Sem argumentos para enfrentar os pontos centrais do editorial “Racialismo não é saída, é cilada” – https://www.afropress.com/post.asp?id=18693 –15/01/2016), e do artigo "O filtro do frei e o seu racialismo delirante”, assinado por mim, (11/02/2015– https://www.afropress.com/post.asp?id=18786), o articulista Alberto Castro optou pela saída mais fácil: em artigo intitulado “A virada do guerreiro” (22/02/2016) – https://www.afropress.com/post.asp?id=18807 – parte para o ataque e me acusa de ter trocado de lado.

Suas divergências, agora tornadas públicas, são bem-vindas porque, afinal, mídia comprometida com a defesa do pluralismo e o livre debate das ideias que somos, ótimo que outras vozes se coloquem com pontos de vista distintos sobre as questões de interesse da população negra e do Brasil.

O debate democrático, contudo, tem regras e a primeira delas é o respeito. Não vale o uso da desqualificação como arma. A leviana e gratuita acusação de que eu estaria “agora alinhado aos porta-vozes da Casa Grande” ou “cavaleiros do apocalipse” rompe essa regra básica: beira ao insulto e se aproxima da fronteira de difamações com que, eventualmente, sou brindado por detratores.

Não é o caso de Castro. O articulista colabora eventualmente com a Afropress, desde o ponto de vista de sua condição de angolano que vive em Londres e conhece a realidade brasileira e as peculiaridades da luta antirracista em nosso país por alguma visita eventual, ou por ouvir falar por pessoas do seu círculo de amizades.

Concedo, portanto, a ele, o benefício da dúvida. A acusação de troca de lado – o que equivale à traição – não será levada em conta, o que poderia justificar o rompimento de quaisquer vínculos tanto políticos, quanto pessoais. Não é o que desejamos.

Porém, o “rosário de verdades” que desfia com desenvoltura e o vaticínio do meu “fim inglório” e do veículo que edito, apenas porque discordo da forma como o movimento negro "chapa branca" e partidário conduz a luta antirracista no Brasil, não podem ficar sem resposta.

Vamos, então, direto aos pontos, da “acusação” de Castro.

1 – Em nenhum momento os dois artigos citados reduzem apenas “à contradição de classe os profundos problemas das desigualdades sociais e raciais no Brasil”. Essa afirmação só pode ser fruto de uma leitura desatenta, porque ninguém mais do que nós tem falado “nos efeitos perversos e nas mazelas dos quase 400 anos de escravidão no Brasil”, “elemento estruturante da desigualdade social brasileira”.

2 – Uma coisa é dizer, como faço, que como em qualquer sociedade capitalista, e mais ainda no Brasil, a contradição de classe é central, porém, o racismo e o machismo, dela são elementos estruturantes e não questões laterais, que devam ser tratadas marginalmente, como faz uma certa tradição de esquerda marxista de matriz eurocêntrica, que lê Marx como lhe convém.

3 – Não me alinho a este tipo de pensamento, nem neste nem em qualquer outro texto. Por isso só posso chegar a uma conclusão: o articulista leu o que não viu e entendeu menos ainda.

4 – Dessa falsa premissa, decorre outra não menos injusta de que eu “tenha me negado a mim mesmo e passado para o lado equivocado do argumento, ou errado da história, como diria Obama”.

5 – Primeiro, é bom que se diga que, a despeito de sua extraordinária história pessoal de superação, não tenho Barack Obama como ídolo, nem referência, apenas por ser quem é: o primeiro negro a ocupar a Casa Branca. Independente da sua ascendência africana, ele jamais deixou de exercer com zelo, o papel de chefe de um sistema imperial, promotor de guerras pelo mundo. Sua história pessoal como símbolo de superação, não pode servir para desviar a atenção do papel dos EUA como polícia do mundo, com as consequências inerentes a esse papel, inclusive, os milhares de pessoas – de todas as cores, negros, inclusive – mortos nessas guerras.

6  – Por óbvio, jamais esperei do articulista apoio “todas as minhas palavras e avaliações”. A divergência é sempre bem-vinda. Não sou dos que tem a presunção de ter consigo o monopólio da verdade. O caráter do jornalismo que fazemos é plural. É o exercício da pluralidade de posições que nos interessa e não o discurso do pensamento único, matriz de todas as concepções autoritárias. Ao contrário do que possa parecer é nisso que reside a força do veículo como formador de opinião que se mantém em caráter voluntário há mais de 10 anos e que nos tornou a mídia focada nesse tema mais longeva do Brasil.

