Sendo assim, não é possível continuar existindo desinteresse – por parte dos poderes públicos e de boa parcela da sociedade – para com os anseios e as necessidades dos nossos idosos negros, como se essa gente não fizesse parte da família nacional.
Provavelmente, o primeiro desafio, consiste na superação do racismo e do preconceito que incidem, sim, sobre os brasileiros negros com idade igual ou superior a sessenta anos. Contudo, para se superar esse desafio inaugural, há de se entender que tanto e quanto os negros não idosos, os idosos negros, também merecem atenção e respeito. Isso significa que poderia e deveria existir preocupação para com aqueles que a despeito da idade avança e da baixa escolaridade continuam disputando mercado de trabalho, para com a violência física e emocional sofrida por eles, para com o abandono em que muitos deles se encontram, para com o estado de miserabilidade em que muitos deles vivem. Deveria, ainda, existir uma cruzada para combater veementemente os estereótipos de idoso negro ainda hoje veiculado pela mídia, além de um coro de vozes afinadíssimas para apregoar bem alto a imensa e diversificada produção literária, artística e científica produzida, sim, por esse público específico.
Mas os desafios não param por ai: vão além, muito além. Estudos revelam que o novo comportamento dos idosos brasileiros – por exemplo, participação nos centros de convivência e ingresso nas universidades abertas para a terceira idade – permitiu ao público idoso desempenhar novos papéis no mundo atual, tais como: ser um ator político com mais participação nas decisões da sociedade, além de consumidor ativo. Porém, os mesmos estudos não revelam se dentre esses idosos que atualmente freqüentam centros de convivência e universidades abertas para a terceira idade encontram-se, também, os idosos negros. E outros estudos asseguram, ainda, que atualmente uma pessoa de 70 anos de idade tem bem mais vitalidade do que uma pessoa de 50 anos há três ou quatro décadas. E essas mudanças ocorreram, dizem os estudiosos, sobretudo em razão dos avanços da medicina e da popularização da gerontologia. Todavia, as fontes não esclarecem se a vitalidade mencionada incide também sobre os idosos negros. Talvez sim, talvez não. Mas considerando que nem todo idoso negro tem acesso aos avanços da medicina e, menos ainda, às praticas reunidas na gerontologia, é muito provável que os nossos parentes e amigos idosos negros não façam parte do público contemplado nos estudos mencionados. E se não fazem parte, porquê será?
Sim, tem faltado sensibilidade aos poderes públicos, à sociedade – e, inclusive, a nós, os negros não idosos – para perceber a vulnerabilidade dos nossos idosos negros, vulnerabilidade essa que somada ao racismo e ao preconceito, resulta na invisibilidade quase que absoluta dos cidadãos negros com idade igual ou superior a sessenta anos. E tudo isso combinado, claro, credencia o nosso pessoal mais velho a disputar o primeiro lugar no pódio dos excluídos deste país.
Porém, não obstante a gravidade da situação é possível reverter o quadro, desde que haja somatória de forças. É que neste ano em que se completa 120 anos da Abolição da Escravidão negra no Brasil – momento em que refletimos mais do que nunca a respeito dos desdobramentos daquela atitude oficial – parece imprescindível incluir na pauta das discussões a situação em que se encontram muitos dos idosos negros deste país. A justificativa para essa inclusão não é outra senão a de que tanto e quanto as crianças, as mulheres, os jovens e os adultos negros, os idosos negros, também são vítimas da denominada abolição inacabada.
Assim, a inclusão do tema na agenda negra nacional é algo necessário e urgente não só por tudo isso, mas também pelo que disse o ex-secretário das Nações Unidas – Kofi Anan – durante a Assembléia Geral sobre o Envelhecimento Humano, ocorrida no ano de 2002, em Madri-Espanha: “precisamos reconhecer que as pessoas idosas são únicas, com necessidades, talentos e capacidades individuais, e não um grupo homogêneo por causa da idade”. E embora o ex-secretário não tivesse se referido especificamente aos idosos negros, não creio, que ele não estivesse pensando em si próprio e nos seus iguais.
Sim, proponho e acredito na superação desse primeiro desafio não só em razão da necessidade, mas também por acreditar que transformações positivas ocorrem graças ao conhecimento adquirido nas diferentes áreas do saber além, naturalmente, da ajuda valiosa do sadio e sólido idealismo.
O título original do artigo é “Breve Reflexão a Respeito dos Idosos Negros Brasileiros”.

Sônia Ribeiro