O método da exclusão, com os de dentro, assim como o sectarismo, contra os de fora, por divergência é o mal maior do movimento negro A atualidade do que está expresso neste texto, não revela a sua data. Não coloquei este texto entre aspas mas para os que não conhecem e para os que não se lembram, ele foi extraído do exemplar nº 1 da Revista “O negro em Movimento” editada em 1991, por ocasião da preparação do 1º encontro nacional de entidades negras.
Todo esse desentendimento, desconfianças, desencontro que estão ocorrendo em função da Marcha Zumbi +10, me remete a um texto/poema escrito por Cuti e publicado na contra capa do seu livro Quizila (S. Paulo, 1987) “O que é esta quizila? /É o pretume nascendo sobre a alvura das pálpebras/Você não titubear na vida/O sonho dançando no compasso do soul/A consciência do Julião trazida por duas mulheres/Quizila é parar uma briga com um poema/ A palavra trançando esperanças na carapinha de um novo tempo/Aquela intriga entre nós/ Um entreato de poesia e imaginação pulsando em nosso coração militante/São tantãs ancestrais transmitindo Ases na encruzilhada da vida/São tantos sapos engolidos/Quizila é um trem fazendo deléin, bleín, delein… /A paixão de quem acredita ser possível um negro no amanhã/É a faca feito lança penetrando na interioridade do silêncio/Quizila é a perda da Tuausência/ Sentir inveja do outro e poder matá-lo no sonho/Um céu noturno pontilhão de estrelas de fé/Quizila é o ponto final sem final”.
È sempre bom olhar um pouco para o passado para conseguirmos força para continuar. A história recente de nossas lutas e de nossas conquistas, da qual muitos dos que estão se desentendendo hoje foram protagonistas, pode servir de referência, para que não se aja como se a disputa travada fosse uma batalha final. As conquistas e as derrotas são de todos. O mérito ou o demérito não é de um grupo específico e nem de uma pessoa. Nós temos uma história muito maior do que muitos querem admitir. (Muitas vezes muito de nós). Alguns pensam que as conquistas só começaram a existir a partir da chegada do seu partido ao poder. Nota-se, muito desrespeito ao trabalho que vem sendo desenvolvido por muitos e muitas há séculos. Muito temos a comemorar, mas temos muito mais a conquistar.
Será possível, como escreve Cuti, parar uma briga com um poema? Estamos ouvindo os tantãs ancestrais?
O Movimento teve uma capacidade de fazer uma grande Marcha em 1995. Houve um grande fortalecimento. Houve, principalmente, uma grande aprendizagem na relação com o poder e no entendimento das políticas públicas. Consolidou-se o 20 de novembro (se, não paramos para lembrar, fica parecendo que sempre houve a comemoração dessa data), ampliou-se a luta pelas reparações (cuja sua maior expressão são as políticas de ação afirmativa), multiplicaram-se os Conselhos da Comunidade Negra (sejam municipais ou estaduais), tivemos e temos algumas experiências de secretarias, coordenações. Várias políticas públicas voltadas a população negra foram implantadas e outras estão sendo debatidas; o Direito e as relações raciais é um tema presente no campo jurídico; conseguimos pautar o IPEA, o IBGE com as nossas demandas, fazendo com que o discurso que antes era só da militância fosse incorporado por essa e por outras instituições; surgiram jornais, publicações, livros, ongs e outras instituições de estudos e pesquisa de nossa militância; aconteceu o GTI, foi criado o Conselho Nacional Contra a Discriminação: está sendo implantado o sistema de cotas em várias universidades públicas, foi criada a lei 10 639 e, (tenho certeza de que me esqueço de várias conquista, como por exemplo, a do livro didático racista que foram retirados da lista do MEC) conquistamos um espaço institucional importante, com status de ministério, que é a SEPPIR. Aprendemos a fazer o jogo político, mas não podemos cair na armadilha da esquerda branca ou da direita alienada.
Foram várias as conquistas, mas não são nem o milésimo do que precisamos. Temos muito a marchar. Temos que colocar a frente de nossos olhos, a grande maioria de negros e negros que estão abaixo da linha da pobreza; o genocídio dos jovens negros de 15 a 24 anos assassinados diariamente; o racismo e a discriminação que negros e negras temos de enfrentar diuturnamente. Temos propostas? Temos.
Temos de brigar pelo Estatuto da Igualdade Racial. Temos de fazer pressão para que as propostas aprovadas na Conferência Nacional, se tornem realidade e muito mais. temos a fazer.. E, principalmente, temos de fazer o jogo político a nosso favor. Vamos dar uma melhor orientada em nossa Quizila.
Por uma Marcha única!

Miriam Santos Cardoso