bancos no mercado de trabalho bancário e que criou as bases para ação de denúncia promovida pelo Ministério Público Federal do Trabalho (MPFT).
Na ação, de 2005, os bancos – especialmente os maiores, inclusive Bradesco, Itaú, ABN Amro e Unibanco – são acusados de discriminar negros e mulheres. Todos se recusaram a participar do programa “Igualdade para Todos”, lançado pela própria Procuradoria do Trabalho, que tinha como objetivo o combate à discriminação racial e de gênero, buscando a isonomia dos trabalhadores mais vulneráveis.
Só para se ter uma idéia, os cinco maiores bancos privados possuíam, à época, um total 1.858 trabalhadores. Destes, apenas 18,7% eram negros. Em São Paulo, o setor empregava 64.750 pessoas, sendo que os negros correspondiam a apenas 7,9% do total.
Discriminação
Por conta da denúncia, foram realizadas audiências públicas na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em que compareceram os representantes dos bancos e lideranças do Movimento Negro brasileiro. Foram nessas audiências que se negociou o acordo pelo qual seria contratado o Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (CEERT) para fazer consultoria.
No café da manhã para apresentação do Mapa da Diversidade, realizado na sede do luxuoso hotel Inter-Continental, na Alameda Santos, em S. Paulo, até mesmo a professora Cida Bento, do CEERT, esqueceu desse pequeno detalhe, para enveredar por um discurso cheio de dedos, assumidamente delicado, diante de uma platéia mais delicada ainda, provavelmente para não ferir a suscetibilidade dos banqueiros.
O advogado Humberto Adami, presidente do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), do Rio, um dos líderes da mobilização que resultou na ação do MPFT, estava presente, não porque tenha sido convidado. Tudo foi montado como uma grande ação de relações públicas da poderosa Febraban, que se fez representar pelo próprio presidente Fábio Barbosa, em que os protagonistas de fato – os negros – não serviam sequer ao papel de coadjuvantes secundários. Mesmo assim, por elegância – e, muito provavelmente, apenas por elegância -, Adami destacou os “avanços”. Quando se fala em avanços, porém, é preciso saber em que direção e para quem. Porque avanço não é uma palavra neutra. Quando se avança, a pergunta é: quem avança, para onde avança, que interesses são atingidos ou não são atingidos neste avanço.
O que se observa, tanto na solenidade do Mapa, quanto, mais recentemente, na formatura da Unipalmares é que está em curso um modelo de inclusão racial, marcado pela subalternidade que tem algumas características que é preciso identificar para que não se compre gato por lebre.
As iniciativas dos bancos ou de qualquer setor da economia são, inegavelmente, positivas, desde que não sirvam para esconder o abismo da discriminação que atinge, claro, majoritariamente os 49,5% de negros da sociedade brasileira. Não vale, a pretexto de dar satisfação à opinião pública, fazer ações de marketing em que a questão racial é praticamente escondida quer sob a forma de shows, quer com a apresentação de portadores de deficiência (assim mesmo e não portadores de necessidades especiais, designação mais politicamente correta) e orientais, como se estivessem no mesmo patamar.
Ora, os portadores de deficiência não sofrem racismo – que é a expressão da supremacia branca – a não ser que sejam negros; a desvantagem que sofrem pelas condições físicas diante de outros segmentos da sociedade já são claramente contempladas, inclusive, na Lei de Cotas para os mesmos, que ninguém ousa questionar, ainda que ainda muito reste a ser feito com a adoção de programas de acessibilidade aos locais públicos e nos transportes coletivos, por exemplo. Os orientais, por sua vez, representam menos de 0,7% da população brasileira. Quando se esconde a questão central – a racial -, sob o pretexto de tornar o tema da desigualdade racial palatável, há intenções políticas que convém desnudar para que não caiamos em mais um conto.
Não se duvida das intenções, na melhor das hipóteses, mas qual o problema de se tocar no assunto diretamente? Por que falar que os bancos praticam discriminação ofende aos ouvidos delicados – inclusive de certas lideranças negras e empresas de consultoria? Ora, o primeiro passo para se resolver o problema é reconhecê-lo e não parece que isso acontece nesses eventos em que a preocupação em não ferir os ouvidos e a delicadeza da assistência, no caso, os representantes dos maiores bancos brasileiros, é insuperável. A ponto de, ao final, o que temos são shows para consumo interno e da mídia que deixa bem como sempre os responsáveis pela reprodução da discriminação e do racismo persistentes.
Zumbi
O mesmo espetáculo se viu na formatura da primeira turma do Curso de Administração da Universidade Zumbi dos Palmares. Primeiro, convenhamos, é preciso admitir: o reitor José Vicente é o negro mais poderoso do Brasil e, até por esse poder, poderia fazer mais. Senão, como explicar que o Presidente da República, o governador e o prefeito de S. Paulo, portanto, o chefe de Estado e mais o governador e prefeito, respectivamente, do Estado e da capital mais importante do país, tenham permanecido durante cinco horas, no último dia 13 de março, no Ginásio do Ibirapuera, participando de um evento de formatura de uma universidade privada, que cobra mensalidades entre R$ 327,00 a R$ 450,00, nos seus cursos. Por mais respeito que se possa ter à alegria e a emoção verdadeiras de meninos e meninas negras, emoção justa e merecida, isso não explica o milagre de Lula, Serra e Kassab, com suas notórias e conhecidas diferenças, inclusive políticas e ideológicas, tenham permanecido tanto tempo numa mesmo evento, não fôsse o seu patrocinador a mais legítima expressão desse modelo de inclusão racial a que fazemos menção no título.
A explicação, muito provavelmente, não está apenas na figura do reitor e o seu inegável talento para transitar por distintos públicos do mundo político com a maior desenvoltura. Também se explica pela sua capacidade de atrair parceiros na iniciativa privada – mais uma vez, os bancos, e o multimilionário do ensino privado, João Carlos Di Gênio, dono da Unip, benemérito permanente da Palmares.
Nada contra quem realiza, quem trabalha, e não se pode, absolutamente negar as virtudes que transformaram Vicente no maior empresário de ensino negro no país. Não se pode negar o papel das consultorias e das lideranças que se profissionalizaram nesta área, como é o caso da professora Cida Bento, e os relevantes serviços prestados pelo CEERT, instituição que se tornou uma referência para muitos; nem mesmo as boas intenções dos bancos e dos banqueiros.
O que se questiona é um modelo de inclusão racial em que o movimento social negro vocaliza demandas; empresas de consultoria faturam; e os responsáveis pelo sistema de discriminação e exclusão fazem marketing, enquanto os destinatários dessas ações – a população negra – não vêem a cor do dinheiro nem tem acesso aos cafés em hotéis de luxo.
Trata-se de um modelo, que fundamental transforma a questão que atinge metade da população do país, em instrumento de negócios – tanto para quem promove, quanto para quem presta serviços. E com um detalhe: principalmente, para o proveito de ambos.