Túnis/Tunísia – Veterana como participante do Fórum Social Mundial (só não esteve na edição da Índia) a ativista Silvana Veríssimo, do Coletivo Nacional de Entidades Negras (CEN) disse que levou um choque em Túnis, na Tunísia, onde se realiza a edição deste ano, cujo encerramento aconteceu neste domingo (31/03), com o grau de racismo e de machismo e com certos costumes presentes na cultura árabe.

“Me chamou muito a atenção a questão camuflada do racismo contra as pessoas negras, o machismo exagerado dos homens. Aqui as mulheres não tem direitos e os homens são a prioridade”, contou. A Tunísia – país em que teve início a onda de revoltas que se espalharam pelo mundo árabe – a Primavera Árabe) vive um momento de dificuldades e instabilidade política.

Além de Silvana, participaram do Fórum, Edson França, da UNEGRO, Nilza Iraci, da ONG Geledés, Jurema Werneck, da Associação das Mulheres Negras Brasileiras, Kika Silva e Gilberto Leal, ambos do Coletivo Nacional de Entidades Negras (CONEN). Cerca de 50 ativistas negros integram a delegação brasileira.

Choque

Silvana disse que presenciou situações que racismo e machismo ficaram expostos, em níveis chocantes para os padrões do Brasil. “No dia 26 de março, na hora em que estávamos voltando para o hotel os táxis não pararam para a gente. Estávamos eu e a Fátima Dias [ativista integrante da delegação]. Pararam apenas para os homens brancos. Tivemos uma dificuldade imensa de conseguir um táxi, coisas que no Brasil não acontecem. E, claro, que percebi que porque éramos duas mulheres negras”, relata.

Segundo Silvana, os tunisinos, porém, negam a existência do racismo, como ainda acontece em muitos setores no Brasil. “Eles batem o pé e dizem que aqui não existe racismo, mas existe sim. As pessoas negras moram em bairros distantes, sem nenhuma infra-estrutura. Mas é mais dolorido porque aqui é solo africano. Há poucos estudantes negros na faculdade e a faculdade é pública. Achei um absurdo”, afirma.

Machismo

Ela acrescenta que o machismo é ainda mais exacerbado.“Eu estava almoçando em um restaurante no centro da cidade e vi duas mulheres passarem por nós. Acho que eram mãe e filha. O homem que vinha atrás deu um grito tão alto com elas que eu me assustei. Era o marido xingando-as porque elas tinham passado à frente dele. Aqui as mulheres tem que andar dois passos atrás dos homens. Uma situação totalmente maluca, inaceitável para nossa cultura. Eu já sabia que ia ver situações aqui que iam me assustar”, constata.

 

Uma parte da delegação brasileira ficou hospedada no Hotel África e outra – inclusive Silvana – no Hotel Du Parc. O retorno dos participantes está marcado para este domingo pela Air France, em voo Túnis/S. Paulo, com escala em Paris.

Durante a semana os participantes discutiram a crise financeira global, a justiça global, a privatização da saúde, seminário de que Silvana participou. “Fiquei muito preocupada com a nossa situação no Brasil porque as privatizações da saúde, da maneira como está sendo aplicada nos demais países está se tornando um caos, e se isto acontecer no Brasil vai ser uma catástrofe. Os preços dos remédios estão subindo, as pessoas não estão conseguindo pagar e com a grande quantidade de desempregados no mundo não se está tendo acesso a serviço de saúde de qualidade, e sim, precário o que esta ocasionando muitas mortes evitáveis”.

Identidade

Das experiências de participação nas várias edições do Fórum Social Mundial, a melhor aconteceu no Senegal. “Me identifiquei com o país, lá a parte da África é nossa. É um pais muçulmano, mas não são extremistas e vi um orgulho de ser africano nos senegaleses que me comoveu. Totalmente diferente daqui da Tunísia e, principalmente, no resgate da autoestima do povo do Senegal. Claro que há problemas, pois é um país que esta se reerguendo, mas lá [no Senegal] há uma felicidade natural que não vejo aqui na Tunísia. E na questão política no Senegal tivemos vários encontros com chefes de Estado. Aqui na Tunísia percebe-se que é um momento crítico politicamente. O país está recém saído de um golpe. Tem uma quantidade enorme de desempregados. Há há muita miséria. Falta comida. A Universidade onde está ocorrendo o Fórum tem um instalação e estrutura bem precárias. Há muito desemprego (18% da população) e se vê muita gente nas ruas pedindo esmolas", concluiu na entrevista por e-mail para a Afropress.

Da Redação