Lauro de Freitas/BA – Jovens remanescentes de comunidades quilombolas de diversos Estados do Brasil estiveram reunidos na Roda de Discussão “Terra e Moradia”, do 1º Encontro Nacional da Juventude Negra, realizado neste fim-de-semana em Lauro de Freitas – Bahia. Antes dos relatos de cada comunidade, eles ouviram a palestra do militante Luiz Gonzaga, o Gegê (foto) da Central de Movimentos Populares de São Paulo. Gegê chamou atenção para o equívoco de se achar que os quilombos estão apenas no meio do mato, afastado da vida urbana.
“O quilombo está também na cidade. Em locais como a Rocinha ou outras favelas brasileiras, há as mesmas dificuldades e lutas dos quilombolas que é a luta pelos direitos fundamentais como saúde, educação, casa e o mais importante que é o direito a vida”. Outro esclarecimento feito por Gegê foi em relação à prática de se limitar a luta quilombola à questão da terra e moradia. Segundo o militante, a batalha vai muito além do título das terras. “Moradia não é apenas quatro paredes. Não adianta as quatro paredes sem saúde, educação, transporte e outras políticas públicas essenciais”.
Os jovens quilombolas de regiões como Rio de Contas (BA), São João de Piauí (PI), Muquenga de Palmares (Alagoas) e Marambaía (RJ), entre outras comunidades de Pernambuco, Espírito Santo, Paraíba, Ceará e Pará deram depoimentos da situação de suas comunidades e dos problemas enfrentados pela luta contra grileiros e latifundiários pelas terras e a cobrança aos órgãos governamentais por atenção.
Osmar Lima, da Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro, falou da guerra judicial que os quilombolas daquela região têm travado com a própria União, devido à utilização das terras pela Marinha Brasileira. “Há uma divergência dentro do próprio Governo. O Incra dá a posse aos quilombolas e dias depois a Casa Civil baixa outro decreto, totalmente contrário. Nós quilombolas ainda sentimos na pele as conseqüência dos anos de escravidão e somente com muita organização e persistência nossa poderemos mudar esta realidade”, afirmou Lima.
A Roda de Discussão foi mediada pelo militante do Movimento Negro Unificado (MNU), Roque Peixoto, que ultimamente está morando e trabalhando no município de Maragojipe, no Recôncavo Baiano, região com dezenas de grupos quilombolas e comunidades tradicionais, como pescadores e marisqueiras, para as quais as políticas públicas tem tido pequenos avanços nos últimos anos, ainda pouco eficientes diante dos anos de descasos.
Trabalho e empreendedorismo é tema de debate no Enjune
Outros importantes temas foram discutidos no segundo dia do Enjune, através das Rodas de Discussão, com representantes da sociedade civil, do poder público e de organizações da juventude negra. No Grupo “Trabalho”, temas como empreendedorismo e associativismo foram abordados pelos jovens com a presença do consultor Antonio Silva, da Fundação Kellog (BA).
Os jovens reclamaram que as ações governamentais estão focadas em cursos técnicos profissionalizantes, não havendo nenhum estímulo ao empreendedorismo da juventude. “A própria lei de cooperativismo barra a atuação dos jovens pelo limite de idade imposto. Há a necessidade de marcos legais mais adequados à realidade dos jovens negros, assegurando que as experiências positivas que já ocorrem nos bairros negros e nas periferias das grandes cidades sejam potencializadas. As produções desses empreendedores devem ser competitivas no mercado e circular fora da comunidade”, afirmou Antonio Silva.
Os jovens participantes da Roda de Discussão, mediada pelo graduando em economia, George Oliveira, do Instituto Cultural Steve Biko (BA), refletiram sobre o dilema que é colocado para negros e negras pela falta generalizada de ocupação. Diante das dificuldades enfrentadas por familiares e amigos é preciso à juventude “ter emprego e gerar emprego”, portanto, há a necessidade de iniciativas empreendedoras que tragam resultados na geração de emprego e renda para toda a comunidade.
Jovens com deficiência participam das discussões do Enjune
Os problemas de acessibilidade e falta de respeito com os cidadãos e cidadãos com deficiência foram debatidos na Roda “Inclusão de pessoas com deficiência”, com a presença de Elcio Soares, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República; Marina Maria, da ONG Escola de Gente, do Rio de Janeiro e Higino Souza, cotista da Universidade de Brasília. O estudante, que é cadeirante, foi o mediador dos debates.
O representante governamental apresentou o histórico de luta das organizações de pessoas com deficiência por políticas públicas que garantam o livre acesso e impeçam atitudes preconceituosas e discriminatórias. “São mais de 25 anos de luta para que, hoje, possamos ver garantidas as políticas de acessibilidade e a própria mudança nos conceitos como a substituição da palavra integração por inclusão. A primeira remetia o problema para a pessoa com deficiência, como se ela é que precisasse se integrar à sociedade. Hoje falamos de inclusão e acessibilidade, colocando a responsabilidade na sociedade e nos poderes públicos que devem criar todas as condições para que os cidadãos e cidadãos gozem seus direitos de cidadania”, afirmou Élcio Soares.
Cada jovem presente expressou preconceitos sofridos e tentativas de limitação de suas atuações sociais, problemas que se agravam quando se refere ao jovem negro e deficiente. O estudante Higino Souza alertou para os problemas de acessibilidade até mesmo em locais onde esta discussão está em pauta. “Aqui mesmo, no Enjune, sentimos sérios problemas para locomoção, como a existência de uma rampa sem cobertura e muito inclinada, o que me impede de subir sozinho. Nesse ponto a questão da deficiência supera o problema racial, pois mesmo aqui eu não posso exercer o meu direito de ir e vir, com liberdade e autonomia”, reclamou o cadeirante.
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Da Redacao