Trata-se de um golpe provavelmente irreversível, uma pá de cal no mito/mentira da democracia racial, ainda que não ignoremos o peso dos que pretendem esconder a dimensão racial da desigualdade sob o discurso de que o problema é “social”, tão a gosto do neo-racismo envergonhado, presente, inclusive, no Governo Lula.
Mesmo terminando de forma trágica com o assassinato do jornaleiro Jonas Eduardo Santos de Souza, 34 anos, morto por um segurança do Itaú numa agência do Rio após passar por constrangimentos na porta giratória, também marca a reação de personalidades e entidades negras e anti-racistas que, na quinta-feira (28/12), se mobilizaram rapidamente para exigir Justiça.
A conseqüência da atitude corajosa já pôde ser notada: o Tribunal do Júri do Rio acabou de decretar a prisão preventiva do assassino, que se encontra foragido.
É possível extrair daí, pelo menos, uma conclusão óbvia: não há mais espaço, no Brasil, para que a violência racista seja ignorada. Toda ação é preferível à omissão que, freqüentemente, esconde a falta de horizontes e a tibieza de supostas lideranças, quando não o comodismo cúmplice com tais crimes.
A outra conclusão é de que também não há espaço, no Brasil, para um movimento negro anêmico, que não reage diante da violência contra os seus, nem se move a não ser quando está em jogo interesse personalista de autodenominadas lideranças, estejam elas nos partidos, no Estado ou na Academia.
O Movimento que precisamos – e esta talvez seja a maior e mais importante lição a tirar desses episódios – é o Movimento que abandona o “conforto” do gueto, que nos fragiliza e enfraquece, e se qualifica e se expõe destemido ao debate e à luta na busca de alianças cada vez mais amplas capazes de quebrar a espinha dorsal do racismo e de suas práticas assassinas.
O Movimento que precisamos é o Movimento que entenda que o constrangimento, o sofrimento, a violência, a dor da discriminação e da exclusão atinge a todos e a cada um e ninguém pode ficar indiferente se um de nós é atingido em qualquer lugar deste país, do Oiapoque ao Chuí, ou em qualquer lugar do mundo, onde a cor da pele ou a cultura, forem usados para justificar a violência da discriminação.
Os exemplos, este ano, vieram de S. Paulo, com a Parada Negra; vieram do Rio, com a luta heróica das entidades que se mantém exigindo do Estado o corpo do educador negro Roberto Delanne, desaparecido tragicamente desde março, e esclarecimentos sob as circunstâncias de sua morte; vieram dos que lutaram para exigir do Estado brasileiro punição exemplar aos racistas que querem monopolizar a Internet como espaço para a propaganda do ódio racial e a defesa da supremacia branca; vieram dos que foram às ruas com o Movimento Brasil Afirmativo para exigir a votação imediata do Estatuto da Igualdade Racial e do PL 73/99, que criam ações afirmativas e cotas nas Universidades; vieram dos que se mobilizaram rapidamente para dizer “Basta” à violência contra negros nas “portas giratórias” que não estão apenas nos bancos mas que, simbolicamente, são o olho racista a impedir a entrada a todos os lugares e espaços onde devemos estar por Direito.
A morte do jornaleiro Jonas atinge, portanto, a todos e a cada um. E a ninguém é dado o direito – especialmente nós negros, mas também os que, independente da cor e ou etnia se propõem a viver numa sociedade civilizada e democrática – de se refugiar na indiferença.
Por isso, o ano de 2006 termina com uma exigência dos 91 milhões de negros e negras brasileiras: queremos a prisão imediata e condenação do assassino do jornaleiro, abatido brutalmente sob às vistas do gerente da instituição mesmo tendo mostrado seu cartão de cliente há mais de 10 anos.
Queremos mais: queremos a abolição das tais portas giratórias que são, na verdade, armadilhas para aplicação de práticas racistas neste país em que nascer negro é viver sob odiosa e sistemática suspeição.
Queremos mais ainda, ou apenas: Justiça!