O Troféu Raça Negra, promovido pela ONG Afrobras e pela Universidade Zumbi dos Palmares do empresário do ramo do empreendedorismo, José Vicente, este ano em sua 19ª. edição, é uma passarela para a exibição e ostentação de ricos e famosos e um mea culpa por um dia de brancos bem nascidos e negros com a ilusão de incluídos.

Projetado para se realizar todos os anos por ocasião do Mês da Consciência Negra em espaços caros à elite cultural paulistana como a Sala S. Paulo, tudo no prêmio é fake. A começar da estatueta imitando o Oscar, passando pelo glamour das personalidades que costumeiramente comparecem a cerimônia. O patrocínio este ano veio de bancos como o Bradesco, Santander, e empresas como Avon e Coca-Cola. Em edições passadas, o próprio Carrefour foi parceiro na empreitada.

Vestida em roupa de gala – longos esvoaçantes, fraques e gravatas borboletas – a elite negra ostenta a falsa sensação de um Brasil em que os negros estão incluídos.

Perto dali, homens e mulheres – a imensa maioria negros – chafurdam na Cracolândia e nos becos nauseabundos da Estação da Luz. Os negros famosos, incluídas algumas celebridades do mundo artístico, da política e da TV, devem olhar de soslaio dado o fato de que a cena está enquadrada no seu campo visual e, no fundo, devem entabular um imaginário e estranho diálogo consigo próprios: “Como é dura a vida… mas hoje não há tempo para exames de consciência. Vou aproveitar meus 15 minutos de fama e vou mais é fazer selfie com algum famoso ou celebridade da TV pra mostrar como eu também sou importante”.

Ao lado da sensação de alívio de não pertencer mais à realidade de homens e mulheres que chafurdam em qualquer ponto do centro degradado de S. Paulo, o discurso de homenageados escolhidos a dedo pelo promotor a partir de critérios puramente mercadológicos e ideológicos é um dos pontos altos da premiação. É o tempo de lembrar dos tempos difíceis e celebrar, ufa!!! consegui: estou aqui na sala São Paulo e tenho um Oscar nas mãos”. É fake, mas o que importa?!

Observe-se o discurso do advogado Thiago Tobias, uma espécie de porta-voz informal da Educafro/Frei David e entusiasta defensor do Acordo do Carrefour com a entidade que vem sendo denunciado, inclusive, judicialmente, como um “ato simulado” para garantir a exclusão da marca francesa de responsabilidade civil pela morte de Beto Freitas, acesso a mecanismos de renúncia fiscal, farta distribuição de bolsas – R$ 68 milhões – que beneficiarão, principalmente, escolas privadas de qualidade duvidosa, e de quebra honorários milionários para advogados – R$ 3,45 milhões já garantidos, com pedido para que se chegue a R$ 23 milhões.

É uma peça, uma pérola da submissão e da domesticação ideológica a que chegou essa nova elite negra militante, capaz de fazer corar até mesmo os integrantes da Guarda Negra formada para defender a Princesa Isabel, após a Abolição.

A certa altura, o aspirante a banqueiro da periferia, representante de uma empresa que amplia o atendimento para o pequeno comércio, eliminando vagas no mercado de trabalho e, portanto, prestando um grande serviço aos banqueiros e a burguesia financeira monopolista, depois de confessar que já varreu chão, que já levou muito puxão de orelha do mentor do prêmio e de sua mulher, dispara contrito, bem fiel ao ideólogo a quem cegamente segue e serve: “a gente sai da periferia, mas a periferia não sai da gente”.

Não poderia haver fala mais verdadeira, confissão mais explícita.  Essa gente sai da periferia, mas a periferia, não sai deles. Não por outra razão – como a periferia com seu rosário de tristezas, de exploração, de humilhações, não sai deles, embora eles já não estejam na periferia, eles a usam em proveito próprio, se associando – a qualquer um dos que mantém a miséria e a exploração nas periferias, em troca das migalhas que caem da mesa da Casa Grande. Pasmem porque este ano até o mordomo deu às caras: o ex-presidente Michel Temer foi um dos premiados.

Eis aí, sem retoques, a ideologia desse tipo do negro amigo do mercado, o negro a quem o poeta Solano Trindade se referia ao dizer num verso que “negros amigos do capital” não são meus irmãos.