Sou de opinião que não. O velho e conhecido racismo continua igual, firme e forte, presente em todas as dimensões das relações sociais e fazendo suas vítimas, como sempre. Contudo, podemos perceber que algo mudou ou está mudando em nosso país no que diz respeito às denúncias contra manifestações racistas. Acredito existirem três principais razões que favorecem o aumento das denúncias, como temos assistido.
A primeira tem a ver com a economia. A entrada de milhões de pessoas na classe média, resultado dos programas sociais e do crescimento econômico iniciados na primeira gestão do presidente Lula elevou uma quantidade enorme de famílias negras à condição de consumidores.
Existem cada vez vemos mais negros em shopping centers, viajando de avião, frequentando cursos superiores, alimentando-se em restaurantes caros, indo a teatros e cinemas. Mais e mais homens e mulheres negras ocupam espaços até então restritos a brancos.
A “invasão” desses espaços, tidos como símbolos da distinção de classe/raça causa enorme desconforto na tradicional classe média branca, que por não poder mais ostentar esses privilégios se sente ameaçada, pois o acesso aos bens de consumo que julgava direito só seu começa a ser democratizado.
Assim, cada vez com mais freqüência pessoas desse grupo social têm verbalizado convicções racistas que não tornavam publicas quando os negros “estavam no seu lugar”.
A segunda razão é a consciência racial, que aos poucos tem sido despertada entre a população, resultado da luta histórica do movimento negro, determinando elevação da auto estima, valorização da cultura ancestral e a busca de direitos.
O resultado do último senso, em que 52% da população brasileira se auto declara negra é exemplo dessa tomada de consciência, que se materializa na não aceitação de racismo e discriminação, consequentemente no aumento das denúncias.
Por fim, podemos creditar à lenta, porém firme, democratização dos meios de comunicação o aumento da veiculação de denúncias de racismo no Brasil. Hoje, a grande mídia já não detêm o monopólio da informação.
Sites com o da Afropress, blogs, facebook, twiter e outras redes sociais de alcance mundial disseminam informações relevantes que, via de regra, eram ignoradas pelos conglomerados de comunicação.
Apesar de ainda possuírem muito poder, as oito famílias que dominam 90% da imprensa escrita, falada e televisionada do país, que sempre escamotearam e esconderam as denúncias de racismo, já não podem mais impedir que elas circulem e acabam, elas mesmas, obrigadas a repercutir o que as redes sociais destacam.
Portanto, que se multipliquem as denúncias de discriminação racial, e que consigamos levar aos tribunais os criminosos que ainda insistem em hierarquizar os seres humanos baseados na cor da pele.

Ramatis Jacino