Uma campanha sem trégua, verdadeira tentativa de desqualificação e linchamento está em curso no Brasil. O alvo é o ministro Joaquim Barbosa, o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal – a mais alta corte do país, um dos três Poderes da República.

A campanha não é nova – começou logo após a Vara de Execuções Penais de Brasília determinar o recolhimento dos condenados ao Complexo Penitenciário da Papuda – , mas tem se intensificado nos últimos dias, desta vez engrossada não só por manifestações de líderes partidários (o insulto do vice-presidente da Câmara André Vargas ao ministro na abertura do ano Legislativo, é um exemplo) mas também por uma ativa ala de jornalistas alinhados ao Governo – os chamados “blogs sujos” – que tem como sua maior expressão, o jornalista e âncora da TV Record, Paulo Henrique Amorim, blogueiro responsável pela criação da sigla PIG – Partido da Imprensa Golpista.

O termo foi cunhado para intimidar jornalistas independentes, que não se pautam pela agenda do Governo Federal e consideram que o exercício da liberdade de imprensa – de expressão, manifestação e opinião – numa democracia (ainda que precária como a que temos) tem de estar condicionado a visão de quem ocupa – entre uma eleição e outra – o aparato do Estado.

Amorim, porém, não é o único. Luiz Nassif, analista econômico, é outro ativo membro do time dos chamados "blogs sujos", outra invenção de PHA para dar uma marca ao grupo que chegou a fazer reuniões, em Brasília, com patrocínio do Banco do Brasil e estatais, com o ex-presidente Lula no "Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas". As imagens divulgadas do Encontro não deixam dúvidas sobre o caráter chapa branca da iniciativa e da visão que o grupo tem sobre o direito de informar.

Para tais blogueiros e ou jornalistas, na impossibilidade de enquadrar os grandes meios de comunicação (jornais e TVs), como advoga um setor do Governo – o mesmo a que se opôs o ministro das Comunicações Paulo Bernardo, que se recusou a aderir a proposta de regulamentação da mídia, uma palavra mais palatável usada pelos que, na verdade, querem é o enquadramento e a submissão do direito de informar à sua visão autoritária de mundo.

Todos os jornalistas que não compactuam com essa visão passaram a fazer parte do PIG, e esse discurso é amplificado ao limite nas redes sociais pelos MAVs – Militantes em Ambientes Virtuais – nas redes. Visão mais grosseira e tosca do que seja a função do Jornalismo em um Estado Democrático de Direito não pode haver, mas é o que temos.

Blogs sujos

Embora sejam os mais proeminentes e notórios, Nassif e PHA não são os únicos: Renato Rovai, da Revista Fórum, é outra "estrela" em ascenção do time, membro do grupo contratado pelo PT para monitorar temas de interesse do partido e indicar como estão sendo tratados, bem como produzir relatórios para indicar a temperatura das discussões e o número de menções a cada assunto para a campanha à reeleição da Presidente Dilma Rousseff e do ex-ministro Alexandre Padilha ao Governo de S. Paulo.

Os tais autodenominados “blogueiros sujos” de PHA, além da função de reduzir o debate político a eterna disputa entre petistas e tucanos (o Fla x Flu que já está indo para o décimo-segundo ano, num jogo que não sai do zero a zero) também integram a infantaria da campanha desencadeada contra Barbosa. Qualquer gesto, qualquer decisão do presidente do STF torna-se pretexto para ataques os mais despropositados, como, por exemplo, a acusação – falsa, diga-se de passagem – de que o ministro teria ido passar férias em Paris com dinheiro público.

Uma mentira que circulou largamente nas redes sociais e faz parte da estratégia de gerar informações para abastecer  a militância, cujo papel, é reproduzi-las acríticamente, como o soldado numa guerra que obedece, sem questionar, a cadeia de comando.

Campanha racista

O grave é que a campanha tem uma óbvia conotação racista. Ataca-se JB não pelos seus defeitos, mas por não ter cumprido o papel que esperavam dele: o de um negro dócil, enquadrado e domesticado à vontade de quem o nomeou. 

Na semana passada, o ex-presidente Lula, responsável pela indicação de JB, em comício em Ribeirão Preto, saiu-se com esta frase:  "Quando você indica alguém, está dando um emprego vitalício…” Mais claro impossível: esperava-se de Barbosa o papel dócil, e ele simplesmente não obedeceu ao script.

Na campanha de linchamento contra o ministro o vale tudo está instalado. O Supremo Tribunal Federal é composto por 11 ministros – 9 dos quais, aliás, nomeados nos últimos 11 anos, pelos Governos Lula e Dilma.

Na vasta rede de informação patrocinada, porém, Joaquim Barbosa teria decidido tudo sozinho, e escondido informações de um julgamento que dizem ter sido um farsa, como se as sessões não tivessem sido todas transmitidas ao vivo pela TV Justiça e os acusados não tivessem tido para defendê-los das graves acusações de corrupção e peculato, entre outras, os maiores advogados do país, entre os quais, um ex-ministro da Justiça – Márcio Thomás Bastos -, privilégio com que poucos cidadãos brasileiros na condição de réus podem sonhar.

O linchamento também inclui versões a respeito dos humores do ministro, diárias pagas em viagem de férias, interrompidas para visitas representando a Corte em instituições como o King’s College, de Londres, emprego de um filho pela Globo e outras versões plantadas, sem nenhuma relação com a verdade. Porque a verdade é o que menos importa e, como na guerra, é sempre a primeira vítima.

Joaquim Barbosa, certamente, não é o "Salvador da Pátria" como passou a ser visto por alguns  apenas por ter recusado o papel que os que o nomearam esperavam dele – o de negro dócil.

Porém, a campanha de linchamento diz muito a respeito do Brasil profundo – racista e arcaico – em que negros podem assumir seu lugar, e até chegarem a chefia da mais alta Corte do país, desde que se tornem servis, subservientes e abdiquem da altivez.

Não se tornar servil e subserviente e não abdicar da altivez são os "pecados" de Joaquim Barbosa, e pelos quais ele se tornou alvo da odiosa campanha com viés racista de quem, nos salões, nos debates acadêmicos ou nas rodinhas partidárias, costuma se apresentar como progressista e até de “de esquerda”.

Como a jabuticaba, que só existe no Brasil, yes, nós também temos "racismo de esquerda"!

Isso é Brasil.

Dojival Vieira