7 – O que não se pode é confundir debate de ideias com o vale tudo do dedo no olho e dos golpes abaixo da linha de cintura, porque isso nem no MMA é permitido.

8 – Tenho em relação a abordagem de Castro e dos racialistas, no plano político e da estratégia da luta antirracista, divergências de fundo. Para o racialismo, a existência de raça no plano biológico, sociológico, cultural e político, é uma verdade única e definitiva. E, portanto, as estratégias de superação do racismo, necessáriamente, partem da idéia de que a sociedade está irremediavelmente dividida pela cor da pele – negros x não negros, que devem ficar cada um no seu quadrado.

9 – Nada mais equivocado, na minha modesta opinião. A sociedade brasileira não esta dividida assim: negros de um lado, não negros do outro. Não é como nos EUA em que uma gota de sangue negro, faz a pessoa negra, ainda que seja branca.

10 – Dou um exemplo doméstico para ilustrar: meus filhos, nos EUA, seriam negros, pois filhos de uma mulher branca. No Brasil não são. Ao mencionar isso numa mesa de debates na Flink Sampa, em 2013, a reação da consultora norte-americana Mable Yvory foi se retirar da mesa por não concordar com a observação feita por mim de que “as modalidades de racismo praticadas nos EUA e no Brasil são totalmente distintas, o que requer de nós a cautela de não mimetizar de forma mecânica e acrítica as práticas do movimento negro americano.” (https://www.afropress.com/post.asp?id=15718).

11 – Já que estamos no plano doméstico, dou outro exemplo que ilustra bem a postura do racialismo: minha atual mulher (a exemplo da viúva de Abdias do Nascimento, Elisa Larkin) é branca, com profunda consciência antirracista. Criou e mantém comigo este veículo, alvo igualmente das ameaças, inclusive, à integridade física da nossa família, por parte dos racistas e neonazistas. Isso, nunca a poupou de hostilidades abertas e ou veladas em reuniões desse “movimento negro racialista”.

12 – O articulista parece se alinhar a esse tipo de pensamento. Recomendei, à época, a deselegante miss Yvory, a leitura dos estudos do sociólogo Oracy Nogueira, ainda na década de 50, em que define as diferenças do racismo nos EUA e no Brasil. Indico ao articulista que faça o mesmo: verá que o buraco é mais embaixo. O combate ao racismo no Brasil não pode ser pautado pelas mesmas estratégias.

13 – Não há desacordo quanto “ao Brasil estar entre as sociedades capitalistas com fortes resquícios e legados escravocratas, estruturalmente racistas e onde a cor da pele, quanto mais clara ela for, ainda é um passaporte com isenção de visto para o sucesso, o que faz da questão racial outra das profundas, centrais e perversas contradições de tais sociedades, para além das questões de classe e de gênero, entre outras transversais ou específicas de qualquer sociedade”.

14 – Mas, quanto a esse ponto, em nenhum momento ou textos da Afropress nesses mais de 10 anos, isso foi negado. Tampouco reduzimos “a questão das profundas desigualdades sociorracias no Brasil apenas à abordagem marxista centrada na contradição de classes”. Não se sabe onde o articulista foi achar material para semelhante devaneio, mas uma coisa é certa: não foi nos dois artigos citados, nem em qualquer texto de nossa autoria.

15 – Contudo, não tenho nenhuma dificuldade, ao contrário, em aceitar o marxismo como método mais certeiro de análise das sociedades de classe, sem que isso implique ver o marxismo como corpo doutrinário imutável. Até os anti-marxistas, reconhecem seus méritos.

16 – E assim, tropeçando em premissas falsas, pinçando textos em editoriais retirados do contexto, Castro vai fazendo outras afirmações tão despropositadas quanto injustas de que eu estaria indo contra os meus “próprios e válidos argumentos dirimidos com justeza e firmeza no passado”. E mais: de que estaria “resgatando e validando o arquivado conto freyriano de democracia racial, usado tanto à esquerda quanto à direita para travar o imparável avanço afirmativo e inclusivo de um Brasil de todos e para todos que finalmente está nascendo”.

