S. Paulo – O Presidente da Federação Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (FENATRAB) e do Conselho de Ministros do Instituto Latino-Americano de Tradições Afro-Bantu (ILABANTU), jornalista e sacerdote de Candomblé Congo-Angola, Walmir Damasceno (Tata Kwa Nkisi Katuvanjesi), voltou a defender nesta segunda-feira (24/10) que a ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, deixe o cargo na reforma ministerial que a Presidente Dilma Rousseff pretende fazer no início do ano que vem.

Damasceno (foto), que não é filiado a nenhum partido, garantiu já ter pedido ao líder da bancada do PT na Câmara Federal, deputado Paulo Teixeira, que faça chegar à Presidente Dilma, o descontentamento de amplos setores do movimento negro em relação a gestão “fraca e apagada e fechada ao diálogo“ da socióloga à frente da SEPPIR.

O sacerdote, que é a primeira liderança da sociedade civil a vocalizar o que amplos setores do movimento negro defendem, frisa que não pretende "o papel de porta-voz de ninguém". Ele reiterou, porém, a Afropress, a opinião de que a ministra Luiza Bairros “é politicamente fraca, fechada ao diálogo e faz uma gestão voltada apenas para o grupo de ONGs, com o qual tem compromisso e não para a comunidade negra a quem diz representar“.

“O pedido feito se origina da falta de gestão direcionada à comunidade negra e os afro brasileiros, especialmente aqueles aqui no Estado de São Paulo, que é quantitativamente o maior Estado em concentração de população negra no Brasil, embora proporcionalmente, Bahia e Rio de Janeiro possuam maior contingente. Ocorre que nada é feito de forma inclusiva para essa população de São Paulo (…) Muitos são os pleitos e necessidades, mas nenhuma é a atenção ou prioridade em atender as demandas que existem na enorme comunidade afrodescendente em São Paulo“, afirmou.

Leia, na íntegra, a entrevista concedida pelo sacerdote ao jornalista e editor de Afropress, Dojival Vieira.

Afropress – Qual a avaliação que o senhor faz da gestão da SEPPIR e o que o levou a ser a primeira liderança negra da sociedade civil a pedir sua saída, por considerá-la fraca?

Walmir Damasceno – É importante não confundir as posições originadas de uma representatividade, com questões de ordem pessoal. O pedido feito se origina da falta de gestão direcionada à comunidade negra e os afro brasileiros, especialmente aqueles aqui no Estado de São Paulo, que é quantitativamente o maior estado em concentração de população negra no Brasil, embora proporcionalmente, Bahia e Rio de Janeiro possuam maior contingente. Ocorre que nada é feito de forma inclusiva para essa população de São Paulo, nada que realmente melhore as condições daqueles que se dedicam no seu cotidiano a promover a inclusão dessas comunidades. Muitos são os pleitos e necessidades, mas nenhuma é a atenção ou prioridade em atender as demandas que existem na enorme comunidade afrodescendente em São Paulo.

Afropress – Qual a atenção que a SEPPIR dá hoje as religiões de matriz africana, considerando que tem, inclusive, uma Secretaria das Comunidades Tradicionais que, pelo menos em tese, deveria dar atenção especial a essas comunidades?

Damasceno – No que diz respeito à religiosidade e religião de matriz africana, posso afirmar que, especialmente, em São Paulo, nada é feito, muito pouco é de fato o conhecimento e divulgação da importância dessa tradição espiritual e quase nada se valoriza. Estamos esquecidos, tanto quanto estivemos durante todos os séculos que temos enfrentado todo tipo de preconceitos e julgamentos.

Afropress – Na sua opinião, como deveria ser a atuação da SEPPIR como órgão de Governo, em um Estado reconhecidamente racista e que não dá a atenção devida às demandas da população negra?

Damasceno – Essa pergunta necessitaria de uma reflexão mais profunda sobre a natureza do papel do Estado, mas o que podemos resumir é que, deveria ser uma política não só inclusiva, mas, sobretudo proativa, na direção de reparar tantos anos de dicotomias e de preconceito. É evidente que deveriam fazer parte dessa atuação o envolvimento de diferentes níveis de Governo e não somente de uma Secretaria Especial, entendo que, por exemplo, o Ministério Público, órgãos de polícia e inteligência, deveriam fiscalizar rigorosamente atitudes de preconceito e descriminação que são diuturnamente exibidas em certos setores da mídia comprometida com ideologias religiosas contrárias às religiões de matriz africana. Isso é apenas um exemplo, não podemos resumir tudo em uma pergunta. O correto seria, realmente, desenvolver uma ação mais efetiva no combate ao preconceito e exclusão.

Afropress – Porque razão isso não acontece?

Damasceno – Isso é assim, primeiro, porque aquele que exibir ostensivamente sua preocupação com esses temas, deverá estar convicto da sua posição, suficientemente para não depender da aprovação política das pessoas que são engajadas com as causas evangélicas e católicas de uma forma não inclusiva. Ou seja: se for alguém que dependa de votos dessa parcela da comunidade nacional, dificilmente, se arriscará a perder esse apoio, se arriscando a defender as minorias.

Afropress – Em comparação com as três gestões anteriores, quais os problemas que o senhor vê nessa da socióloga Luiza Bairros?

Damasceno – Toda comparação é perigosa, devemos olhar para a frente, para melhorar sempre. Não se trata de comparar, mais de querer sempre o melhor o aperfeiçoamento constante para alcançar os objetivos que são postos na constituição da república.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes. Damasceno Acreditamos que o que já está dito resume bem nosso ponto de vista.

Da Redacao