Rio de Janeiro – Se é verdade que diversas empresas e empresários do Brasil tem demonstrado interesses em mobilizar recursos materiais e humanos no sentido de promover o bem estar social nas comunidades nas quais estão inseridos com seus negócios, por outro lado há uma inequívoca constatação de que as relações no mundo do trabalho entre empresários e empregados estão muito distantes do que se propõe o movimento de responsabilidade social empresarial. As contradições absolutamente visíveis do mundo do trabalho não conseguem diluir, mas apenas represar os conflitos inconciliáveis entre classe sociais e grupos tão distintos.
Mas qual seria a correlação entre responsabilidade social e ação afirmativa? Seria a ação afirmativa uma modalidade teórica e prática da responsabilidade social empresarial? A despeito da pouca produção acadêmica sobre os temas correlacionados, a tradição das reflexões sobre os temas indicam recorrentemente uma abordagem onde o Estado tem a primazia de fomentar, propor e implantar as ações afirmativas na sociedade, principalmente para beneficiar focalizadamente grupos sociais distintos. No campo empresarial, que é o espaço tradicional do movimento de responsabilidade social, a empresa por si só define gerencialmente sobre suas prioridades, singularmente no que se refere aos investimentos da filantropia empresarial ou da cidadania corporativa. Nesta perspectiva relacional, ainda que reducionista, a ação afirmativa é concebida como coisa de governo e, a responsabilidade social, como algo do universo privado do mundo da produção, de iniciativa particular e de controle restrito. Mas por interferir decididamente no tecido social mais amplo, sob a forma de agente econômico ou como promotor de ações sociais de interesse empresarial, seria racional considerar que o movimento de responsabilidade social empresarial é um fenômeno que não deve estar estritamente construído conceitualmente e, nem materialmente apenas pelo setor produtivo. Ou por interferir de forma tão substancial na sociedade, ainda que embrionariamente, mas de forma endêmica e capilar, seria plausível considerar a interconexão entre o movimento de responsabilidade social e os grupos sociais com suas demandas invariavelmente distintas. Logo, a sociedade e seus organismos sociais de consolidação da cidadania ativa deveriam interagir e interferir no movimento empresarial de responsabilidade social de forma ordinária e sistêmica. É impensável dissociar responsabilidade social e suas relações com a sociedade civil.
Se é verdade que existe uma consciência empresarial destacada no que se refere a sustentabilidade econômica, ambiental e social de seus negócios, há também transversalmente uma consciência de caráter oportunista-utilitarista que absorve o discurso da responsabilidade social, mas que destoa material e simbolicamente entre o discurso e a prática real. O que está em jogo não é apenas a melhor forma de manejar os recursos naturais não renováveis, mas também a certeza de que as profundas desigualdades realimentam riscos permanentes para o progresso dos negócios das empresas. Desta forma a responsabilidade social pode ser vista sobre diversos ângulos e diversas utilidades. Para alguns é apenas uma oportunidade de inovar operações obsoletas e para outros apenas um negócio de formato renovado.
O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, uma organização privada de empresas associadas divulgou recentemente o que se poderia chamar vulgarmente do “dilema da responsabilidade social empresarial no Brasil” em sua pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Políticas Afirmativas. O que foi revelado? Que pelo menos 40% num universo de 247 empresas brasileiras desenvolvem alguma modalidade de ação afirmativa e que perfazem aproximadamente 1.170.597 funcionários. No entanto ao se avaliar os dados desagregados percebe-se a afirmação de profundas desigualdades raciais e de gênero nas empresas pesquisadas, isto é, verificar-se um hiato entre a prática e o desejo substancial de se promover ações afirmativas. O índice de participação na diretoria das empresas é de 9% para as mulheres e de 1,8% para os negros. Na medida em que se desce na hierarquia corporativa das empresas estes percentuais tendem aumentar, como revela a pesquisa: as mulheres perfazem 28% dos postos de nível de supervisão e 35% do quadro funcional e, entre os negros as funções de supervisão chegam a 13,5% e 23,4% no nível funcional. Paradoxalmente, o Instituto Ethos tem empreendido esforços institucionais no sentido de promover a diversidade no ambiente corporativo, publicando exemplarrmente a Cartilha Como as Empresas podem (e devem) Valorizar a Diversidade, no entanto, este aspecto tão indispensável para uma sociedade marcadamente enviesada pela mesclagem racial, ainda não é considerado na definição nas estratégias de contratação por um número significativo de empresas.
Há que se destacar que a realização de atividades de promoção social das empresas tem se expandido consideravelmente nos últimos 10 anos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada desenvolveu recentemente uma das melhores investigações no âmbito da análise do comportamento das empresas na área social, através da Pesquisa Ação Social das Empresas. Dentre os dados quanti-qualitativos revelados pela pesquisa é a dimensão numérica das empresas que desenvolvem algum tipo de ação social. Só na Região Sudeste de um universo identificado de 420 mil empresas em 2003, 71% empresas, realizavam algum tipo de ação social em caráter voluntário. Na Região Nordeste, de uma base de 82 mil empresas, 74% desenvolviam algum tipo de atividade social. Estes indicadores na expressão numérica das empresas demonstram o potencial inédito das atividades de responsabilidade social empresarial pouco mensurado ainda no Brasil.
Independentemente da razão que estimulam as empresas a adotarem as ações sociais, seria pertinente questioná-las também quanto aos critérios utilizados para a identificação e priorização do público-alvo. Ao que parece, este é um elemento indispensável para se pensar uma estratégia conseqüente para aplicação de políticas afirmativas de âmbito privado com ênfase na promoção racial no interior corporativo.
Ainda que o conceito de diversidade tenha chamado a atenção de alguns segmentos empresariais mais modernizados pelas transformações permanentes que ocorrem do campo dos recursos humanos, esta ênfase tem firmado foco majoritariamente entre os portadores de necessidades especiais e de forma pouco consistente entre mulheres, o público da terceira idade e até mesmo entre ex-presidiários. Mas por um lado a mesma pluralidade que distingue aparentemente as boas práticas democratizadoras de diversidade em RH no ambiente empresarial, podem estar obstruindo e nivelando a equidade racial no ambiente de trabalho a baixo da importância que deveria ter. Pois ao superestimar e priorizar outras categorias em situação de vulnerabilidade, as empresas podem justificar uma prática tolerável e socialmente responsável e, conseqüentemente se afastar dos eixos do debate acerca das desigualdades raciais no espaço empresarial.
Embora seja de grande mérito mobilizar recursos materiais no sentido de promover o bem estar comunitário ou melhorar o nível de satisfação do público interno, a responsabilidade social, representada por suas inúmeras faces, não poderá evoluir conceitualmente nem produzir o prestigio social indispensável para a sustentação de sua imagem aparentemente progressista, se não responder as demandas que necessitam de ações focalizadas.
As ações afirmativas não devem ser vistas pelo segmento empresarial como um exercício sacrificial, cujas bases estão forjadas em um investimento sem retorno positivo, ao contrário, a ação afirmativa deve ser concebida como um ativo de grande rentabilidade agregada, pois além de se combater as desigualdades raciais no mundo do trabalho, produz objetivamente a distribuição de riquezas e recursos capazes de alavancar diversos segmentos da cadeia de interesses da rede corporativa. O movimento de responsabilidade empresarial tem este desafio: o de agregar valor a um conceito que demanda de práticas e valores ainda pouco expressos.

Juca Ribeiro