Na razão da punição estão os insultos racistas por ele dirigidos ao futebolista internacional francês do Manchester United, Patrice Evra, nascido no Senegal, durante o clássico entre as duas colossais legendas do futebol inglês disputado no passado dia 15 de Outubro.
Evra alegou que durante o desafio, que terminou com um empate a 1 bola entre os dois gigantes do futebol inglês, ele foi racialmente ofendido por Suárez que o chamou, no mínimo umas 10 vezes, de “negro”, um termo com conotações depreciativas e racistas em alguns países incluindo a Inglaterra.
Considerado culpado por uma comissão independente especializada em lei e futebol, ao atacante dos “red devils’’ (diabos vermelhos), com é conhecido o Liverpool, foi ainda aplicada uma multa pecuniária de 40 mil libras, cerca de 116 mil reais.
O uruguaio, ele mesmo neto de um negro, admitiu o fato e tem agora 14 dias para recorrer da sentença, período durante o qual o castigo ficará suspenso. Em caso de apresentação de recurso, a sanção só será efectivada quando for conhecida a nova decisão.
Contudo, de acordo com a FA, se o jogador, através do seu clube – cuja defesa reagiu furiosamente ao castigo argumentando que o termo “negro” não tem conotações racistas no Uruguai – perder o recurso, ele arrisca-se ainda a uma suspensão ainda maior.
A suspensão do camisa 7 do Liverpool foi apoiada por Gordon Taylor, chefe executivo da PFA (Professional Footballers’ Association), sigla pela qual é conhecida a associação dos futebolistas profissionais na Inglaterra. “Eu compreendo o ponto sobre as diferenças culturais mas todos os jogadores que chegam a esse país devem obedecer não apenas as leis do jogo como também as leis da terra’’, disse citado pelo jornal The Guardian.
“Somos uma sociedade multicultural com uma Liga cosmopolita e os jogadores devem ter igual respeito pelas pessoas independentemente da sua nacionalidade ou cor da pele’’. frisou. Para Taylor, a punição sinaliza “uma mensagem muito forte para o resto do mundo” no combate ao racismo no futebol, especialmente após as recentes e desastrosas declarações (mais tarde retratadas) de Sepp Blatter, o presidente da FIFA, nas qual ele afirmou que o racismo no gramado “pode ser resolvido com um aperto de mão’’.
Em entrevista para a BBC, Lord Herman Ouseley, antigo presidente da Comissão para a Igualdade Racial e atual chefe da Kick It Out (“chute ele para fora”, em tradução livre), a entidade que promove campanhas para combater o racismo no esporte, também apoiou a punição e instou as autoridades esportivas a manterem uma posição dura sobre o assunto.
Alvo de um processo processo judicial igualmente por alegados insultos racistas ao jogador do Queens Park Rangers, Anton Ferdinand, irmão do consagrado defesa do Manchester United e da seleção inglesa Rio Ferdinand, está também o defesa internacional e capitão do Chelsea, John Terry.
Interrogado pela polícia durante o mês de novembro, o Ministério Público inglês acaba de considerar nesta quarta-feira, dia 21 de dezembro, que existem indícios suficientes para acusar o futebolista dos azuis de Londres de ter proferido insultos racistas contra Ferdinand, durante um jogo do campeonato inglês entre os referidos clubes, disputado em 23 de outubro.
“Depois de estudar todos os elementos de prova, penso que a possibilidade de uma condenação é realista e que é do interesse público prosseguir com o caso”, disse Alison Saunders, Procuradora-chefe de Londres, adiantando que Terry vai comparecer perante um tribunal londrino a 1 de Fevereiro de 2012.
O futebolista, reagiu dizendo-se desiludido com a decisão de o acusarem. Como defensor que é, parece ter feito um auto-gol ao remeter-se no clássico e esfarrapado argumento de defesa dos envolvidos em acusações similares para afirmar que nunca fez comentários racistas e que tinha ”pessoas de todas as raças e credos entre os meus amigos mais próximos”.
Aliás, as questões envolvendo o racismo estão no topo da agenda em Inglaterra, onde não há qualquer forma de condescendência para com insultos xenófobos e racistas.
No final de novembro, ficou famoso um vídeo que mostrou Emma West, uma mulher branca, de nacionalidade inglesa, a insultar com comentários racistas e xenófobos os passageiros no metro de Londres. Ela foi detida e vai passar o Natal na prisão onde permanecerá até, pelo menos, o início de Janeiro, altura em que será novamente ouvida em tribunal.
A fórmula de “tolerância zero” que as autoridades esportivas inglesas adoptaram para lidar com casos de racismo no futebol contrasta, de algum modo, com uma certa brandura em casos similares no resto do continente, particularmente nos países latinos do sul da Europa.
Em Portugal, por exemplo, Alan, um futebolista afrobrasileiro do Braga, acusou o espanhol Javi Garcia, atleta branco do Benfica de Lisboa, de insultos racistas no confronto entre os dois emblemas realizado em novembro passado. O espanhol alegadamente o terá chamado de “preto de merda’’, acusação todavia desmentida pelo benfiquista.
No entanto, a reação pública ao episódio parece ter terminado com “o mocinho no papel do vilão”. Isso porque uns tantos comentadores “iluminados” e “nada racistas” bem como algumas das mais emblemáticas figuras do chamado desporto-rei em Portugal, incluindo o moçambicano Eusébio, considerado unanimemente como o maior futebolista português de todos os tempos, vieram publicamente negar a existência do racismo no futebol lusitano.
Ao falar do caso para a revista Maisfutebol, José Manuel Meirim, especialista em direito esportivo, disse: «Chamar «preto» pode não ser ofensivo, chamar «preto de merda» comporta outro carácter: é mais grave, demonstra racismo». «Há portanto que ver como tudo isto aconteceu e se é verdade ou não.»
Se é verdade ou não, pelo silêncio que até hoje rodeia o assunto, pode-se concluir que o chamado “caso Alan” ficou em “águas de bacalhau” como se usa dizer em Portugal, ou seja, resultou em nada.
*O título original do artigo é “Racismo: craque uruguaio punido com oito jogos na Inglaterra”.

Alberto Castro