Introdução
A muito vem se discutindo o poder que a televisão tem na massificação de idéias e opiniões. Na atualidade os meios de comunicação, e a televisão, em especial, se tornaram o quarto poder seguido pelo Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Não se pode negar que a televisão hoje onipresente, forma as consciências, sobretudo em um país como o nosso onde a instituição escolar é fraca e as pessoas na maioria das vezes passam boa parte de seu tempo livre enfrente a mesma.
Nas sociedades contemporâneas, encontramos a demanda informativa e televisiva gerada pela necessidade dos sujeitos ou espectadores em saber sobre o mundo, estimulada pelo discurso social e pela expansão dos meios de comunicação. No Brasil encontramos uma Holding, a Globopar, que controla uma extensa rede de comunicações no país, possuindo uma emissora de televisão, a Rede Globo, que domina a audiência por aqui. Dessa forma, a abrangência de recepção de imagens e idéias veiculadas por uma única rede televisiva possibilita que o discurso televisivo no Brasil exerça sobre o telespectador um efeito de homogeneização, ao disseminar discursos doadores de um único sentido, nos afirma Ramos em Brasil, Mídia, Futuro e Futuro da Política.
A televisão exerce uma enorme influência sobre a formação da mentalidade e da identidade dos telespectadores como já dito, no entanto este meio de comunicação esta longe de exercer o papel educativo que se poderia esperar dele exceto entre os cidadãos melhor formados, que fazem um uso seletivo. Na Europa e nos Estados Unidos profissionais da área vem desenvolvendo teses e teorias em um novo segmento de estudo da Comunicação Social conhecido como Educação Midiática. Estes estudos têm como objetivo chamar a atenção dos profissionais envolvidos com os meios de comunicação de massa, para a possibilidade de trazer um caráter mais educacional e humanitário em seu conteúdo a fim de formar cidadãos que consigam problematizar as informações que são transmitidas através das grandes mídias, sobretudo da televisão, invertendo assim essa lógica do telespectador passivo.
Porém, a televisão tem como mérito à imensa virtude de unificar o território veiculando a mesma língua, a mesma mensagem e as mesmas imagens sobre o espaço nacional. Entretanto ela tem o defeito de impor aos mais vulneráveis e com certa freqüência nas horas de maior audiência, notícias e opiniões que são convenientes para uma pequena parcela da população e seus interesses.
Nas condições atuais é necessário reconhecer que na falta de organização da opinião publica, existe uma ditadura sobre as mentalidades ou o imaginário dos telespectadores. Há um grupo de pessoas com os mesmos interesses que controlam as grandes redes de televisão e outras mídias.
Ao interpretar o mundo oferecendo ao telespectador informações acompanhadas de um excesso de significações, o discurso televisivo antecipa a interpretação que esse referido telespectador virá a fazer sobre essas informações influenciando na sua elaboração sobre a realidade. O fato de que esse discurso interpreta situações que, em sua grande maioria, dificilmente poderão ser experienciadas pelo telespectador, contribui para a absorção dos sentidos disseminados. Amparado pelo poder conferido à televisão pelo espectador, esse contexto facilita a aceitação dos valores oferecidos pelo discurso midiático, produzindo um efeito de homogeneização nos discursos e na subjetividade. Existe também uma relação entre a subjetividade e a experiência virtual, relação essa que não é linear, nem se expressa por um único referencial no plano do psiquismo, porem minha intenção nesse texto é a de problematizar a relação entre a constituição subjetiva e a percepção do real, gerada pela especificidade da experiência virtual televisiva na significação da realidade. O que nos interessa refletir acerca desse processo é a ordem simbólica, a representação e a interpretação elaborada pelo sujeito social ou telespectador.
