O problema é sempre alheio, ou então é atribuído à sociedade, de maneira abstrata.
No início deste ano, em razão dessas atividades de vê o racismo como uma condição do outro, um canal de grande audiência no país esteve mostrando uma campanha intitulado: “Onde você guarda o seu racismo”? Essa ação política e social foi organizada pelo o IBASE e uma ONG, cujos membros batizaram diálogos contra o racismo.
A equipe da campanha foi às ruas, em lugares públicos do Rio de Janeiro – Shoppings, Praias, a feira de São Cristóvão, a Lagoa Rodrigo de Freitas e perguntou a mais de 200 pessoas onde guardavam seu racismo. Segundo a equipe encarregada de elaborar as perguntas, as pessoas ao serem indagadas, as reações imediatas eram de arregala bem os olhos e ter uma expressão de surpresa. Passado o justo, a pessoa entrevistada garantia que não era racista, de jeito nenhum, e mostrava até indignação contra atos racistas. No entanto, os pesquisadores sabendo da psicologia do ser racista brasileiro, os entrevistadores mudaram o caminho das perguntas e foi ai que as atitudes anti-racistas ruíram. Destaques três dessas perguntas: o que você faria se estivesse numa rua escura e aparecesse um negro? E se seu filho namorasse uma negra? E o que você acha do cabelo das pessoas negras? Para as duas indagações foram: “ahn, bem”… e na terceira tinha-se a seguinte reflexão: “não tenho nada contra o cabelo deles, embora seja ruim”.
Os resultados conseguidos demonstram, segundo os pesquisadores, que os brasileiros têm uma enorme dificuldade em admitir o racismo, daí as reações de espanto, admiração ou surpresa quando questionados. Então, o Brasil seria um país racista sem racistas? É lógico que não, o brasileiro não quer apenas perceber, pois acham ultrajantes à prática dessa situação, no entanto, o fato de não ter se estabelecido, nesta parte da América, um tipo de racismo segregacionista e ações mais diretas, imagina-se que aqui reside uma confraternização celestial das raças. E como essa situação foi sustentada?
Durante o século XX, em particular a partir da década de 30, houve no Brasil uma campanha para mostrar ao brasileiro que a maior identidade nacional estaria presente na mestiçagem racial e cultural que se fez em excesso por essa parte dos trópicos. A meta portanto, era mostrar a mestiçagem como característica nacional e fomentar a ideologia do embranquecimento que construiu parte do pensamento da elite branca ao inicio do século XX e que disseminou pela sociedade.
O fato é que a idéia de um país mestiço e cordial tornou-se espécie de espelho para outras nações com as propagandas ufanistas de Getúlio Vargas, (1937-45) depois com os governos populistas e sedimentou-se com os militares. Não é por acaso que os governos militares, a fim de manter o discurso que aqui não tem dessas coisas, proibiram, no censo de 1970, perguntas relativas à cor da pele e qualquer diagnóstico social sobre as relações raciais, exceto se fosse para enaltecer a confraternização das três raças. Aqueles que sublevassem por tal posição contrária teriam um caminho a percorrer, infelizmente na maioria dos casos sem volta.
Assim, a maioria dos brasileiros passou acreditar que de fato o racismo era algo distante, ou melhor, era problema por exemplo, dos Estados Unidos. Essa engabelação não foi sustentada apenas pelos setores conservadores, os próprios militantes de partidos de esquerda acreditavam que esse conflito social não se ergueu em solo brasileiro. E como essa situação não foi sustentada? Militantes do movimento negro durante o final de 70 começam a questionar de forma mais veemente a idéia de democrata racial brasileira, inclusive com o surgimento do MNU – Movimento Negro Unificado (1978) e aos poucos as políticas anti-racistas começaram a aparecerem foi o caso da constituição de 1988 que trouxe inovações, como o reconhecimento das terras dos quilombos e a lei Caó contra a discriminação racial. Essa perspectiva de denúncia e reivindicações por direitos justos culmina, nos dias de hoje, com o Estatuto da Igualdade Racial, que traz as políticas de ação afirmativa para a população negras.
Então, na medida que a pressão contra a violência racial foi tomando conta do Estado e sociedade civil, a idéia que somos um único povo foi minando. Destaco alguns dos fatos que comprovam o desmascaramento do racismo à brasileira.
No Brasil, a cor da pele é suficiente para indicar um comportamento suspeito e garantir revistas em blitz, abordagens truculentas, olhares assustados e até mesmo a morte. Foi o caso do dentista negro, Flávio Santana que foi assassinado pela PM paulista em fevereiro de 2004, o mesmo teria sido confundido com um ladrão. Ainda na ânsia de tentar escapar da morte, e acreditando na máxima que basta ter status social para ser respeitado no Brasil, ainda disse para o policial que era dentista, todavia antes de ser dentista ele era negro isso foi o suficiente.
Seguindo a mesma realidade em que negro é suspeito; recentemente, dois irmãos negros, William e Cristian Flores de 17 e 24 anos, que tentavam vestibular para engenharia mecânica na UFRGS, a uns dois quarteirões do prédio, faltando poucos minutos para o fechamento dos pontos, resolveram correr para evitar um atraso. No entanto, no meio do caminho, foram detidos por três policiais, com arma em punho e perguntando para os dois rapazes aonde eles iam com tanta pressa, mesmo explicando a situação os jovens foram retidos e quando liberados os portões já estavam fechados. Detalhe, assim como Flávio, os dois estavam bem vestidos com tênis da moda, mas isso não foi suficiente para a ação dos policiais.
Em outro fato ocorrido agora com um radialista num programa transmitido na comarca de São Carlos, interior de São Paulo, ao abordar um caso de furto em que participaram 3 ladrões sendo 1 negro e 2 brancos: o radialista disse: “só podia ser preto (…), cana neles, principalmente no preto”. O radialista, desta vez não dormiu com a impunidade, foi incurso no artigo 7.716/89, e condenado com sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
O resultado é que pensamentos dessa natureza refletem por exemplo no mercado de trabalho provocando a desigualdade racial e excluindo milhares de negros (as) de possibilidade de obter ascensão social. Ao retratar o índice de desenvolvimento humano no Brasil -2005, no aspecto racial, o Brasil possui o apartheid bem delimitado. O Brasil dos brancos ocupa a 44º posição enquanto a dos negros 107º posição. As raízes desses problemas não estão na abstração ou no outro, mas em boa parte de um povo que não quer perceber suas atitudes diante dos problemas. E você, meu caro leitor, onde aplica o seu racismo?

Stânio de Sousa Vieira