Sim, racismo institucional é diferente de assédio moral. Apesar de serem práticas execráveis e repugnantes, ambas se relacionam no mercado de trabalho, mas são conceitualmente diferentes. Pelo que pude observar e por experiência própria, o racismo institucional é a prática corporativa composta pela exclusão do negro do quadro de profissionais desde a seleção até promoção.

É representado por todas as formas de boicote à ascensão profissional, social e econômica do negro, referida sempre por sua cor de pele.  Observamos a prática do racismo institucional, por exemplo, quando comparamos os seguintes dados:

– O último censo do IBGE apontou que somos 191 milhões de brasileiros no total. Nós negros somos 97 milhões de brasileiros, representamos 51%. Nós mulheres negras somos 47 milhões e representamos 25% da população;

– Nas 500 maiores e melhores empresas, segundo o Instituto Ethos, dos 624 mil profissionais, os executivos são formados por 94,7% de não-negros (brancos e amarelos) e nós negros representamos 5,3%. A situação da mulher negra é ainda a mais excludente: ficamos com 9,3% dos cargos operacionais e funcionais e 0,5% de executivas. Neste último caso, em números absolutos, de 119 executivas, apenas 6 são mulheres negras.

A campanha do Ministério Público de Pernambuco resume de maneira brilhante o conceito: “Racismo Institucional é a prática das organizações e instituições impregnadas de atitudes discriminatórias resultante de preconceito e estereótipos racistas.” Já o assédio moral, normalmente é praticado pelo gestor imediato que, no dia a dia, tem atitudes e comportamentos negativos para poder hostilizar, ridicularizar, inferiorizar, culpabilizar e desacreditar a pessoa de si mesma e dos seus pares.

Ocorre por meio de gritos, palavras de baixo calão, sutilezas irônicas ou insinuações indiretas, depreciando sempre a pessoa (seu lado pessoal, condições físicas, emocionais) e o trabalho que ela realiza. A pessoa vítima de assédio moral, normalmente não reage por medo do desemprego e por vergonha, segundo o site assediomoral.org.

O grupo de trabalho, muitas vezes contribui para agravar a situação quando se silencia frente às humilhações, rompe laços afetivos com a vítima, a isola, como se fizessem um pacto de tolerância e silêncio, porque também, têm medo do desemprego e de serem as próximas vítimas. A pessoa que sofre assédio moral se desestabiliza emocionalmente, tem a autoestima afetada e por muitas vezes apresenta sintomas psicossomáticos como dor de cabeça constante, dor de estômago (azia ou diarreia), crises de choro, insônia, depressão e nos casos mais críticos, ideias e tentativa de suicídio. 

O assédio moral pode vir acompanhado de racismo, quando, por exemplo, um feedback do gestor vem carregado de discriminação racial: “Você negão, nunca atinge a meta!”, “Você acha que mulher preta e gorda como você arruma emprego facilmente? Trate de cumprir o que estou mandando, se não você será demitida!” Essas são frases que pessoas já me contaram ter ouvido do gestor. Infelizmente na nossa sociedade, essas problemáticas são identificadas no mercado de trabalho de maneira mais comum do que imaginamos.

 

Patrícia Santos de Jesus