E mais precisamente no Brasil, a religião que se “preservou”, após convenção entre povos e etnias africanos diversas, recebeu este nome de candomblé… Que até hoje ninguém sabe definir sua origem, e nem tão quanto o seu significado. Sabem-se! Infelizmente ele, assim como tantos outros fundamentos e outras coisas, que deviam ser reveladas pelo menos aos seus adeptos, e não o foram.
O fundamento diz que eles devem ser passados de geração a geração, para que pudesse ser preservado através dos tempos… No entanto não o são, mormente, aos adeptos de cor preta. E segundo os zeladores(as) de Orixás: “É para não estabelecer concorrência”, pois para eles(as) a religião é um ‘simples negócio’. Ou simplesmente um meio de vida.
Estes zeladores, desde o princípio, sempre fizeram entre nós aquilo que o mundo branco chama de “reserva de mercado”. E a maioria deles(as) sempre deu preferência e privilégios aos elementos brancos que os acercam, pois estes “têm” dinheiro. Todavia, sem querer justificar, isto tem lá também o seu fundamento.
Desde o princípio do Culto aos Ancestrais, que também há controvérsia entre 1820 ou 1830 (a fundação da primeira Roça de Candomblé), que seus adeptos encontraram sérias dificuldades em cultuá-lo. Além do preconceito racial e religioso ainda eram impedidos por questões econômicas e financeiras. Na época, a maioria de nossos antepassados estava na condição de escravos. A feijoada, por exemplo, que o Brasil exulta em ser um prato típico e originalmente brasileiro.
E tem razão. Os canbomblecistas dizem-na de comida do Orixá Ogum. Mas na verdade, em África, esta comida (ageum) era feita com carne fresca. Aqui no Brasil devida à condição econômica não inexistente ao povo negro “brasileiro”, tiveram nossos antepassados que recorrerem aos restos que os brancos dispensavam de suas culinárias e mesas, das carnes.
Para superar essas deficiências econômicas, diz à lenda que uma antiga “mãe de santo” ortogou a “pessoas ilustres da sociedade” do mundo branco colonial, o título de ogã. Estes não atuavam direto na celebração do ato religioso, tinham somente a obrigação de “custear” o culto. Mas, como diz o dito popular que “ninguém faz nada de graça”, os “patrocinadores” do culto passaram a assediar sexualmente as mulheres do grupo.
Quando os verdadeiros ogãs, aqueles que tinham inferência direta ao culto, foram reclamar à citada zeladora, ou “mãe de santo”, receberam como resposta: “então, sustente ocês o culto!” E teve aí o início da prostituição daquela que deveria, hoje, ser a nossa religião.
O homossexualismo tem início nas senzalas. Pois, na época os homens e mulheres escravizados eram colocados em senzalas distintas e separados. Porquanto, quando sentiam a necessidade de fazerem sexo faziam entre si. Já no mundo branco isso era comum e corriqueiro desde a Europa.
O sincretismo religioso, que de princípio tinha a incumbência de camuflar o culto ancestral, ele findou por firmar profundas raízes, e atualmente é indissolúvel e obrigatório. Não nos é mais possível desassociá-lo. Até, ainda por questões econômicas, o negro ainda precisa do capital branco para manter a sua sobrevivência e a de sua crença religiosa. E o mundo branco tira partido disso. Por que na concepção genocista: “um povo que perde a sua cultura e sua religiosidade se extingue…”.
Devo deixar claro que estou me referindo, mais diretamente, ao candomblé que se desenvolveu no Sul e no Sudeste do país. O que não significa dizer que o candomblé da Bahia, e demais regiões do Norte, Nordeste e Oeste, não tenham também sofrido a ação nefasta do sincretismo e da miscigenação.
Estes que descaracterizou o nosso povo e destruiu a tentativa frustrada de nossos antepassados de preservar a nossa cultura e religiosidade. Do Aiapoque ao Chuí. Não foi somente a religião e a cultura negra que foi descaracterizada, o negro brasileiro sofreu também uma desestruturação, que podemos chamar de físico-biológica, proveniente da miscigenação – esta que, aliás, também foi imposta premeditada e intencionalmente, pois faz parte do “plano genocida” que foi imposto a nós outros, afros-descendentes.
Atualmente, o negro brasileiro é tão afro-descendente quanto euro-descendente, pois admitamos que possua e assume ambas as descendências. A autodefinição de que somos todos negros, que, aliás, já recebemos antecipadamente o Censo de 2010, que prevê uma população estimada de 51,3% de negros.
No entanto, se for de vez e peremptoriamente descartada as “políticas públicas”, “ações afirmativas” e “regimes de cotas”, eu, pessoalmente, não tenho dúvidas algumas de que esta porcentagem cairá em pelo menos 70%. E voltaremos, por exemplo, à década de 70… Quando ninguém queria ser negro.
Todos eram “moreninhos”, “marrom-glacês”, “mulatos” (e sem nenhuns pudores) e… Uma infinidade de outras definições que, se fôssemos registrá-las… Nós teríamos que recorrermos aos antiquados, obsoletos e remotos papiros egípcios.
Ah! E não posso também deixar de registrar que isso tudo nos traz enormes transtornos e dificuldades em nos organizar… E que isto também foi proposital, a miscigenação foi mais uma forma de nos dividir.
E quanto à questão de “os pais e mães de santo esconderem de seu próprio povo os fundamentos de nossa religião”, só devo acrescentar que foi pura perda de tempo. Lembro-me de um zelador e mestre de capoeira que mo disse: “Eu não ensino a nossa cultura pra outro negro (leia-se, preto) puquê si não ele vai fazê cuncurrência comigo”. “Mas, u branco só qué saber pra escrevê o seus livro” (sic). Ledo engano! E errou duas vezes.
Primeiro que, hoje sabemos que os brancos não quiseram aprender somente para “escrever livros”. Caíram pra dentro, eles “fizeram santo” e hoje estão nos comandando dentro de nossa própria religião e cultura -.Vide as escolas de samba. E segundo que, ao escrever os seus livros o branco ensejou o nosso acesso aos “fundamentos” que outrora nos eram negados pelos próprios negros. Basta apenas aprender ler.
Porquanto, este negócio de “religiões de matrizes africanas” é pura balela.
São Paulo, 23 de outubro de 2010.

Neninho de Obalúwáiyé