Era o tempo em que os artistas do palco e do gramado chamavam-se Blecaute, Chocolate, Escurinho, Gasolina, Jaburu, Jamelão, Noite Ilustrada, Veludo etc. Quando as letras dos sambas e marchas cantavam sem problemas a “nega do cabelo duro”, a “nega maluca”; e até o “crioulo doido” e a “nega luxuosa que se fosse cor de rosa era estrela de balé” (estes um pouquinho depois). E em que poderosos jornais, acusavam, até em editoriais, as comunidades religiosas afro-brasileiras como “focos de ignorância e desequilíbrio mental”.
Dá até saudade desse velho e ingênuo racismo! Porque hoje, com a precisão científica de uma guerra bacteriológica, o neo-racismo brasileiro usa principalmente a estratégia de negar sua própria existência, para assim neutralizar as iniciativas que visam efetiva e maciçamente incluir na sociedade abrangente, tirando da “periferia” para o centro das decisões, o segmento afro da população brasileira.
Cada vez mais inteligente e sofisticado, o novo racismo brasileiro aceitou a divisão dos afrodescendentes em “pretos e pardos” (já que nunca se pensou em segmentar os não-negros em “louros e morenos”) até o momento em que os “pardos” começaram a se ver negros e a pesar na balança. Antes, esse neo-racismo já havia negado as peculiaridades culturais e psíquicas formadoras do nosso temperamento e da nossa espiritualidade afro-originados.
Ao mesmo tempo que, no campo da cultura e do entretenimento, argumentando que o fazer dos afro-brasileiros é apenas brasileiro e não afro, pôs-se a utilizar-se dele, em proveito próprio, no balcão de trocas da indústria cultural. No cinema, especificamente, passou a preferir os filmes de ação ambientados em favelas, talvez para sublinhar uma suposta violência do povo negro; e na televisão, privilegiando montagens de época exibidas em horários vespertinos, o faz talvez para perpetuar o estereótipo do negro subalterno, escravo, embora às vezes revoltado.
Assim age o novo racismo na mesma medida que nega a legitimidade de um pensamento afro-brasileiro autônomo, para continuar mantendo a hegemonia do segmento dominante, o euro-ocidental, no campo do saber letrado. Daí, quando um de nós afro-descendentes consegue externar seu pensamento através de uma grande mídia e com alguma repercussão, somos logo arrogantemente agredidos, acusados de xenófobos e reacionários, ao mesmo tempo que vemos lançada a culpa da escravidão africana sobre os próprios nativos do continente. Daí também o sofisma segundo o qual com uma boa educação de base (em quanto tempo?) todo o problema etnossocial no Brasil se resolverá.
Até então, tudo isso vinha meramente especulado, sob a alegação de que o Brasil é um país mestiço, onde “não se pode comprovar quem efetivamente são os negros” – embora essa mestiçagem nunca se tenha visto na fenotipia do Poder, como agora já se observa na Bolívia e na Venezuela e não se nota no México, por exemplo. Até então, era assim. Mas agora, finalmente, o racismo chega ao DNA. Para provar o óbvio: que boa parte dos afro-brasileiros tem sangue europeu; e que esse sangue vem predominantemente pelo lado materno – ao que perguntamos: por força do amor ou do estupro?
Brandindo estatísticas ou testes de DNA e provando sempre o óbvio, o novo racismo brasileiro o que deseja é mostrar que “raça não existe” e que está tudo bem, desde que “pretos e pardos” reconheçam seu lugar, o qual não é o mesmo dos “louros e morenos”.
Hoje, qualquer estudante bem informado sabe que os seres humanos têm uma origem comum, num mesmo grupo saído da África há muitos milhões de anos. Que as diferenças físicas deveram-se à adaptação aos novos e diversos ambientes encontrados na longa caminhada. E que o ultrapassado conceito de “raça” foi há muito substituído pelos de cultura e etnia.
Mas, convenhamos: pra quê serve isso tudo? Vá essa Ciência dizer ao porteiro do prédio “bacana” que os de pele escura também têm direito ao elevador social. Vá ela dizer ao policial truculento que o jovem de cabelo carapinha também pode ser dono de um carro do ano. Vá explicar ao gerente do banco que o jovem negro candidato a bancário pode ser também honesto, inteligente e capaz. Vá dizer ao mercado que a trabalho igual tem que corresponder remuneração igual. Vá explicar para a negra do campo que não foi por ela ter “barriga limpa”, como lhe ensinaram, que seu filho nasceu com pele clara. Vá, enfim, a Ciência reler para o Estado brasileiro os capítulos I e II da Constituição Federal!
Sabe o que eles vão pensar ou responder? “Raça não existe!”. Mas se ainda houvesse telefone preto, certamente, pelo menos um deles diria “alô” no cotovelo do “crioulo” no balcão.
Reproduzido, com autorização do autor, de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br

Nei Lopes