Entretanto, o fato é que a televisão veicula tanto imagens quanto discursos construídos acerca de uma situação, que naturalmente vem acompanhada pela verdade das imagens, dificultando a possibilidade de construção de outros enunciados sobre ela. A televisão ainda em virtude de sua abrangência e do fato de trabalhar com o som e a imagem associados, vem resolver a demanda pela informação e pelo contato com o outro, realizando dessa forma a mediação entre o espaço publico e o privado ou entre o mundo e o telespectador. A televisão colabora com a reorganização do homem com o espaço. Em termos cognitivos, é mais fácil apreender novas informações e conteúdos através da televisão, do que através da leitura, assistir televisão demanda menos esforço.
A descrição do capitulo da telenovela em questão: Um exemplo do Preconceito de Classe e de Etnia na cultura brasileira
Em meados de dezembro de 2007 foi ao ar mais um capitulo desta novela, porem neste capitulo num determinado momento, o personagem de um senhor favelado que ganha a vida vendendo cervejas como ambulante na praia, em meio a uma confusão com sua esposa e sua “assistente” deixou sua carteira de lado para tentar por fim a discussão das duas personagens citadas. Quando os ânimos já estavam ficando calmos e a porção de pessoas que assistia ao “barraco” estava aos poucos indo embora, surge um adolescente negro por volta de uns doze anos de idade e aproveitando da situação pega a carteira do vendedor ambulante e sai correndo. Esse senhor então começa a gritar “pega ladrão, pega o negrinho ladrão”, o adolescente sai correndo e foge carregando a carteira com todo o dinheiro de seu expediente de trabalho. Esse senhor desolado em seguida vai ao encontra de sua esposa e de sua assistente e segue dizendo “puxa vocês duas estão loucas, eu trabalho nesta praia há muitos anos e vocês duas resolvem vir aqui para denegrirem a minha imagem”. Após alguns instantes no mesmo capitulo agora em outro núcleo de personagens da novela, um renomado e prestigioso advogado pai de uma jovem rica branca que esta namorando um negro pobre favelado, namoro esse que o mesmo não tolera devido à classe social e a etnia do referido namorado, na festa da posse do novo reitor de uma Universidade é apresentado a uma mulher negra que tem o titulo de condessa italiana, embora brasileira, a trata com toda pompa e circunstancia como as que permeiam as relações aristocráticas. Sobre esses dois momentos é que me proponho a fazer uma reflexão.
No primeiro momento, houve o uso do termo denegrir, palavra essa com um sentido extremamente pejorativo e infeliz, que dentro de uma proposta de discussão sobre as relações étnico raciais acaba tendo um impacto no mínimo desastroso, alem também de reforçar o estigma do negro pobre favelado que costuma rondar as praias cariocas em busca de suas próximas vitimas.
No segundo momento, no caso da forma hipócrita de comportamento do tal pai da jovem branca rica com relação à condessa negra italiana, cito o saudoso Oracy Nogueira que em Tanto Preto quanto Branco: Estudos de Relações Raciais – livro este que nos trouxe uma importante contribuição para os estudos das relações étnico raciais no Brasil e no mundo, sobretudo em seu caráter sociológico – conceitua as formas de preconceito como duas, são elas: preconceito de marca – determinada por uma preterição ou seja, uma pessoa negra pode contrabalançar a desvantagem de sua etnia por alguma superioridade inegável seja ela intelectual, financeira, educacional ou profissional; ou preconceito de origem – que denota uma exclusão incondicional das pessoas negras, não importando qual sua condição econômica, intelectual ou profissional, negro é sempre negro. No caso da referida sena protagonizada entre o advogado e a condessa, ficou evidente qual é a forma de preconceito recorrente em nosso país, o preconceito de marca. O preconceito de origem é muito comum nos Estados Unidos.
Ainda segundo Oracy Nogueira, a definição de preconceito racial – é a de uma atitude desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, membros estes estigmatizados devido a sua aparência ou ascendência étnica.
O preconceito acaba quase sempre atrelado ao racismo. O racismo ao longo da historia foi utilizado para justificar a escravidão ou o domínio de determinados povos por outros. Racismo é a convicção de que existe uma relação entre as características físicas hereditárias, como a cor da pele, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais. A base mal definida do racismo é o conceito de raça pura aplicada aos homens, não se trata de uma teoria cientifica, mas de um conjunto de opiniões, alem de tudo pouco coerentes, cujo principal função é alcançar a valorização, generalizada e definida, de diferenças biológicas entre os homens, reais ou imaginários.
