Durante a Colônia e o Império, a fuga em massa de escravos dava origem, quase sempre, à constituição de quilombos localizados, via de regra, em áreas de difícil acesso. A Ordem Real de 6 de março de 1741 definia quilombo como qualquer grupo escondido com mais de cinco escravos fugidos.

A região de Ubatuba e Parati concentra diversas comunidades reconhecidamente remanescentes de quilombos, formadas, em sua maioria, por escravos fugidos das fazendas de café de São Paulo e do Rio de Janeiro no século XIX.

Até a década de 1960, assim como a população local indígena e caiçara, essas comunidades viviam de forma autônoma por meio da pesca, da caça, da coleta e da agricultura de subsistência, numa região que permaneceu praticamente abandonada após o declínio da produção cafeeira.

No entanto, a construção da rodovia BR 101, a Rio-Santos, na década de 1970, alterou profundamente a vida da região, que passou a receber um grande fluxo de turistas, mas também de especuladores imobiliários e grileiros, exercendo violenta pressão sobre o direito de posse da terra das comunidades.

Ao mesmo tempo, as iniciativas governamentais de proteção da natureza, com a criação do Parque Nacional da Serra da Bocaina (1972) e do Parque Estadual da Serra do Mar e Núcleo Picinguaba (1977), ao estabelecerem restrições ambientais, tolheram o modo de vida tradicional das comunidades e algumas de suas fontes de renda.

No sertãozinho da praia de Camburi, em Ubatuba, fronteira com o município de Parati, resiste uma comunidade quilombola, cuja origem tem duas versões, provavelmente complementares. Segundo depoimento oral de seus moradores, um grupo de escravos, liderados por uma senhora de nome Josefa, habituada a caçar bichos no mato, refugiou-se numa gruta no alto de um morro, hoje conhecida como Toca da Josefa, a qual teria dado origem à formação do quilombo.

Outra versão, que consta em manuscritos de época, indica a existência no local da Fazenda Cambory (1798-1855), que contava com um grande número de escravos e produzia cana-de-açúcar e café. Depois da abolição da escravatura e da decadência do café, a fazenda foi abandonada pelos proprietários.

Na década de 1970, boa parte das terras ocupadas pela comunidade quilombola de Camburi passou a fazer parte da área de proteção ambiental, estando sujeita às proibições de corte de madeira e de práticas de agricultura e extrativismo vegetal.

Posteriormente, com a construção da rodovia Rio-Santos, acirraram-se os conflitos pelos direitos de posse na região. Fato é que, nessa época, cerca de 80% dos terrenos, incluindo aqueles que davam frente para o mar, encontravam-se nas mãos de dois grandes proprietários; quilombolas, assim como muitos caiçaras, viram-se obrigados a ocupar as áreas recuadas, próximas às encostas das montanhas.

Atualmente, o quilombo de Camburi é constituído por cinquenta famílias, que totalizam cerca de 230 pessoas ligadas entre si por laços de parentesco, as quais ocupam a região há mais de cento e cinquenta anos. A pesca é sua principal fonte de sobrevivência. Alguns moradores ocupam-se da fabricação artesanal de cestos e balaios, mas nem sempre conseguem comercializá-los, enquanto outros optaram por trabalhar na construção civil ou como caseiros em residências de veraneio.

Além de enfrentarem graves problemas de transporte, assistência médica e saneamento básico, os quilombolas de Camburi permanecem, desde a década de 1960, quando iniciaram seu processo de reconhecimento, sem titulação de suas terras e numa situação de indefinição territorial. Para lutar pela demarcação de seu território e por melhores condições de vida para seus moradores, foi fundada em 2001 a Associação dos Remanescentes de Quilombo do Camburi.


Fonte: capítulo “Quilombo de Camburi”, página 154 a 159, do livro O Litoral em Dois Tempos: uma viagem em torno do relatório da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo – de Santos a Ubatuba – 1915 – 2015, da Editora Neotropica. Com textos da pesquisadora Glória Kok e do escritor Alberto Martins e fotografias de João Luiz Musa.

 

Glória Kok e Alberto Martins