Desde então as comunidades negras e judaicas têm trabalhado unidas no combate a qualquer forma de discriminação e intolerância que ocorra no Brasil ou em qualquer outra parte do Mundo.
O ato de insanidade do Centro de Tradições Nordestinas teve, entretanto, o dom de semear a profícua semente de uma cultura de paz e que outros segmentos étnicos e outros discriminados precisariam integrar-se a essa ação. E mais, que este era um trabalho pedagógico que deveria ser voltado principalmente às futuras gerações. Ninguém nasce racista. Torna-se racista.
Assim, logo que tomei posse na presidência do Conselho Estadual da Comunidade Negra, em conjunto com a Federação Israelita do Estado de São Paulo, colocamos em andamento o Projeto do Coral Vozes da Paz, que contava com a participação de 250 crianças de 5 a 14 anos, oriundas todas as comunidades que formam a população paulistana, portanto, além de crianças negras e judias, tínhamos crianças de origem árabe, indígena, dos diferentes países europeus e americanos, pobres, muito pobres, ricas, muito ricas e de diferentes religiões.
Nesse coral o que queríamos, além de mostrar que é possível conviver com o diferente, era explicitar a diferença e demonstrar que é necessária que ela seja reconhecida, respeitada e tolerada. Assim, ao contrário do que se poderia inicialmente pensar, as crianças não eram proibidas de dizer e explicar para o outro, aspectos da sua religião, costumes da sua comunidade, do seu povo. Ao contrário, elas eram incentivadas a mostrar suas diferenças. O que queríamos era de fato ter uma ação conjunta, porém, com absoluto respeito à individualidades e aos grupos que compunham do coral.
O resultado foi um grande sucesso de público e de convivência pacífica entre os diferentes, durante dois anos, e a certeza de que mudamos a vida de muitas crianças para tornarem-se pessoas melhores, tolerantes, compreensivas. Alguns talentos foram descobertos e hoje, algumas delas tem tido atuação no mundo artístico. O coral infelizmente parou por falta de recursos financeiros. Ações como essa, entretanto, não alcançaram todos os jovens, e assim temos nos defrontado hoje com uma nova forma de ação nazista e de intolerância, através do poderoso mundo da comunicação eletrônica.
A internet que chega cada vez mais aos lares brasileiros, como quase tudo o que foi criado pelo ser humano, pode ser usada para o bem ou para o mal. Para aqueles que não tiveram uma boa formação familiar e também não tiveram a possibilidade de passar numa ação educativa como, por exemplo, a do Coral Vozes da Paz, as teorias de eugenização, intolerância, não aceitação das mudanças necessárias ao estabelecimento da igualdade de direitos e oportunidades, são assimiladas e difundidas pela rede mundial de computadores. Podemos até aceitar que cada um divulgue as suas próprias idéias.
Talvez seja isto que chamemos democracia, porém, não podemos aceitar a violação aos nossos direitos, como vem ocorrendo com as constantes invasões às comunicações eletrônicas da AFROPRESS e estamos reagindo a essa violência. No dia 15 de fevereiro, 19h, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, que é a Casa da Representação Popular Paulista, haverá um ato de repúdio aos ataques constantes que vem atingindo a agência eletrônica de notícias AFROPRESS.
O ato, que vem sendo coordenado pela Comissão do Negro e Assuntos Antidiscriminatórios da OAB/SP e que conta com a participação de diversas organizações e grupos étnicos que lutam contra a discriminação e a intolerância, será, também, um chamamento aos Poderes do Estado, especialmente ao Judiciário que tem em suas mãos o dever de fazer Justiça e aplicar a lei, de forma a não restar dúvidas de que a democracia se faz com a aceitação pacífica da diversidade, seja ela qual for.
O ato do dia 15 de fevereiro, além do desagravo a uma respeitável e digna agência de notícias deverá revestir-se também da demonstração de unidade de todos os discriminados e de todos aqueles que acreditam que é possível a construção de uma sociedade justa, soberana e igualitária na dignidade, respeito, aceitação e convívio com o diferente. O racismo e a intolerância eletrônica não nos intimidam, ao contrário, nos incentivam a fazer um grande ato no dia 15 de fevereiro.

Antônio Carlos Arruda