Recife da lama, do rio da lama teu filho chorou. A lama ainda enterra teu sonho, indo com ele a esperança de um dia melhor?

A esperança nos mangues do Recife ainda é alimentada por seu habitante mais imponente, o caranguejo. É no mangue que mulheres e homens que tiram seu sustento, em consequência disso, vivem em contato direto com uma lama extremamente poluída. Essa lama, se faz como segunda pele, cria cor; negra – como a maioria de seus habitantes. Negra, é a cor do mangue, negra também é a cor da pele de quem vive no mangue e dele, para sobreviver.

E o caranguejo tem cor? Talvez ele só alimente a esperança desses negros e negras, com sonhos enterrados na lama e nada mais.

Porém, quem vive na lama é de carne e não de lama! Mas parece se confundir com ela, de forma que, se camufla, se faz invisível para os olhos daqueles que não os querem ver. 

Quem sabe um dia essa "carne" coberta de lama se rebele e crie força a clamar por justiça. Justiça que não é de lama; é de ser humano.

O mangue é abrigo para os marginalizados que fazem da pesca um ofício para sobreviver, não possuem endereço e muitas vezes vivem sem sonhos. Eles sobrevivem de acordo com o relógio da maré e lutam contra ela diariamente.

Em um trecho de entrevista com Edivaldo de Carvalho, mais conhecido como Mor, morador das palafitas da comunidade do Bode, Pina. Ele afirma, com o seu português marcado pela falta de escolarização, o seguinte:

"Nós num tem nada,

Nós vive de nada,

Nós vive na lama

E do mangue pra sobreviver".

Segundo o líder comunitário, Alexandre Presença, há uma necessidade urgente de habitação e assistência social digna para as famílias que habitam nas áreas de mangue. "Esperamos que os governantes façam algo para melhorar as condições dos que aqui vivem, pois o sofrimento dessas famílias é constante", afirma Presença. 

Foi nesse ambiente hostil que Josué de Castro se inspirou para escrever algumas de suas obras. Deu voz a população que habitava as palafitas nas décadas de 40 no Recife. Afirmou que a fome é produto do homem. Justamente com ele, Chico Science levantou a questão da pobreza vivida pelas populações de mangue. Chico então criou o movimento Mangue Beat, chamando a atenção para a desigualdade e pobreza presente nos mangues do Recife. 

Hoje, Recife cresce a passos largos, mas é ainda cercado por palafitas que abrigam os invisíveis do mangue. Já não temos Josué e Chico para falar por esses ribeirinhos, mas que fique claro que o caos do mangue ainda mora lá. 

Crédito da foto: Rainer Knappe

Nota da Redação

Natália é mestranda em Desenvolvimento Internacional e Educação pela Universidade de Londres, professora de História formada pela Fundação de Ensino Superior de Olinda. Escritora, produtora cultural, bailarina popular e funcionária pública em Londres. Ativista das causas sociais pela Comissão de Cidadania do Reino Unido e uma entusiasta da Cultura Popular Pernambucana.

 

Natália de Santana Revi