O racismo ainda subentende ou afirma claramente que existem raças puras, que estes são superiores às demais e que tal superioridade autoriza uma hegemonia política e histórica, pontos de vista contra os quais se levantam objeções consideráveis. A principio, quase todos os grupos humanos atuais são produto de mestiçagens. A constante evolução da espécie humana e o caráter sempre provisório de tais grupos tornam ilusórias qualquer definição fundada em dados étnico estáveis.
O discurso televisivo nesse caso assume o lugar de porta-voz do telespectador, ao oferecer-lhe a narrativa cultural e social produzida por segmentos da sociedade como sendo seu próprio discurso. Podemos entender a influência da televisão nesse contexto pensando no trabalho relativo a instituição do espaço imaginário e na mediatização da esfera pública, pois, na atualidade encontramos o espaço público mediatizado.
A telenovela realiza exemplarmente a operação de explicação dos códigos de valores e de comportamentos associados ao íntimo e ao familiar, aliando-os a dimensão temporal. Esse programa televisivo transforma o pessoal e familiar em público, expondo relações familiares e afetivas em uma verdadeira operação de publicização do privado. A telenovela ainda condiciona a população, criando um publico – aqui no sentido de telespectador – adaptado a essa transformação, ou seja, apto a encarar naturalmente o deslocamento de aspectos e conteúdos do domínio pessoal e íntimo para o domínio coletivo.
Conclusão: O conteúdo veiculado na televisão e o impacto na formação da mentalidade e na identidade das massas
A mídia, particularmente o discurso televisivo, em decorrência das especificidades da sua atuação na sociedade brasileira e da sua capacidade de instaurar uma nova dimensão publica de sociabilidade, tem possibilitado a disseminação não só de conceitos, mas também de formas de pensar e sentir. Assim, o discurso televisivo oferece significados as situações geralmente não vivenciadas pelos telespectadores, o que propaga valores e produz demandas subjetivas, favorecendo a aceitação das interpretações midiáticas como verdadeiras.
As telenovelas e as propagandas publicitárias, não esquecendo também da mídia impressa e os telejornais, acabam muitas vezes veiculando determinadas informações com um olhar enviesando, no intuito de aumentarem sua audiência a qualquer preço, ou por determinados interesses políticos, perdendo muitas vezes a própria noção de seu senso ético profissional.
Um exemplo do jogo de interesses que são intrínsecos as relações midiáticas foi o ocorrido anos atrás quando o jornal carioca “O Globo” estampou em sua primeira página a morte de Odete Roithman – personagem de uma telenovela de grande audiência na época – em detrimento da morte de Chico Mendes – importante líder ambientalista e sindical – morto no mesmo dia.
Outro estigma impresso pela televisão brasileira é a do espetáculo da violência e o discurso do medo que permeiam as noticias e informações veiculadas sobre as favelas ou as periferias, sejam elas urbanas ou não. Este estigma é a lente com o qual os não habitantes dessas regiões vão enxergar a realidade dos mesmos que vivem nessas regiões, muitas vezes envergonhando outras vezes causando um rebaixamento de estima dos cidadãos que nelas vivem, dificultando em muitos casos suas relações sociais em geral. A forma como o outro nos enxerga tem um enorme impacto na constituição de nossa identidade, é sempre com relação ao outro que se coloca a questão da identidade, nos afirmam alguns pensadores da Psicologia Social e da Antropologia. Outra afirmação é o impacto que o discurso televisivo tem na formação de nossa identidade nacional. Não há como negar estas constatações.
A violência é um tema sociológico recente. Embora o termo já fosse utilizado na Antiguidade, as sociedades só despertaram para a problematização da violência a partir de meados do século XIX, quando foi tema de discussão em Hegel, Marx e Nietzsche particularmente em função dos movimentos sociais, das revoluções socialistas e dos levantes das massas que conturbaram o cotidiano, principalmente europeu daquela época.
