A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial não é a realização de um sonho nem o ápice de uma luta renhida do Movimento Negro. A começar pelo nome, a Seppir desde o início teve muita dificuldade – e na verdade ainda tem – de demonstrar exatamente a que veio. A sensação de que o governo estava loteando a Seppir com os paulistas e a Fundação Palmares com os baianos sempre esteve presente nos corações e mentes daqueles e daquelas que não são de nenhum dos dois estados citados nem estão diretamente envolvidos nas discussões internas do Partido dos Trabalhadores.
Em verdade, a impressão, quando da criação da Seppir, era de que era muito mais uma satisfação para o público interno (negros e negras em sua maioria históricos e valorosos militantes dentro do PT), do que a real e total compreensão, por parte dos políticos petistas que assumiam o poder naquele momento, de que a questão étnico-racial deveria ter o tratamento de destaque que lhe é devido.
Ao cair na mesmice de dialogar com poucos, privilegiar um ou outro setor, não expandir o raio de ação, encapsular-se nos gabinetes e não promover uma ação de fortalecimento das entidades do próprio MN a Seppir, de certo modo, ajudou a cavar a própria cova onde agora encontra-se na beirada, próxima de ser enterrada para sempre nos escuros e sombrios subterrâneos da história.
O Movimento Negro está se mobilizando para aquele que será, talvez, um dos momentos mais importantes de sua história recente: a realização do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil. Organizações Nacionais, militantes históricos, parlamentares, acadêmicos, artistas entra tantos e tantas estão canalizando suas energias e reflexões para este momento. Será um momento único em que o MN não discutirá a questão étnico-racial no país mas sim que projeto político deve ser construído no Brasil para lidar dignamente com a problemática da população negra brasileira.
O que está posto, e isto é subjacente tanto a esta discussão, quanto à própria temática do Congresso Nacional de Negras e Negros Brasileiros é que há um esgotamente real e visível
entre as relações estabelecidas pelo MN com os partidos políticos, notadamente os de esquerda. Fato é que a esquerda brasileira nunca entendeu a temática étnico-racial como estratégica e, por seu turno, os setores do MN que inseriram-se nas máquinas partidárias acabaram sucumbindo a outras agendas que não, necessariamente as do MN. Ou seja, o modelo faliu! Está agonizando e pedindo arrego em praça pública.
Esta é a questão de fundo. E isso terão que entender quem está na máquina político-partidária e quem está na máquina governamental, seja ela de que esfera for: federal, estadual ou municipal. O modelo não dá mais conta. O momento do embate real entre as forças conservadoras que admitem o racismo mas não as estratégias de combate às suas estruturas e setores do MN que propõem uma revolução pelo viés étnico-racial está chegando ao seu ápice. Não dá mais prá brincar de construir ações, as ações já precisam ser executadas e não ainda construídas.
Neste contexto, falar em extinguir a Seppir, cogitar o nome de Marta Suplicy para assumir um ministério que trate de temas relacionados à temática étnico-racial não é só uma questão de extremo mau-gosto como beira o acinte.
Portanto, um posicionamento dos setores do MN neste momento é essencial. Não cabe aqui discutir se a Seppir cumpre ou não seu papel. Cabe dizer que sua extinção é retrocesso, que seu fim é colocar mais uma vez a questão étnico-racial em posição subalterna e invisível dentro da máquina do governo.

Márcio Alexandre Martins Gualberto