17 – Noves fora o otimismo que não encontra amparo na realidade, não tenho conhecimento se o articulista já leu “Casa Grande e Senzala”, porém, se o leu precisa relê-lo. O mito da democracia racial não está em Gilberto Freyre. É uma criação dos que leram e interpretaram Gilberto Freyre. Combatê-lo é como “combater moinhos de vento”. Nosso papel deveria ser exatamente o oposto: lutar para que essa democracia racial se realize nas relações sociais econômicas e políticas e nas esferas do poder e não como se dá no Brasil, em que a democracia racial é defendida pela elite – conservadora de direita e de esquerda – para manter negros apenas ocupando o espaço do simbólico.

18 – Sim, Abdias e Solano Trindade são negros ilustres que nunca abdicaram da condição de brasileiros, mas o autor omite deliberadamente que é o mesmo Solano que em notável poema “Os Negros”, diz:

Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos.

Negros senhores na América
A serviço do capital
Não são meus irmãos

Negros opressores
Em qualquer parte do mundo
Não são meus irmãos

Só os negros oprimidos
Escravizados
Em luta por liberdade
São meus irmãos

(…)

19 – Castro, por outro lado, ao se referir ao “anterior Dojival” ou “novo Dojival”, chega perto da ofensa. Desde quando uma pessoa deixa de ser ela própria apenas porque muda de opinião (se este o fôsse o caso) sobre determinado assunto ou tema? Quer dizer que toda a minha história de lutas deixou de ter validade, apenas porque ousei contrariar o manual de verdades desfiado pelo articulista? De onde vem essa presunção?

20 – Não é difícil saber. Vem do racialismo que ao dividir a sociedade em negros x não negros, se torna incapaz de estabelecer o diálogo para a superação do racismo, com outros setores da sociedade, apenas por essa única razão: não são negros. E não sendo negros – pensam toscamente os racialistas – não são capazes de entender, nem de se aliar, nem se unir a causa do combate ao racismo. O raciocínio vale também para a luta contra o machismo: não é porque sou homem, formado numa cultura machista, que não posso e nem devo me educar para combatê-lo ao lado das mulheres que dele são vítimas.

21 – O racialismo constrói muros, enquanto pessoas que pensam como eu arquitetam pontes. Muros separam a sociedade em guetos; pontes conduzem a causa comum pela superação das mazelas que estruturam a desigualdade social no Brasil. Eis nossa diferença fundamental. É conceitual, de tática e de estratégia, não de lado.

22 – Ao errar o foco, Castro acaba se entregando. Sua estratégia e projeto são reducionistas. Como veem a sociedade dividida em pretos x brancos (racistas), não conseguem enxergar que o país não se divide dessa forma. O equívoco original vai gerando equívocos em cascata, a ponto de considerarem do mesmo lado, apenas os negros que concordam. Os que não concordam com suas premissas é porque mudaram de lado. Não é afinal, trocando em miúdos, o que diz o articulista no texto a “A virada de um guerreiro”?

23 – Castro, por outro lado, pretendeu ver contradição na afirmação feita de que a nova geração de negros e negras que “o novo Dojival vê como formada em um “racialismo tosco e não forjada na árdua e longa batalha pela afirmação identitária resgatadora de suas ancestralidades históricas e culturais, que em nada a aparta de sua condição de brasileira como identidade inquestionavelmente maior”.

24 – Conhecesse um pouco mais a história do Brasil, lembraria que nenhum negro no Brasil tem ancestralidade apenas africana: somos uma mistura, meu caro. E qualquer de nós, tanto poderia se identificar com o nosso passado africano, quanto com o nosso passado ameríndio, uma vez que todos temos nas veias o sangue das mais de mil nações indígenas dos estimadamente 6 milhões, hoje reduzidos a 700 mil, vítimas e alvos de um genocídio continuado desde a chegada de Cabral por aqui.

25 – Provavelmente, apenas umas poucas colônias alemãs no sul, criadas no processo de imigração e branqueamento fujam a essa regra. E, portanto, sua visão romântica do negro que tem apenas herança genética e cultural africana, no Brasil, é apenas isso: uma visão romântica que não encontra respaldo nem na biologia, nem na história.

26 – Conhecesse a história da resistência negra no Brasil, o articulista saberia que a verdadeira batalha identitária aconteceu entre as décadas de 20 e 30, logo após a abolição, quanto a elite racista e positivista pretendeu, inclusive, por meio do recurso à legislação, branquear o Brasil.