Aulagnier em A Violência da Interpretação defende a tese da existência da violência necessária à constituição psíquica do sujeito ou telespectador – denominada violência primária; e a daquela considerada desnecessária à vida emocional, e posta a serviço da ordem social – denominada violência secundária.
Com fundamento nesse referencial teórico, supomos que o enaltecimento da violência no discurso televisivo se torna possível em decorrência de dois fatores: primeiro – a associação realizada pelo sujeito entre a violência primária e a secundaria presente no discurso televisivo; segundo – o oferecimento realizado pelo discurso midiático de sentidos e significados de situações que em sua maioria não foram, e possivelmente não serão, diretamente vivenciadas pelo sujeito ou telespectador, dificultando a construção de sentidos e significados singulares. A ação violenta alcança sua meta, quando o desejo de quem a exerce converte-se no objeto demandado por parte de quem sofre seus efeitos, ou seja, a violência torna-se invisível, irreconhecível, porque aquele que sofre seus efeitos passa a demandar uma necessidade que se tornou sua a partir do desejo de outro.
Dessa forma, entendemos o discurso midiático, particularmente o veiculado pela televisão, como portador da violência secundária, pois a antecipação de significação que cria uma demanda especifica é oferecida, a exaustão, a um publico sedento por informações, notícias e mais ainda, sedento por interpretações do mundo. Assim acreditamos que a notícia, acompanhada da interpretação sobre o mundo, oferece esse excesso de significado, que acaba instrumentalizando a necessidade, na medida em que a informação se transformou em necessidade para o sujeito contemporâneo ou o telespectador.
Com relação às propagandas publicitárias Ciro Marcondes Filho em Violência Fundadora e Violência Reativa na Cultura Brasileira, afirma que a violenta agressividade das mesmas realiza-se livremente no Brasil, apoiada a violência fundadora do fazer e desfazer indiferente ao direito do outro, contando com a apatia do poder publico, da desmobilização social, do desinteresse em relação ao bem estar do cidadão. Esse modelo publicitário tem como inspiração o excessivo liberalismo vigente nos Estados Unidos, comum naquele país, porem cauteloso em paises europeus.
Contudo a proposta desta breve reflexão é chamar a atenção para a necessidade de promover a conscientização dos profissionais envolvidos com os meios de comunicação de massa, no sentido de sensibiliza-los para a importância e o impacto que o seu trabalho tem, na formação da identidade social, no imaginário, na mentalidade e também na formação da consciência dos sujeitos que os assistem, dos telespectadores em geral.
Isto posto, trago uma citação de Pierre Bourdieu: “insensivelmente a televisão, que se pretende um instrumento de registro, torna-se um instrumento de criação da realidade”.
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* O título original do artigo é “Reflexões acerca da televisão no Brasil – Preconceito, Violência, Mídia e Representações
Referencias bibliográficas:
SOUZA, M. – Televisão, Violência e efeitos midiáticos
NOGUEIRA, O. – Tanto Preto quanto Branco: Estudos de Relações Raciais
BOURDIEU, P. – Sobre a televisão
AUGE, M. – A guerra dos sonhos: Exercícios de Etnoficção
AULAGNIER, P. – A Violência da Interpretação
RAMOS, M. C. – Brasil, Mídia, Futuro e Futuro da Política
GUIMARÃES, A. S. A. – Preconceito de cor e racismo no Brasil. Revista de Antropologia
BERGER, P. e LUCKMANN, T. – A Construção Social da Realidade, Tratado de Sociologia do Conhecimento
MARCONDES FILHO, C. – Violência Fundadora e Violência Reativa na Cultura Brasileira
CHESNAIS, J. C. – A Violência no Brasil. Causas e recomendações políticas para a sua prevenção
SCHAUN, A. – Educomunicação: Algumas questões sobre Cidadania, Racismo e Mídia ou A inclusão da diferença: Negro de Corpo e Alma

João Jeronymo de Aquino Neto