S. Paulo – Além de morto sob tortura, o dirigente da Aliança Libertadora Nacional (ALN) Luiz José da Cunha, – único militante negro identificado entre os mortos e desaparecidos pelo regime militar – teve o seu certificado de óbito adulterado pelo médico legista Harry Shibata.
Embora as características negras de Cunha fossem evidentes, a ponto de ser conhecido como “Comandante Crioulo”, Shibata fez constar sua cor como branca, conforme Certidão 198.980, Livro 178, folha 7, do Cartório do Registro Civil do 2º Subdistrito – Jardim América. O dirigente negro da ALN morreu em conseqüência de torturas.
A Certidão diz que sua morte – ocorrida em 13 de julho de 1.973, às 15h na Av. Santo Amaro, próximo ao número 2000 – teria sido motivada por “hemorragia interna por projétil de arma de fogo”. A procuradora federal Eugênia Augusta Gonzaga Fávero disse que vai pedir a retificação da Certidão junto a Vara de Registros Públicos, para que conste a cor verdadeira do militante morto.
Shibata perdeu seus direitos de exercer a medicina por ter comprovadamente falsificado laudos de outros presos políticos mortos sob tortura, inclusive o do jornalista Wladmir Herzog.
A reunião com a Comissão de familiares de desaparecidos, representantes de entidades e lideranças negras, convocada pela procuradora e pelo procurador regional da República, Marlon Alberto Weichert, definiu o dia 1º de setembro para a realização do ato inter-religioso que marcará a entrega dos restos mortais aos familiares. A cerimônia está marcada para as 9h30 na Catedral da Sé.
Realizada na Procuradoria da República, na Rua Peixoto Gomide, foi aberta por Maria Amélia Teles (foto) da Comissão de Desaparecidos que fez um depoimento emocionado sobre a luta das famílias para identificar os restos mortais do dirigente negro morto. A ossada de Cunha era uma das 1.500 enterradas numa vala no cemitério de Perus, no dia 13 de julho. Estava sem a cabeça e a luta para identificá-la levou 15 anos.
A procuradora Eugênia Fávero disse que o ato da catedral da Sé terá apresentação de músicas e falas de autoridades religiosas. Depois, os restos serão embarcados em urna do Serviço Funerário Municipal para Recife onde Luiz José da Cunha será enterrado, no dia 02 de setembro, junto ao túmulo da mãe.
“Nunca tínhamos identificado um preso político que fosse negro. A identidade dele é a identidade do povo negro. Homenageá-lo é homenagear a todos os que tombaram pela democracia e pela liberdade neste país”, afirmou.
O ex-presidente da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP, Marco Antonio Zito Alvarenga, representou o presidente da OAB, Luis Flávio Borges D`Urso e se solidarizou com os esforços do Ministério Público. Também estiveram presentes Pai Francelino de Shapanan, representando as religiões de matriz africana, José Reinaldo, do SOS Racismo da Assembléia Legislativa, Sheikh Muhammad Ragip, Representante da Ordem Sufi Halveti Jerrahi no Brasil; Sheik Jihad Hassan Hammadeh, Representante da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica da América Latina; Sérgio Ricardo Francisco Ferreira, Presidente do Centro Budista Djampel Pano e Zaid Ahmad Saifi, do Centro do Islam para América Latina.
O jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress, disse que a identificação do militante negro morto é um resgate que faz jus a história do povo negro na luta contra a ditadura, normalmente mantida na invisibilidade. O jornalista cumprimentou os promotores e o MP, bem como a Comissão de Desaparecidos. “Lembrando o poema de Brecht sobre os Bons, vocês são os melhores”, afirmou.