Há no Brasil um tipo de movimento negro ainda apegado a uma espécie de corporativismo de cor e que diante da evidência do racismo que permeia as relações sociais econômicas e políticas, não consegue ir além da condição de vítima simbólica.

Esse tipo de movimento marcado por ressentimentos históricos herdados e ou vividos, divide a sociedade pela cor/raça – de um lado o negro, a vítima, o suspeito padrão, e de outro, o branco opressor e detentor de privilégios – e não pela condição de classe. É equivocado, desmobilizador e excludente, pois não nos vê como pessoas reais, seres humanos de carne e osso, com virtudes e defeitos, cidadãos, enfim.

Diante do racismo – essa patologia que é um dos elementos estruturantes da desigualdade social brasileira -, reserva aos negros apenas o papel de vítimas ou padrões de virtude; ou ambos, já que não são contraditórios entre si.

Esse tipo de movimento negro ignora que vivemos numa sociedade capitalista, em que a contradição fundamental é a opressão de classe – quem detém o capital e explora a força de trabalho de quem não detém -, e não a quantidade de melanina que cada um carrega. Simples assim.

O racismo brasileiro, fruto da herança maldita de quase quatro séculos de escravidão, é parte do sistema de exploração capitalista. Não é, contudo, sua contradição fundamental. Luta de classes é palavra estranha ao dicionário desse tipo de movimento – desgraçadamente ainda majoritário e hegemônico – que, ao tratar tudo e todos a partir da cor, se coloca naturalmente à margem. Sua opção preferencial é pelo gueto. Rejeita alianças com setores antirracistas da sociedade e assume – voluntária e conscientemente – uma espécie de atitude simbólica/passiva. Em verdade, a outra face da moeda que, ao invés de combater reforça e preserva intacto o sistema racista.

Esse tipo de movimento, desprovido de proposta, de agenda e de programa, não oferece qualquer ameaça. Está a margem e faz questão de se manter à margem, fazendo uso da zona de conforto paradoxalmente criada pela condição de vítima histórica. Optando pelas margens para onde negros fomos históricamente jogados, não tem influência, nem peso na agenda política do país em que correspondemos – sempre devemos lembrar – a 50,7% da população, de acordo com os dados do Censo do IBGE 2010.

Senão como explicar que, em um país majoritáriamente negro, continuemos tão sub-representados em todos os espaços públicos e privados? Há algo de muito errado nessa história em que uma maioria estatísticamente definida aceita a subalternidade como espaço e renega a altivez como bandeira.

Corporativismo de cor

O corporativismo de cor se manifesta com a posição de que certos temas não podem ser discutidos em público, mas apenas “entre negros, dentro do movimento”, como se houvesse assuntos proibidos.

Numa rápida síntese é como se houvesse temas interditados ao debate público e que só podem ser discutidos entre negros (quase sempre a experiência mostra que essas restrições se ampliam até o círculo se fechar nos “negros do meu partido”, do “meu grupo político”, “da minha roda” ou da “minha quebrada”), o que remete a ideia de que nos reduzimos a uma espécie de corporação fechada, confraria, seita refratária ao debate e participação de quem não é negro.

É corriqueiro se ouvir em determinadas reuniões, encontros e ou debates expressões do tipo "o movimento negro decidiu", "o movimento negro está discutindo", "o movimento negro entende", sem que se explicite que movimento negro é esse, quem decidiu, quando e com procuração de quem. Esse sujeito oculto, incontestável [o movimento negro] passa a ser o elemento justificador, a "verdade revelada", de todo tipo de equívoco. 

Esse é apenas o estágio anterior a quem acha que o mundo se divide entre negros x não-negros e que "assunto de negro deve ser debatido só entre nós". Mais um passo e estamos diante de  uma sociedade dividida a partir da cor e não da exploração de classes, o que expõe um racialismo tosco, que não tem coragem de se assumir e que mimetiza bandeiras, demandas e práticas do movimento negro norte-americano e de alguns dos seus líderes como Malcoln X na sua fase mais doutrinária na década de 60, quando aderiu ao Islam.