27 – Quase 100 anos, depois quando as políticas de branqueamento fracassaram e o país emerge (Censo de 2010), como majoritáriamente preto e pardo, falar em identidade negra como um particularismo, ou é fruto de desconhecimento da história ou da confusão política e ideológica que faz com que esse movimento negro "chapa branca" e refém dos partidos, mimetize atos, ações e iniciativas (quase todas bancadas pela Fundação Ford), do movimento negro norte-americano, onde negros representam a minúscula parcela de apenas 13% da população. Não falo de má fé, nem desonestidade intelectual do articulista. É, talvez, por desconhecimento mesmo.

28 – Em relação a defesa de Frei David, da Educafro, com toda a certeza, Castro não conhece o personagem e, portanto, não deveria ver agressividade em um artigo em que chamo de racialismo delirante a ideia (sim, absolutamente delirante, repito, com aspas) do frade em alterar a Lei das Cotas, para se estabelecer comissões (a mídia conservadora chama de tribunais), que digam quem é quem não é negro.

29 – Sou negro por opção e não por imposição, caro Castro. Não concedo a ninguém, nem ao Estado, nem a Igreja – frade, bispo, cardeal ou ao Papa – o direito de me definir, nem declarar minha identidade. Sou eu que a defino, e mais ninguém.

30 – Mais uma vez, o articulista demonstra ignorância quanto a realidade brasileira, quando contesta a afirmação feita no artigo de que as políticas de branqueamento dos séculos XIX e XX, fracassaram. Tanto isso é verdade que 50,7% da população brasileira declara-se preta e parda, de acordo com o Censo do IBGE 2010.

31 – Recomendo que reveja os dados, ao invés de sacar conclusões apressadas. O fato e a evidência da maior presença de brancos nas instâncias citadas, nada tem a ver com o sucesso das políticas de branqueamento como sugere, mas, ao fato dos herdeiros da Casa Grande terem se apropriado de todos os espaços, já sob a República construída sob os escombros do escravismo.

32 – Não há nenhum novo posicionamento como insiste o articulista, mais uma vez, buscando dar sentido as palavras. Sim, considero “estúpida e nefasta” a ideia de que o país se divida em negros x não negros a partir de indicadores socioeconômicos que colocam o primeiro grupo em desvantagem. Trata-se de “reducionismo de botequim”, meu caro articulista, que tem profundas consequências e causa profundo prejuízo na luta contra o racismo no Brasil, na medida em que reduz tudo a uma disputa negros x brancos, e projeta muros e não pontes. Por exemplo, nos transforma de maioria que somos, em uma minoria simbólica; nos retira a condição de protagonistas da luta pela nossa verdadeira libertação econômica, política e social, no quadro de uma sociedade capitalista e de classes para nos tornar objetos simbólicos, minoria, adereços de mão do sistema.

33 – Para isso, não há necessidade de ser marxista, basta apenas que não se tenha escama nos olhos para enxergar a realidade.

34 – O caso Januário Santana (http://noticias.r7.com/sp-no-ar/videos/policia-faz-reconstituicao-de-crime-de-tortura-e-racismo-em-supermercado-de-osasco-sp-21102015) de quem sou advogado de defesa e assistente de acusação nos tribunais, torturado em um supermercado por seguranças por estar na condição de suspeito padrão (negro na direção de um EcoSport), não deve levá-lo a conclusões apressadas. A condição de suspeito padrão, meu caro, não obedece, no Brasil, a mesma lógica do racismo por segregação norte-americano.

35 – Aliás, o articulista cita o caso Januário, mas não se questiona sobre o silêncio estarrecedor das “entidades” do movimento negro chapa branca, incluídas aí, as Ongs financiadas pela Fundação Ford, ocupantes dos "puxadinhos" no Governo Federal como a ex-Seppir, na absolvição dos seus algozes pela 2ª Vara Criminal de Osasco (https://www.afropress.com/post.asp?id=17924). Não houve uma nota sequer de protesto, uma única e solitária manifestação para denunciar o absurdo da absolvição dos algozes. Por que será, meu caro? Não lhe ocorre ter sido esse silêncio deliberado para não dar maior visibilidade ao caso arquitetado pelos cânones desse movimento negro racialista, em especial, dos donos e das donas (sim, porque as há, e são conhecidas) com atuação majoritária em S. Paulo e no Rio? Ou terá sido por distração ou esquecimento? Pense nisso, antes de conclusões apressadas.

