S. Paulo – Diante da repercussão negativa na mídia, e sob pressão da opinião pública alarmada com o baixo nível das piadas ofensivas a negros, mulheres, crianças e portadores de deficiência, os organizadores do show “Proibidão” de Stand-up, recuaram: na segunda edição do evento promovido na casa noturna Kitsch Club, na Vila Mariana, nesta segunda-feira (19/03) foi permitida a presença de jornalistas e o “Proibidão” ganhou uma versão light.
Na estréia, os frequentadores foram obrigados a deixar câmeras e celulares na portaria e tiveram que assinar um termo, concordando com a baixaria. Desta vez, apenas o termo foi mantido, e os jornalistas presentes puderam ver a versão “bem comportada” do show em que negros, mulheres, crianças e portadores de deficiência são transformados em alvos.
Papel conhecido
Promovido a estrela do show, com direito a encerrar a noite, Marcelo Marrom, o único negro do elenco, não por acaso, usou o seu tempo para atacar o músico negro Raphael Lopes, 24, que denunciou ter sido alvo da piada racista em que Felipe Hamachi, o comparou a um macaco.
Marrom terminou sua apresentação com chave de ouro, tornando-se cúmplice da agressão ao músico ao dizer: “Ele ficou bravo porque o pagamento era em dinheiro e não em banana”.
Por conta disso, o advogado do músico, Dojival Vieira, disse que pedirá que também seja investigado por racismo no Inquérito Policial aberto na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, com base no artigo 20 da Lei 7.716/89, por determinação da delegada Margarette Barreto.
O advogado adiantou que pedirá que seja aplicada a multa de 3 mil Unidades Fiscais do Estado (UFESP), elevada ao triplo – cerca de 160 mil reais. A multa – que também foi pedida aos responsáveis pela Kitsch Club, ao idealizador do show, Luiz França, e a Hamachi, autor da piada racista – está prevista na Lei 14.187/2010, que pune os crimes de discriminação racial na esfera administrativa.
Humor chulo
Segundo o jornalista Thiago Ney, do iG S. Paulo, o “Proibidão”, transformado em “Proibidinho” na segunda edição, “tenta fazer graça com humor chulo adolescente”.
Ney contou em sua coluna que até um falso advogado foi chamado ao palco para “orientar” o teor das piadas. Entre os cerca de 10 humoristas que se apresentaram, além de Marrom, apenas Robson Nunes, e um dos músicos da banda eram negros.
O organizador Luiz França orientou os humoristas a promoveram uma espécie de desagravo ao show de baixaria e defendeu o colega Hamachi. “O Felipe faz piada ruim há um tempão e só agora vieram pegar no pé dele?”
O objetivo do show, segundo pessoas que assistiram, foi usar os humoristas negros do elenco do “Proibidão” para atacar o músico, amenizar o impacto do primeiro show e promover uma espécie de desagravo não assumido ao autor da piada racista.
Inquérito
A delegada Margarette Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, determinou a instauração de Inquérito que vai investigar o stand-up racista e a incitação e a apologia ao crime no show “Proibidão”.
Na representação, que despachou pessoalmente com a delegada, o advogado do músico pede que além do crime de racismo sejam investigados a incitação e apologia ao crime, previstos no Código Penal, com base na definição do show feita por um dos participantes – Fábio Gueré -, segundo o qual “Proibidão, e onde “filho chora, mãe não vê e pedófilo, passa a rola”.
Um outro participante, Bruninho Mano, fez, de acordo com Raphael, a piada no mesmo nível, ao dizer que “preferia comer uma criancinha de 5 anos do que uma cadeirante porque a cadeirante não tem firmeza nas pernas”.
O Coordenador da Área de Direitos Humanos do Ministério Público de S. Paulo, Eduardo Dias de Souza Ferreira, também já recebeu a representação do músico e acompanha o caso.
Veja o vídeo – TV Record

Da Redacao