Reverencio os meus mais velhos, pedindo bênção e licença para falar um pouco sobre a religião de matriz africana. Um tema que tanto inquieta aqueles que, por intenções várias, se arvoram discursar sobre o que desconhecem, muitas vezes de forma destrutiva.

As práticas desta religião são legados africanos deixados aos seus herdeiros, à diáspora no Brasil. Na atualidade, essas práticas recebem o nome de Candomblé, originário da palavra Candombe, que quer dizer dança sagrada, derivada, de fato, das danças da folia de reis, congados, catopé, entre tantas outras. Por questões de corruptela da língua, acabou se transformando na palavra candomblé para denominar o Culto aos Orixás ou as religiões de matriz africana.

Na Nigéria esta religião é conhecida pelo nome de Culto às Tradições. Pois bem: este culto é dirigido às divindades que conhecemos por orixás, os mesmos que o povo brasileiro intitula por deuses. Os orixás não são e nunca foram deuses, são sim, divindades entre o Criador do céu e a terra – Deus, como o concebemos, e as criaturas, que somos todos nós outros, que temporariamente vivemos no corpo de carne aqui na terra.

É uma religião Monoteísta. Acreditamos em um Deus único que, devido a sua grandeza, é impossível adorá-lo em imagem ou em oratórios. Acreditamos na vida após morte, pois temos o culto a Egungun. É uma religião em que o dirigente maior tem cargo vitalício e é uma religião composta por três princípios básicos, que permeiam toda doutrina: respeito, preceito e guardar segredo.

Respeito – Prima pelo zelo e respeito aos mais velhos, que dá o tom de temporalidade e equilíbrio, pautado pelos ensinamentos que são direcionados aos mais novos. Fato este que vem de encontro com a cultura do ocidente, onde o colóquio entre um mais velho e um mais novo se dá de igual para igual. Inadmissível a esta tradição.

Preceito – Diz respeito ao resguardo durante o período de obrigações a que o neófito se submete, pelo fato de que essa religião não é de púlpito, nem de convencimento através da oratória. Mas sim de iniciação. É bom lembrar que não existe ex-iniciado. Esta religião tem sacrifícios de animais, idênticos aos de outras tantas religiões igualmente atuais como o Islã, o judaísmo etc, e outro segmento não religioso também muito conhecido aqui no Brasil, chamado maçonaria. Todas as religiões de iniciação requerem de seus seguidores, em algum momento, guardar preceitos. É quando seus fieis abstêm-se de comer certos alimentos, manter relações sexuais e fazer uso de bebida alcoólica.

Guardar segredo – Considerando que somos únicos no universo e quem guarda segredo detém o poder e a soberania, o Culto às Tradições, próximo desta verdade, não trata por igual aqueles que por natureza são diferentes. Cada qual recebe tratativa compatível com a sua particularidade, ou seja de acordo com cada Orixá e adjuntó que compõe a liderança do seu Orí.

Esta religião trabalha com os elementos dos reinos animal, mineral e vegetal. Tem sacrifício de animais apenas, como outras religiões acima citadas, que têm por objetivo a sacralização. E em seguida as carnes servem de repasto ou alimento aos seus fieis. O sacrifício de humanos não faz parte dos ritos afro-brasileiros. Os que insistem em afirmar o contrário não têm outro propósito senão o de difamar e menosprezar a imagem não só da religião de Culto às Tradições ou de Matriz Africana, mas também de seus fieis.

Lançamos aqui aos senhores leitores, um questionamento saudável. Por que não costumam execrar a religião dos mulçumanos nem mesmo o judaísmo e nem tão pouco a maçonaria de forma pejorativa? O que pensam os senhores que elas divergem do Culto às Tradições no quesito sacrifícios?

Continuando com o nosso raciocínio. É preciso atentar que  o  culto às divindades e seus rituais de sacrifícios existe desde que tempo é tempo. Basta voltarmos o olhar para o livro bíblico que trata das cartas de Moisés à tribo de Levi. Lá estão registrados todos os procedimentos relativos aos rituais do povo judeu. Mas os escritos e ensinamentos de Ifá, que é o oráculo de Orúnmilá, considerado a Consciência Cósmica do Povo Iyorùbá, dizem que Ifá antecede a Moisés, antecede a Jesus e antecede a Maomé. Assim sendo senhores, o que a diáspora africana no Brasil faz não é nada de novo. Simplesmente, continua fazendo o que já faziam os seus ancestrais em tempos longínquos.

E para todos aqueles que fazem questão de hostilizar os seguidores dessa religião, tão inflamados em seus discursos de púlpito, escandalizados com os sacrifícios de animais, deveriam se tornar todos sem dissensão de classe, vegetarianos. Porque o consumismo das proteínas da carne animal, que fazem parte de sua rotina alimentar, não é senão fruto do abate ou sacrifício de animais. As bolsas e sapatos pagos a preço de dólares nos dias de hoje não são, senão, também, fruto de abate desses animais. Assim, avaliemos nossa conduta no sentido de extirpar de nossas almas a hipocrisia do nosso dia a dia.

Espero que tenham uma boa reflexão.

Axé.

 

Carlos Alberto Junior