Os povos Bantu de uma maneira geral cultuam suas Divindades (Mahamba) de uma forma mais simples e natural, que se difere dos outros povos, pois os Deuses adorados, louvados e cultuados pelos povos Bantu são os próprios elementos da natureza, ou seja, a própria Divina Natureza.

As Divindades em seu estado natural, na própria natureza são chamadas de Hamba (plural Mahamba) até serem, através de rezas (musambu) e fundamentos trazidos para o nosso meio, para serem iniciadas na cabeça (Mutuê) do filho (mona) e no assentamento (kuxikama/kunda), onde será cultuada e seu filho nascerá novamente para ela, fazendo-se uma concentração e ligação direta de energias entre o filho e o assentamento de sua Hamba.

No processo de iniciação, essa Hamba passará a ser conhecida e cultuada como Nkisi, pois já não está mais em seu estado bruto, natural. Já está ligada ao seu filho iniciado para ela (muzenza) e no assentamento onde estará ligada através de todo o processo (fundamentos) que foi destinado e elaborado naquele recipiente.

As Divindades Bantu não tiveram passagem pela Terra e nem tão pouco forma humana, são a própria natureza com seus elementos como a chuva, o barro, as folhas, as pedras, a pedra de ferro, as raízes das plantas, o vento, o fogo, o ar, as fontes, as mudanças naturais de temperatura e de tempo e etc.

As línguas faladas pelos povos Bantu são muitas, mas no Brasil as que mais tiveram destaque nas Jinzo (casas) de culto Congo-Angola são o Kikongo, originária dos povos da região do Kongo (Congo) e o Kimbundu, originária dos povos da região do centro de Angola, principalmente acima do Rio Kuanza (Cuanza), ao redor de Luanda.

Falarei também das outras línguas e seus respectivos domínios territoriais, como por exemplo: Ajaua (Moçambique, Malauí e Zimbábue), Bemba (Zâmbia), Kuanhama (Sudoeste Africano-Angola, Namíbia), Ganguela (Fronteira leste de Angola, oeste de Zâmbia), Iaka (Zaire-Kuango, Casai), Língala (Congo, antigo Zaire e outras áreas da África central), Makua (Moçambique, entre o Rovuma e a Lurio), Nhungue (Moçambique), Nianja (Moçambique, Malauí, Zimbábue), Kioko (Chokwe, nordeste de Angola), Suaíle (Tanzânia, Zanzibar, Moçambique), Sutho (África do Sul), Tonga (Moçambique, Zimbábue), Umbundu (abaixo do rio Kuanza, principalmente na região de Benguela), Shona (Moçambique, Zimbábue e Botsuana), Zulu (África do Sul, Botsuana) e outras.

As nações Congo e Angola no Brasil, em termos religiosos, ficaram por muito tempo com a influência do culto Nagô/Yorubá, como até hoje existem muitas Jinzo (casas) de Angola que continuam com essas misturas “nagotizadas”, usando costumes, nomes, línguas, comidas, vestimentas das culturas e tradições Nagô.

A Mbutu (nação) Angola Bantu têm suas próprias tradições e culturas, entre essas, suas próprias vestimentas e principalmente as vestimentas de que caracterizam as Divindades.

Há cerca de dez anos, vem sendo feito um trabalho sério por algumas pessoas, de resgate dessas tradições e hoje já vemos em algumas casas de Congo-Angola (candomblé), Divindades (Bankisi) vestidas conforme suas próprias tradições. Até mesmo o adjá instrumento de chamada, através de seu som pertence à cultura Nagô, o nosso instrumento de chamada através de som é o Kaxixi, chocalho cerimonial feito de coco ou cabaça com sementes e favas dentro, que tem um som menos agudo que o adjá Nagô.

Por isso, meus irmãos e irmãs digo que são culturas e tradições muito diferentes e não há possibilidade alguma do culto desses grupos étnicos num mesmo espaço.

A nação Nagô Yorubá cultua seus Orixás de uma forma mais “humanizada”, pois seus Deuses em algum momento de suas existências tiveram passagem na Terra em forma humana, muitas vezes vistos ou imaginados como heróis, com suas lendas e histórias.

Sua língua é o Yorubá e a maioria dos negros Nagôs que chegaram ao Brasil, vinha principalmente de Benin, hoje Nigéria. Seus Orixás se vestem com roupas e paramentos de muita beleza e exuberância, com seus adês, filás e coroas de extrema beleza, bem diferente dos Minkisi Bantu que usam máscaras na face do filho que está vestido e tomado por seu Nkisi.

P.S. O título original do artigo é "Diferenças entre os Bankisi (plural de Nkisi), entidades do candomblé congo-angola – Bantu -, frente aos Orixás dos Yorubá-Nagôs"

 

Walmir Damasceno – Taata Kwa Nkisi Katuvanjesi