Ocorre que, ao contrário dos EUA, em que os negros correspondem a apenas 12% da população, no Brasil somos a imensa maioria do povo brasileiro.

Esse tipo de discurso e de postura nos desarma e nos reduz a apenas símbolos de um antirracismo de salão em que o radicalismo verbal é apenas uma forma de mascarar o vazio de conteúdo de ideias e de propostas. Nos tornamos por esse modelo objetos de estudo e não sujeitos da nossa própria história.

Nova geração, velhas idéias 

O que é mais grave é que há uma nova geração se formando com ideias desse tipo, e se pretendendo porta-voz da população negra brasileira, como ficou demonstrado em debate na última segunda-feira (24/08) promovido pelo Curso de Serviço Social da Unifesp/Baixada Santista no saguão do campus Silva Jardim.

Essa nova geração, mesmo ao esboçar o desejo de protagonismo, não consegue ir além da vitimização como bandeira. Seu discurso raivoso e ressentido não apenas constrói sobre si uma espécie de cordão de isolamento, como mantém distância de setores não negros, antirracistas que abraçariam com entusiasmo – como muitos o fazem – mas que, diante da agressividade da suposta vítima, opta por se manter distância para "evitar problemas".

É precisamente o que logra esse antirracismo simbólico. Quanto mais isolados, quanto mais mantidos no gueto, mais vítimas; mais simbólicos, mais úteis a manutenção do sistema.

Esse tipo de antirracismo é capaz de fazer marchas e contra-marchas como a “Marcha das Crespas”, e no seu reducionismo tosco faz militância nas redes sociais na linha do “meu cabelo é bom, ruim é o racismo”, mas não consegue se perceber dentro de um sistema de exploração capitalista perverso em que “a carne mais barata é a carne negra”, porém, há também “carnes de outras cores” expostas no mercado do trabalho assalariado.

Diante de um Estado que tem uma Polícia criada sob o escravismo para caçar (“prear”) negros e que, segundo as seguidas edições do Mapa da Violência, mata 3,7 vezes mais jovens negros do que brancos, ao invés de buscar no DNA desse tipo de aparato repressivo explicações para a matança, reduz tudo a uma palavra de ordem ("genocídio da juventude negra", por exemplo) ao invés de mobilizar-se para desmontar a estrutura e a cultura de morte do aparelho policial a serviço das classes que se apropriaram e se beneficiam da exploração capitalista.

Esse tipo de antirracismo simbólico celebra a palavra de ordem “Somos todos Maju”, ecoando William Bonner no Jornal Nacional, para esquecê-la uma semana depois, e exalta o fato de uma negra ser a garota do tempo do Jornal Nacional ignorando que a jornalista ocupou esse espaço pela sua inegável competência profissional e não precisa ser paparicada ou celebrada ou reverenciada apenas por ser negra; e que a emissora lhe abriu espaço como um símbolo – tão a gosto do antirracismo simbólico – como parte da estratégia de “esconder mostrando e mostrar escondendo”, a política preferida pelo chefão global Ali Kamel, o mesmo que diz que não somos racistas. Me explico: para cada “Maju” que é mostrada como algo exótico e excepcional, milhões de profissionais, jornalistas são sacrificados e excluídos para a manutenção do padrão global – eurocêntrico e branco.

Resumo da ópera: embora não tenhamos o direito de não ter esperança, é inevitável concluir: estamos mal. Dessa forma o racismo com sua inevitável face – o antirracismo simbólico – acaba desgraçadamente se perpetuando.

Desnudar as ilusões, contradições e ciladas desse tipo de movimento é fundamental para que as novas gerações de negros e antirracistas se assumam como protagonistas reais das transformações no Brasil. Um modelo de antirracismo que mantém a nós, os negros, presos à condição de vítimas é o oposto do que sugere: não é resistência é rendição.

 

Dojival Vieira