Rio – Reportagem sobre racismo em redes de supermercados, publicada no Jornal Brasil de Fato em março deste ano, e assinada pelos jornalistas Jorge Américo e Eduardo Sales de Lima foi a vencedora da 1ª edição do Prêmio Abdias do Nascimento, categoria Mídia Alternativa/Comunitária. O anúncio dos vencedores ocorreu nesta segunda-feira (07/11), no Espaço Oi Casa Grande, no Leblon, no Rio.
A matéria traz denúncias de racismo e tortura cometidos contra consumidores negros nas três maiores redes de supermercado do país – Extra, Wal-Mart e Carrefour. Os casos, segundo os jornalistas, “expõem heranças das quais o Brasil ainda não se livrou: a escravidão e a ditadura civil-militar”.
Homenagem
Na festa de entrega, a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Suzana Blass, homenageou o cinegrafista Gelson Domingos, da Rede Bandeirantes de Televisão, morto no domingo (06/11), com um tiro de fuzil disparado por traficantes, quando cobria a ocupação militar na favela Antares.
O Prêmio é uma iniciativa da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio (Cojira), vinculada ao Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, com o apoio, entre outros, da Federação Nacional dos Jornalistas e patrocínio da Fundação Ford, da W.K. Kellog e da Oi. No total foram distribuídos R$ 35 mil aos vencedores, em cinco categorias: Mídia Impressa, Televisão, Rádio, Especial de Gênero, Internet, Mídia Alternativa ou Comunitária e Fotografia.
A iniciativa homenageia o ator, escritor, professor e ex-senador da República, Abdias do Nascimento, o maior líder negro brasileiro do século XX e ícone da luta antirracista no país, morto aos 97 anos, em maio passado,
Confira a reportagem vencedora
“Por que o negro, quando entra no mercado, passa a ser monitorado? Por que, inconscientemente até, o funcionário de segurança dessas lojas passa a ‘copiá-lo’? Porque, na cabeça dele, o negro é o suspeito padrão”. É o que defende o advogado Dojival Vieira, em entrevista à Radioagência NP.
Ele acompanha três casos de pessoas que teriam sofrido tortura física e/ou psicológica em decorrência de racismo nas três maiores redes de supermercado do Brasil: Carrefour, Walmart e Extra (pertencente ao grupo Pão de Açúcar).
Dois destes casos aconteceram no início deste ano. Em Osasco (SP), no dia 16 de fevereiro, a dona de casa Clécia Maria da Silva, de 56 anos, foi parar no hospital depois de ter sido acusada de furto por seguranças da rede Walmart. Um segurança revistou sua bolsa. A cliente portava o cupom fi scal que comprovava o pagamento das mercadorias que levava.
Segundo a médica que atendeu a dona de casa, ela teve uma crise de hipertensão e fi cou próxima de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). O segurança teria dito que “isso acontece mesmo com os pretos”, segundo relato da cliente à Dojival, que acompanha o caso. A ocorrência foi registrada como calúnia no 9º Distrito Policial de Osasco no dia 18 de fevereiro.
Outro caso, tão grave quanto. Um garoto de 11 anos relatou ter sido levado a uma “salinha” nos fundos do hipermercado Extra da Marginal do Tietê, na cidade de São Paulo, e confi rmou ter sido agredido por seguranças no dia 10 de janeiro. O garoto teria sido abordado após passar no caixa com biscoitos, salgadinhos e refrigerantes e se encaminhava para a saída da loja.
Estes dois casos não são inéditos. Em 2009, no estacionamento do Carrefour de Osasco, o vigilante Januário Alves de Santana foi apontado como suspeito de roubar seu próprio carro. Na sequência, sofreu torturas por quase 30 minutos, com socos, pontapés e uma tentativa de esganadura que lhe provocou fratura no maxilar, provocando a destruição da sua prótese dentária.
A existência dessas “salinhas de tortura”, evidenciadas no caso do garoto abordado no Extra e do vigia agredido no Carrefour, põe os supermercados em condição análoga às masmorras.
Isso de acordo com Hédio Silva Jr., exsecretário de Justiça do Estado de São Paulo.”São crimes hediondos. São salas de interrogatórios, espécies de masmorras contemporâneas em que as pessoas são isoladas do público e submetidas a toda sorte de constrangimento. Ao acentuar o papel da vigilância, com isso não estou diminuindo ou relativizando a responsabilidade que a empresa que contrata o serviço, que são os supermercados, possui”, elucida. (A reportagem completa você lê na edição impressa número 418 do jornal Brasil de Fato).

Da Redacao