36 – O articulista vai a Marx para dizer que “não estudou em profundidade as sociedades escravocratas e coloniais e o contexto do capitalismo industrial por ele teorizado já não é o mesmo. E, tal como os grandes vultos de referência nas ciências sociais e humanas, anteriores e posteriores ao seu tempo, Marx não foi exceção na forma como olhava os negros e a sua escravidão. Só para citar alguns exemplos, os grandes filósofos Kant, Hegel, Locke, o pensador política Alexis de Tocqueville, o sociólogo Max Weber, o historiador Oliveira Martins e o aclamado poeta Fernando Pessoa, todos tinham uma visão profundamente eurocêntrica e racista do mundo. Até Gandhi, o grande pacifista do século XX, ele mesmo vítima do racismo inglês, não escapou àquela linha de pensamento no seu olhar sobre os africanos”

37 – Para em seguida me colocar na galeria de autores citados, o que é uma injustiça, já que dessa “honraria” não sou merecedor, citando o editorial “'Os contras, os a favor e os "genéricos" (09/12/2007) e pinçando o seguinte: ''Alguns chegam a invocar Marx para embrulhar, com palavras nobres, a fraude de que a questão racial no Brasil se resuma a uma questão de classe''.  

38 – Também aqui, não há contradição entre o dito antes e o dito agora. Sim, meu caro Castro, temos no Brasil, uma esquerda formada nos quadros da pequena burguesia urbana (para usar um conceito marxista), que históricamente ignorou o peso dos quase 400 anos de escravidão. Autores como Florestan Fernandes, por exemplo, advogavam a ideia de que a superação das mazelas do escravismo, ocorreriam naturalmente no quadro de transformações profundas no capitalismo e na mudança do modo de produção.

39 – Não é a esse tipo de ideia que me filio. Os partidos no Brasil, inclusive, o PT, Partido ao qual estive ligado desde a fundação até 1991, se constituíram nessa toada, o que representa um equívoco que a história demonstra. Por isso, aqui os partidos – da esquerda à direita – reproduzem o racismo institucional; neles, os espaços reservados aos negros continuam a ser os “puxadinhos”, nos quais tem como papel o de símbolos de uma inclusão que nunca acontece.

40 – Acerta o articulista quando diz: “Não se trata de substituir uma questão central por outra, como agora contra-argumenta, no sentido de justificar o ressurgimento do fantasma do racialismo, desta feita com predomínio negro. Esse é um exercício que não faz sentido nenhum em uma sociedade tão miscigenada e já em si hierarquicamente racializada como a brasileira, onde o branca é a cor de todos os poderes. Trata-se sim de colocar, igualmente como central, um problema profundamente enraizado em sociedades pós-escravocratas onde impera a pigmentocracia, ou colorismo, conceito agora usado por novos autores para explicar a discriminação pela cor da pele e não necessariamente pela raça, como é o caso do racismo, sua raiz. Sociedades pós-escravocratas, particularmente as das Américas, são, para além de racistas, profundamente negrofóbicas, ou pretofóbicas, acentuando mais a tonalidade epidérmica do que na origem étnico-racial da pessoa como a variável determinante do preconceito, ou seja, a pessoa está sujeita a um maior índice de preconceito e discriminação quanto mais escura for a sua pele”.

41 – Há total acordo com relação as afirmações. O desacordo começa, quando a partir dessa constatação, o articulista pretende que a cor da pele seja a base de um programa de transformações e mudanças.

42 – Bem como igualmente sem propósito a citação de editorial intitulado ''Batalha pelo Estatuto pode barrar o neo-racismo'' (https://www.afropress.com/post.asp?id=13710 – 07/06/2007) onde é dito: ''Quem inventou a ideia de que os seres humanos são divididos em raças,  nós, os negros''. ''Ressuscitam o discurso da raça, racializando o debate, mas, para negar sua existência. Seu objetivo é evidente: justificar o descompromisso da sociedade e do Estado com as consequências do escravismo e do racismo contemporâneo, que explicam e expõem a desvantagem da população negra em todos os setores de atividade." Não há nenhuma contradição entre o afirmado e o agora dito, ainda que retirado totalmente de contexto.

