O racismo, para mim, é um dos grandes mistérios da humanidade. Sei que existem raízes ancestrais para o sentimento de aversão a membros de outra “tribo”, para a crença na supremacia da própria etnia, para a divisão do mundo entre “nós” e “o resto”.
Mas a esta altura da história humana, quando o próprio conceito de “raça” é cientificamente questionado, quando todos os grandes povos da Terra sabem que se formaram por meio de misturas variadas, quando todas as etnias provaram sua grandeza e seu valor nas mais diversas áreas do pensamento e da ação, é desconcertante constatar que o racismo sobrevive, e em alguns casos com muita força.
O racismo serviu, historicamente, para justificar a submissão de povos inteiros a outros povos. Serviu para sustentar nacionalismos delirantes, para escamotear espoliações coloniais, para legitimar guerras e massacres.
Entendo o indivíduo que se torna racista ao crescer sob o jugo de uma ideologia fundamentalista, totalitária, ouvindo desde o berço a papagaiada de que tal ou qual “raça” é impura, de que tal ou qual povo é a encarnação do mal.
Mas, num país democrático e pluralista, entre pessoas que têm acesso à educação laica, pelo menos em seus níveis básicos, onde não há a desculpa da imposição ideológica ou da lavagem cerebral, como alguém consegue achar que uma “raça” é superior ou inferior a outra?
Como admitir o racismo em países que, além de democráticos e pluralistas, já sofreram o diabo em sua história por conta dessa mentalidade deformadora? É o caso da Itália, da Alemanha, da Espanha -lugares onde, hoje, o racismo reaparece com força.
E no Brasil, onde séculos de escravidão nos deixaram de herança um país torto, injusto, ignorante e atrasado?
Como um sujeito como o zagueiro Antônio Carlos, que já foi da seleção brasileira, que morou na Espanha, no Japão e na Itália, pode usar a cor da pele de um adversário para tentar diminuí-lo, como fez com Jeovânio?
O meu palpite é que existe um racismo inercial, que herdamos sem perceber de nossos antepassados, do meio em que crescemos, e que só deixa de existir quando nos damos conta dele e resolvemos combatê-lo de forma consciente.
Vejo o episódio Antônio Carlos mais ou menos assim: o zagueiro precisou tomar um susto para perceber que o gesto ancestral que ele perpetuava ao passar a mão sobre a pele do braço é um gesto racista, ignóbil e intolerável.
Pena que, durante o julgamento, ele tenha preferido insistir na desculpa esfarrapada de que, num braço, coçava um machucado, e no outro dizia que sua pele servira a grandes clubes. Mas, no seu íntimo, o tranco deve ter valido. Que valha para todos nós.
(Artigo publicado originalmente na edição de 18/03 da Folha de São Paulo e postado na Afropress com expressa autorização do autor)
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José Geraldo Couto