Pelotas/RS – O rapper Thiago da Costa Moura, o Gagui IDV, 30 anos, é conhecido em Pelotas e em várias cidades do interior gaúcho pelo trabalho social que faz, usando o Hip Hop como instrumento de combate ao racismo e defesa da inclusão dos negros aos direitos básicos da cidadania. O trabalho social que realiza, porém, não foi suficiente para convencer os dirigentes do Partido no qual está filiado, o PSB, do seu direito a ser candidato a vereador, mesmo fazendo parte da Assessoria do deputado Catarina Paladini, o candidato a prefeito da legenda.

Segundo Gagui, foi o próprio Paladini quem o cortou da chapa para beneficiar um irmão, Vitor Paladini, que disputa uma cadeira na Câmara Municipal.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida pelo rapper à Afropress, e que teve a participação de Cláudio Rodrigues, coordenador da Frente Negra Pelotense.

Afropress – Gagui, o que aconteceu para você ser cortado da chapa de candidatos a vereador?

Gagui – Já trabalho com o deputado Catarina Paladini há mais de um ano na Assessoria dele. E recebi um convite dele para me candidatar a vereador nessas eleições de 2012. Seria eu um representante legítimo do Hip Hop pelo trabalho que executo desde 1.998. Mas como o irmão do deputado concorrerá a vereador e o Partido hoje se encontra nas mãos deles, ele decidiu cortar todas as candidaturas que ameaçariam a do irmão, todas as que tivessem reais possibilidades de atrapalhar a do irmão.

Afropress – Ainda há possibilidade de mudar isso? O deputado deu alguma explicação a você das razões do corte?

Gagui – Tivemos uma conversa com ele, onde ele colocou o peso dessa não candidatura minha ao Movimento Hip Hop, dizendo que o movimento não estava me apoiando.

Afropress – E isso é verdade, Cláudio?

Cláudio Rodrigues – O Movimento Negro de Pelotas através do coordenador de uma das entidades – a Frente Negra Pelotense -, que represento, é solidário a Gagui IDV. Mesmo tendo mais algumas lideranças na disputa para vereador pensamos no coletivo. Onde um de nós entrar, estamos representados.

Afropress – Você continua trabalhando na assessoria do deputado Gagui?

Gagui – Até o presente momento sigo. Não fui comunicado de desligado, mas pelo que venho falando, acredito que não seguirei. Tô ciente disso.

Afropress – E o Movimento Hip Hop é forte aí? Teria condições de elegê-lo?

Gagui – Com certeza. Existe desde os anos 80. Ano passado aprovamos a Lei da Semana Municipal do Hip Hop.

Afropress – Fale um pouco da sua estória de vida, da sua ligação com o movimento Hip Hop e com a luta contra o racismo.

Gagui – Atuo desde 1.998. Sou como conhecido por Gagui IDV e iniciei minha aproximação com a cultura Hip Hop a partir de 1.994, quando comecei a ouvir Rap, colecionar matérias de jornais e revistas e conhecer integrantes do movimento Hip Hop de Pelotas. Me interesso pela cultura Hip Hop, oriunda das ruas, desde os 12 anos, mas somente 1998, formei meu primeiro grupo de Rap, o Ideologia de Vida, juntamente com dois colegas de escola, PC e Jeison ZL.

O grupo começou a apresentar-se pelas festas de Rap da cidade de Pelotas, conhecendo outros grupos, tendo oportunidade de levar informação para vários lugares. No ano 2.000 o grupo terminou, seguindo assim apenas eu em carreira solo. Nesse meio tempo comecei a fazer palestras em escolas, universidades, presídios, unidades da FASE (antiga FEBEM), articulando o movimento Hip Hop de Pelotas, organizando festas, encontros e reuniões.

Em 2001, comecei um projeto pioneiro em Pelotas, um programa de Rap em uma rádio comunitária, chamado Comunidade Hip Hop, que vai ao ar até os dias de hoje, todos os sábados das 18h às 19h30. A partir desse veículo de comunicação passamos a dar visibilidade à cena local, divulgando o Hip Hop local em Pelotas e interagindo com personalidades do Hip Hop brasileiro que concederam entrevista ao programa, entre eles Afro X, Dina Di, Bad, Nitro Di, GOG, entre outros.

Também sou colunista dos sites Rap Nacional, Enraizados, Adversus e Omega Hip Hop, além de manter um blog na Internet. Participei de algumas atividades importantes da cena do Hip Hop, como palestrante do I Encontro de Hip Hop de Pelotas, que contou com a presença do rapper GOG, aniversário de 02 anos do site Adversus no Bar Opinião, em Porto Alegre, Encontros regionais e nacionais, nos Fóruns Sociais Mundial em Porto Alegre, Hip Hop versus Violência, reunião organizada pelo rapper Mano Brown do Racionais MC’s, abertura dos shows de Thaíde, Facção Central, 509-E, Da Guedes e Visão de Rua, 5ª Bienal de Arte e Cultura da UNE, no Rio de Janeiro.

Este ano recebi o Prêmio Lança de Ouro, maior premiação do Hip Hop do Rio Grande do Sul, com o melhor videoclipe de 2011, da música "A Inveja Mata". Em conversas com outros pré-candidatos que também tiveram seus nomes cortados, ficou claro que esses cortes se devem ao fato de nossas candidaturas estarem ameaçando a candidatura do Vitor Paladini, irmão do deputado Catarina Paladini, e pré-candidato a vereador pelo PSB.

Infelizmente, minha candidatura, que seria de extrema importância para a periferia, onde teríamos total comprometimento com os anseios de quem realmente precisa de políticas públicas afirmativas foi barrada pelo simples fato de ser um risco à eleição de quem hoje detém o poder dentro do Partido. Ou seja, o Partido Socialista de Pelotas esquece sua cartilha e ideologia socialista, visando apenas o favorecimento familiar.

Sabendo que irei sofrer as consequências do que estou dizendo e escrevendo ao denunciar o que aconteceu comigo, desde já agradeço todas as manifestações de solidariedade e o sentimento de frustração de não sermos representados durante mais quatro anos na Câmara de Vereadores. Mas, saio fortalecido de toda essa polêmica, pois quem me conhece sabe que sempre fui comprometido com a verdade e com o povo que sempre fiz questão de respeitar e representar.

Da Redacao