43 – Mais adiante o articulista acrescenta: “O discurso de que ''somos todos raça humana'', se é verdade no domínio científico da biologia, definitivamente não o é no domínio sociológico onde o conceito de raça funciona como categoria social. Nesta esfera não se pode falar de racismo sem raças. É outro discurso enganador porque nem sempre é fiel ao principio biológico que nele se apoia e serve muitas vezes de carta em branco para continuação e perpetuação de políticas racistas excludentes, como antes reconhecia”.

44 – Aqui o articulista se assume como um racialista e busca negar essa condição, sem sucesso. A constatação de que pertencemos a apenas uma raça – a humana – só pode existir no domínio científico da biologia. Claro que raças existem como categorias sociológicas, assim como o racismo é uma construção histórica e social. Mas, eu posso – como faço – lutar contra o racismo, sem cristalizar a existência das raças no terreno da biologia (onde a ciência já disse não existem), na sociologia e na cultura, onde devemos avançar para a superação dos muros que nos separam.

45 – Nossa luta não deve nos levar ao equívoco de considerar que a nossa meta, o nosso objetivo é a nossa identidade com ser africano. Penso o contrário: devemos buscar a realização do nosso projeto de humanidade, independente da cor da pele, não acha, caro articulista? Quem disse que ser africano, ser negro, branco, indígena ou japonês é, necessariamente, padrão de virtude? Quais são as bases dessa presunção?

46 – “Negros senhores da América/a serviço do capital/não são meus irmãos. Negros opressores/em qualquer parte do mundo/não são meus irmãos”, alerta Solano no poema citado. Mas, isso parece não ser de interesse do articulista.

47 – Não somos padrões de virtude porque descendemos de negros escravizados com a colaboração, como a história demonstra, de seus irmãos, potentados africanos, por quem eram primeiro aprisionados e vendidos ao colonizador europeu, sem que com isso se retire a responsabilidade do processo de colonização levada a efeito em escala industrial pelos europeus, a partir dos séculos XV e XVI com a descoberta das Américas.

48 – Quanto a estar cansado da guerra, de heroísmos, Castro comete mais um equívoco; este, faço o desconto, por desconhecimento da minha história como lutador social. Como humanos, todos nos cansamos, não é mesmo? Mas, aos 60 anos, que espero completar em julho, não temo o vaticínio do articulista: um “fim inglório”, “o princípio do fim de uma trincheira midiática por ele criada e defendida com valentia merecedora de solidariedade e adminiração para além das fronteiras do Brasil” – a Afropress.

49 – Sua profecia e temor não se confirmarão e por razões que sintetizo: 1 – para um guerreiro não há fim inglório, quando a causa pelo qual luta é gloriosa, como é o meu caso; nós todos passamos, mas a causa não tem fim e seguirá em outras mãos depois de nós; 2 – quanto ao princípio do fim de uma trincheira midiática como a Afropress, lamento informar que se trata exatamente do oposto: nem a Afropress, nem o seu editor temem o debate livre das ideias; ao contrário, o veículo se fortalece com ele porque rejeita o pensamento único e considera que, sendo seres humanos, em primeiro lugar, únicos, diversas são as nossas posições sobre os temas em debate, o que pode até significar mudança de posição (que está longe de ser o caso) mas nunca de lado.

50 – Após 10 anos desse combate que você chamou de solitário, não temo o fim dessa trincheira. Quando eu passar, outros seguirão. Afinal, se nem os racistas e neonazistas mais raivosos, que nos atacaram ao longo desses 10 anos, muitas vezes ameaçando a nossa integridade física (no que contamos, verdade seja dita, sempre com a sua solidariedade) conseguiram, porque deveríamos temer a reação racialista dos que se sentem donos de um movimento e de uma causa a  ponto de negar o direito à opinião a quem discorda de suas certezas, sem contar acusações de terem mudado de lado, cilada a que o próprio articulista açodadamente cai?

51 – Castro, e quem mais pensa como nosso articulista, deveriam entender que um lutador social que nunca abdicou da utopia, nem abandonou a crença de que a história da humanidade é a história da luta de classes e da revolução, não se pauta pelo aplauso fácil, nem pelas dificuldades intrínsecas a quem sempre seguiu em frente na adversidade.

52 – Se há o heroísmo a que se refere é esse: seguir em frente. No nosso caso nem é demonstração de heroísmo: é, por opção e não por desespero, a única alternativa que nos resta.

 

Dojival Vieira